A roupa nova do rei

Quando criança, ouvi esse conto inúmeras vezes, lido e relido pela minha mãe. Claro, na época não existia TV, somente livros, discos e rádio para ouvir. O costume era a leitura antes de dormir, e todas as noites as histórias da Carochinha eram lidas e relidas. O que despertou em mim o gosto enorme pelas viagens proporcionadas pela leitura. Esse conto é emblemático, me acompanhou a vida toda, em momentos diversos. Sempre me lembro dele, e nos nossos tempos atuais, está mais que atual e moderno, com as mesmas lições de sempre. Várias interpretações são possíveis, mas é importante que cada um tenha a sua própria interpretação, e o releia algumas vezes, para ir ajustando a interpretação aos novos contextos. Boa leitura, vale a pena demais.

A ROUPA NOVA DO REI (Hans Christian Andersen – 1837)

Há muitos e muitos anos atrás, havia um rei tão apaixonado, mas tão apaixonado por roupas novas, que gastava com elas todo o dinheiro que possuía. Pouco se importava com seus soldados, com o teatro ou com os passeios pelos bosques, contanto que pudesse vestir novos trajes. E ele tinha mesmo um para cada hora do dia, tanto que, ao invés de se dizer dele o que se diz de qualquer rei: “O rei está ocupado com seus conselheiros”, por exemplo, dele se dizia sempre a mesma coisa: “0 rei está se vestindo”.

Na cidade em que vivia, a vida era muito alegre; todos os dias chegavam multidões de forasteiros para visitá-la, e, entre eles, certa ocasião, chegaram dois vigaristas. Sabendo do gosto do monarca, e tramando dar nele um golpe, fingiram-se de tecelões, e apresentaram-se no palácio dizendo-se capazes de tecer os tecidos mais maravilhosos do mundo. E não somente as cores e os desenhos de seus tecidos eram magníficos, mas também os trajes que faziam possuíam a qualidade especial de se tornar invisíveis para aqueles que não tivessem as qualidades necessárias para desempenhar suas funções e também para aqueles que fossem muito tolos e presunçosos. “Devem ser trajes magníficos – pensou o rei.” E se eu vestisse um deles, poderia descobrir todos aqueles que em meu reino carecem das qualidades necessárias para desempenhar seus cargos. E também poderei distinguir os tolos dos inteligentes. “Sim, estou decidido a encomendar um desses trajes para mim!” Entregou então a um dos tecelões uma grande soma em dinheiro como adiantamento, na expectativa de que assim os dois começassem imediatamente o trabalho. E foi o que aconteceu: depois de receberem uma grande quantidade de seda pura e fio de ouro, material que guardaram em seus alforjes, os dois vigaristas prepararam os teares e fingiram entregar-se ao trabalho de tecer, embora não houvesse um só fio nas lançadeiras.

Gostaria de saber como vai o trabalho dos tecelões” – pensou um dia o rei. Todavia, temendo ser ele mesmo um tolo, ou alguém incapaz de exercer a função de rei, desistiu de ir pessoalmente e decidiu mandar outra pessoa em seu lugar. Todos os habitantes da cidade conheciam as maravilhosas qualidades do tecido em questão, e todos, também, desejavam saber, por esse meio, se seus vizinhos ou amigos era tolos. “Mandarei meu fiel primeiro ministro visitar os tecelões – pensou o rei.” “Será o mais capacitado para ver o tecido, pois é um homem muito hábil e ninguém cumpre seus deveres melhor do que ele”. E assim o bom e velho primeiro-ministro dirigiu-se ao aposento em que os vigaristas trabalhavam nos teares completamente vazios. “Deus me proteja!” – pensou o ancião, e abrindo bem os olhos pensou “Mas eu não vejo nada!” Os dois vigaristas, então, notando a expressão de espanto no rosto do velho, pedem-lhe que se aproxime e opine acerca do desenho e do colorido do tecido. Mostram-lhe o tear vazio e o pobre ministro, por mais que se esforçasse para ver, não conseguia enxergar coisa alguma, porque não havia nada para ver. “Deus meu! -pensava. “Serei eu tão tolo assim?” E não querendo que ninguém soubesse de sua tolice e menos ainda que o julgasse incapaz de exercer a função de ministro, imediatamente respondeu: “É muito lindo! Que efeito encantador!!” E fitando o tear vazio através de seus óculos: “0 que mais me agrada são os desenhos e as maravilhosas cores que o compõem. Asseguro-lhes que direi ao rei o quanto gosto de seu trabalho!” “Ficamos muito honrados em ouvir tais palavras de vossos lábios, senhor ministro” — replicaram os tecelões. E imediatamente começam a verbalmente descrever os detalhes do complicado desenho e das cores que o formavam. 0 ministro ouviu-os com a maior atenção, com a intenção de repetir essas palavras quando estivesse na presença do rei.

Percebendo que seu plano estava dando certo, os dois vigaristas pedem então mais dinheiro, mais seda e mais fio de ouro, para dar prosseguimento a seu trabalho. Porém, assim que recebem o solicitado, guardam-no como antes. Nem um só fio foi colocado no tear, embora eles fingissem continuar trabalhando apressadamente. Passado algum tempo, o rei envia outro fiel cortesão para verificar o progresso do trabalho dos falsos tecelões e a fim de saber se eles demorariam muito para entregar o tecido. A este segundo enviado aconteceu a mesma coisa que com o primeiro: “Não acha que é uma fazenda maravilhosa?” – perguntaram os vigaristas, mostrando e explicando um desenho imaginário e um colorido não menos fantástico, que ninguém conseguia ver. “Sei que não sou tolo” – pensava o cortesão, “mas se não vejo o tecido, é porque não devo ser capaz de exercer minha função… Melhor pois não dar a perceber esse fato.” E assim foi, até que o rei convencido de que ele próprio deveria ver o tal tecido enquanto ainda estivesse no tear, pediu que outros mais cortesãos, dentre os quais o primeiro-ministro e o outro palaciano que haviam fingido ver o tecido, o acompanhassem em uma visita aos falsos tecelões. Chegando lá, viu que os dois vigaristas com o maior cuidado trabalhavam no tear vazio, e com grande compenetração. “É magnífico!” – exclamaram o primeiro ministro e o palaciano. “Digne-se Vossa Majestade a olhar o desenho. Que cores maravilhosas!” E apontavam para o tear vazio, pois não tinham dúvidas de que as outras pessoas viam o tecido. “Mas o que é isto?” – pensou o rei. “Não estou vendo nada! Isso é terrível! Serei um tolo? Não terei capacidade para ser rei? Certamente não poderia acontecer-me nada pior.” E assim pensando, exclama: “É realmente uma beleza esse tecido!” “E merece minha melhor aprovação.” E manifestava sua aprovação por meio de alguns gestos, enquanto olhava para o tear vazio, pois ninguém poderia supor que ele não estivesse vendo coisa alguma.

Por sua vez, todos os outros cortesãos olhavam e obviamente também não viam nada. Porém, como nenhum queria passar por tolo ou incapaz, todos fizeram coro às palavras de Sua Majestade. “É uma beleza!” –exclamavam. E aconselharam o rei a mandar fazer uma roupa com aquele tecido maravilhoso, e que a estreasse no grande desfile que se iria realizar daí a alguns dias. Os elogios ao inexistente tecido corriam de boca em boca e toda a cidade estava curiosa e entusiasmada. E o rei condecorou os dois vigaristas com a ordem dos cavaleiros e concedeu-lhes o título de Cavaleiros Tecelões… Na noite anterior ao desfile, os dois vigaristas, querendo que todos testemunhassem seu grande interesse em terminar a roupa do rei, passam a noite toda trabalhando, à luz de dezesseis velas. E fingem tirar a fazenda do tear, e cortá-la com enormes tesouras e costurá-la com agulhas sem linha de espécie alguma até finalmente dizer: “Já está pronto o traje do rei!!” 0 rei, então, acompanhado por seus mais nobres cortesãos, vai ao atelier dos vigaristas, e um deles, levantando um braço, como se segurasse uma peca de roupa, diz: “Aqui estão suas calças. Este é o colete!!! Veja, Vossa Majestade, aqui está o casaco!! Finalmente, dignai-vos a examinar o manto!! Estas peças pesam tanto quanto uma teia de aranha. Quem as usar mal sentirá o seu peso…” E embora ninguém visse nada, todos fingiam ver, enquanto ouviam os vigaristas a descrever as roupas, porque todos temiam ser considerados tolos ou incapazes.

Tirai agora vossas roupas, Majestade –disse um dos falsos tecelões– e assim poderá experimentar a roupa nova na frente do espelho”. E o rei tirou a roupa que vestia e os impostores fingiram entregar-lhe peça por peça sucessivamente e a ajudá-lo a vestir cada uma delas. “Que bem assenta este traje em Sua Majestade!!!” “Como está elegante!!! Que desenho e que colorido! É uma roupa magnífica!” “Estou pronto” – disse finalmente o rei, completamente nu. “Acham que esta roupa me assenta bem?” E novamente mirou-se no espelho, a fim de fingir que se admirava vestido com a roupa nova. E os camaristas, que deviam carregar o manto, inclinaram-se fingindo recolhê-lo do chão e logo começaram a andar com as mãos no ar, carregando nada, pois também eles não se atreviam a dizer que não viam coisa alguma. À frente o rei andava orgulhoso e todos os que o assistiam das ruas e das janelas, exclamavam: “Como está bem vestido o rei! Que cauda magnífica! A roupa assenta nele como uma luva!!!” Nunca na verdade a roupa do rei alcançara tanto sucesso!! Até que subitamente uma criança, do meio da multidão gritou: O rei está nu!!!

Ouçam! Ouçam o que diz esta criança inocente!” – observou o pai a quantos o rodeavam. Imediatamente o povo começou a cochichar entre si. “0 rei está nu! O rei está nu!!” – começou a gritar o povo. E o rei ouvindo, fez um trejeito, pois sabia que aquelas palavras eram a expressão da verdade, mas pensou: “O desfile tem que continuar!!” E, assim, continuou mais impassível que nunca e os camaristas continuaram, segurando a sua cauda invisível.

Conto de Hans Christian Andersen – 1837, dominio público. Um pouco mais sobre ele, aqui na Wikipedia.

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Google, Apple, IBM deixam de exigir diploma

A notícia, publicada ontem aqui neste link, já não é novidade. É uma tendência verificada nos EUA, por questões particulares internas dos EUA. A notícia já foi publicada antes, não é novidade, vejam aqui neste link. Provoca a imaginação de quem está no ramo da tecnologia, afinal conseguir um emprego numa prestigiada empresa dessas ai, e outras do setor de tecnologia, sem ter que fazer curso superior, quem não quer?

Mas não se iludam, não é nenhum carnaval de contratações. Se lerem os dois artigos que indiquei acima, vão perceber que essas contratações estão acontecendo somente dentro dos EUA, e os motivos de as empresas não estarem exigindo o diploma são fáceis de entender, dado o contexto deles. Vejamos: -o custo de um diploma universitário nos EUA é proibitivo para a maioria dos estudantes e famílias. Termina-se o curso superior com uma dívida enorme, normalmente acima dos US$ 100.000,00 dependendo da universidade e do curso. O débito estimado das famílias e formandos fica acima de 1 trilhão de dólares, uma fábula. Se forem para a pós-graduação, piora a situação. Vejam algumas estatísticas neste artigo da Forbes; -as empresas de tecnologia na área de TI têm o foco em profissionais que se formaram nas grandes universidade, como Stanford, Berkeley e outras, criando um círculo meio vicioso de arejamento de ideias. Esse arejamento é enormemente favorecido pela diversidade; -algumas funções em TI podem perfeitamente ser desempenhadas por pessoas sem o diploma superior. Por exemplo programador de jogos, como citado no artigo. E outras com o mesmo baixo nível de risco para o usuário final.

Como podem ver, não é nada que possa ser entendido como uma tendência mundial, nem de longe é isso. A questão da diversidade, por exemplo, é fundamental para um país como os EUA que depende da inovação para se manter na frente do desenvolvimento tecnológico. É também mais que sabido e estudado que a diversidade (no sentido amplo) favorece a criatividade e, em alguns casos, a inovação. Para algumas funções, há profissionais disponíveis no mercado dos sem-diploma, que podem tranquilamente ser contratados. Mas, não se iludam: funções de alto-risco, as de salário mais alto e com maior nível de risco envolvido, dificilmente vão ser ocupadas por profissionais sem a formação adequada, algumas funções têm exigência até de doutorado. Isso não muda nem um milímetro, pelo menos por enquanto. Engenheiro ou arquiteto de software, arquiteto corporativo, especialista em segurança, segurança de redes, analista de dados, segurança de dados, cloud computing, etc., exigem formação e diploma, muito estudo e muita prática.

O mais sábio é terminar seu curso superior, ficar com seu diploma garantido, pois embora ele possa não ser exigido pelo mercado de trabalho, é uma garantia a mais da sua empregabilidade, sendo uma parte inicial do seu currículo profissional. Claro, sem estabilidade e crescimento econômicos sustentáveis, não há diploma que nos salve do desemprego, em qualquer parte do mundo. Lembrem-se também de que o Brasil tem excelentes universidade públicas, gratuitas de fato (as universidades públicas nos EUA não são gratuitas, sabiam disso?), que vão deixar vocês muito próximos do mercado de trabalho. Para os que podem pagar, o mesmo deve ser dito para as universidades privadas, temos várias de excelente qualidade, competitivas e que formam profissionais competentes para o mercado nacional e mundial.

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Vítimas da internet

A tecnologia avança, fazendo suas vítimas e catalisando sucessos. Perde-se de um lado, ganha-se de outro. Quem não enxerga as mudanças e não se adapta a tempo, é atropelado pelas mudanças. No meu último post no portal SIMI, Vítimas da Internet, discuto o caso da Blockbuster. Boa leitura!

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Privacidade

Privacidade foi o tema do meu artigo de junho,  publicado no Portal SIMI. Estamos protegidos? Temos direito de acesso garantido aos nossos próprios dados? Podemos impedir que sejam usados por terceiros? São questões que aos poucos vão nos engulindo, se não tomarmos os devidos cuidados. Vejam o artigo aqui neste link, no Portal SIMI. Boa leitura!

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Novas tecnologias e a construção civil

Esta é minha quarta postagem no portal SIMI: Novas tecnologias e a construção civil. Abordo como a construção civil já está sendo afetada pelo uso de novas tecnologias, notoriamente as impressoras 3D que estão revolucionando e acelerando o mercado. Vejam o artigo aqui neste link, no Portal SIMI. Boa leitura!

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The Righteous Mind

Mais um livro fantástico, leitura que exige atenção e concentração, anotação e releitura. O autor que já conheço de outro livro também muito bom, The happiness hypothesis, que lí há pouco tempo. O livro atual é sobre psicologia moral, o autor descreve seus principais resultados de pesquisas sérias (e de outros autores) sobre a questão moral do ser humano, de como temos necessidade de nos sentir incluídos em grupos com a consequência de nos tornarmos cegos aos argumentos de outros grupos. Isso é muito presente na religião, e notoriamente na política (estadunidense em particular, que é o foco do livro). Liberal, libertário, progressista, conservador e suas variações e misturas são descritos com base na matriz moral que ele propõe, baseada em seis dimensões: Care/harm, Fairness/Cheating, Loyalty/Betrayal, Authority/Subversion, Sanctity/Degradation, Liberty/Opression. Usando essa matriz moral, ele mostra como as diversas tendências políticas e sociais se enquadram mais em algumas dimensões do que em outras. E faz todo sentido. Pelo menos, ele mostra fundamentos psicológicos que servem de base para mostrar tendências sociais e políticas do ser humano, em bases mais científicas e filosóficas, saindo do achismo e da paixão política. Como o autor escreve nas Conclusões do livro: “In this book I took you on a tour of human nature and human history. I tried to show that my beloved topic of inquiry – moral psychology – is the key to understanding politics, religion, and our spectacular rise to planetary dominance.” É um livro para reler várias vezes, melhorou demais meu entendimento e percepção das diferenças. Leitura indispensável para quem quer ter um melhor entendimento deste mundo maluco em que vivemos.

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Decisões reativas – II

Análise sistêmica é algo que me fascina, invisto boa parte das minhas leituras e esforço intelectual em tentar enxergar sistemas, e não fatos isolados. Enxergar a floresta antes de mais nada para só então focar nas árvores, usando uma expressão mais corriqueira. Para mim, decisões estão imersas em um contexto complexo  e em raras vezes, apenas complicado (vejam aqui uma diferenciação entre complicado e complexo. Não são a mesma coisa!). Mexer em variáveis sistêmicas, sem antes entender e analisar o impacto nas demais variáveis interligadas que fazem parte do sistema (complexo), é uma temeridade enorme. O efeito da decisão certamente não aparece imediatamente, tem um atraso de tempo ou delay até que o efeito (positivo ou negativo) se manifeste no mundo real.  Em 2008 escrevi sobre a questão na postagem Decisões reativas, dez anos já se passaram, e nada mudou.

Acontecimento recente, a greve dos caminhoneiros que paralisou o país por alguns dias, foi rica de exemplos sobre a questão das decisões reativas. Resumidamente, o movimento teve como pauta o alto preço dos combustíveis praticados no Brasil, a política de correção diária de preços praticada pela monopolista Petrobras, e o baixo preço dos fretes. Não quero e nem devo entrar no mérito da questão, vou fazer apenas considerações superficiais. Não é preciso ser muito esperto, para perceber que esses três fatores da pauta se influenciam mutuamente. Então, se o combustível aumenta de preço todo dia, e o preço do frete permanece baixo, o caminhoneiro e as empresas não conseguem manter os caminhões nas nossas péssimas e inseguras estradas (nem vou entrar nisso, daria um livro inteiro). O frete, negociado a cada contrato, certamente tende a aumentar de preço. Portanto, preço de combustível afeta o preço do frete diretamente, sem dúvida alguma. Por outro lado, aumento do preço dos combustíveis e aumento no preço dos fretes, causa aumento de inflação pois tudo o que é transportado pelas nossas estradas vai sofrer o impacto do aumento da inflação, e teremos comida mais cara na nossa mesa, para citar apenas o que nos afeta diariamente, que é a alimentação. E aí entramos na espiral inflacionária, que leva a outra rodada de aumentos de preços de combustíveis e frete e alimentação, e assim por diante. Se quiserem, podem incluir outras variáveis na brincadeira, para complicar o raciocínio. O uso de diagramas de influência, ou diagramas causais, ajuda muito a enxergar as relações entre as variáveis e o funcionamento do sistema.

Bom, aí vem o governo e resolve mexer  em uma variável do sistema, o preço do óleo diesel nas bombas. Como se fosse possível, de posse da varinha mágica do Harry Potter, resolver tudo mexendo apenas nesta variável. Mexe daqui, remenda dali, aparece a realidade da planilha de custos e preços do combustível praticados pela Petrobras, que tem a exclusividade do refino de petróleo no Brasil (monopólio). Considerando que os custos de produção estejam corretamente lançados na planilha, e o preço de saída da refinaria seja exatamente o que foi apresentado, sem custos extras embutidos, a maior parte do preço na bomba é composto pelos impostos, notoriamente o ICMS estadual. Quem é inocente de achar que nossos estados, quebrados e endividados como são, vão abrir mão de ICMS tão rico quanto o dos combustíveis?  Além disto, o governo mexeu também no frete, tabelando e estabelecendo controle estatal sobre ele. Uma variável que, por lei,  é de livre negociação (já apareceram juristas afirmando que a decisão contraria a nossa constituição), seu tabelamento e controle podem desencadear mais problemas do que soluções. E foi exatamente o que aconteceu: a tabela de frete inicial agradou a alguns, e desagradou fortemente outros setores organizados da economia. E o problema inicial, ao invés de ser solucionado, foi enormemente piorado, e agora reaparece com um outro nível de complexidade. Como por exemplo para o agronegócio, que passou a projetar uma alta de preços de grãos que vai, no final da linha, inviabilizar o escoamento das safras, aumentar inflação, levar a novos aumentos no preço dos combustíveis, no frete, etc. O fantasma volta para nos assombrar, e assim vai ser sempre, recorrente com as decisões reativas, que não respeitem o sistema. É um efeito bumerangue, sempre.

Assim é com qualquer decisão reativa em sistemas complexos, que exigem análise sistêmica. Sempre que são adotadas soluções paliativas, aquelas que afetam diretamente o efeito do problema, sem atacar diretamente o problema de base ou problema fundamental, teremos a rebordosa do sistema algum tempo depois, exigindo novas soluções paliativas, numa espiral mortal que acaba por fazer o sistema todo entrar em colapso. Como, por exemplo, a espiral inflacionária que a maioria das novas gerações de brasileiros não conheceu de perto. Mas minha geração conheceu muito bem, apavora só de lembrar. Vejam uma outra postagem aqui no blog, sobre Soluções paliativas e seu impacto sistêmico.  O preço de mexer irresponsavelmente em uma variável crítica de qualquer sistema é muito alto, e a conta normalmente aparece lá na frente, quando quem tomou a decisão já nem está mais disponível para ser responsabilizado pela decisão.

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