Decisões por algoritmos: de quem é a responsabilidade?

Querendo ou não, a tecnologia vai avançando fora do nosso controle, e sem saber ou sentir vamos nos servindo dela para melhorar (ou piorar) nossas vidas. Difícil achar um equipamento ou dispositivo eletrônico que não seja comandado por um ou mais algoritmo, que indicam caminhos ou decisões que acabamos seguindo. Não é assim quando, por exemplo, usamos um software com GPS para dirigir em locais que não conhecemos? Quando entramos no carro e setamos o Google Maps, ou Waze, ou HereWeGo, ou qualquer outro, para ir falando a rota a seguir? E seguimos as decisões do algoritmo de navegação sem pestanejar, direita, esquerda, em frente, retorno, direita, troca de estrada, trânsito lento à frente muda de rota, acidente, fiscalização policial, etc. Ou nos modernos câmbios automáticos dos carros mais novos, todos com controle de troca de marcha por software, que analisa vários parâmetros colhidos e escolhe o momento melhor para mudança de marcha (fazem isso melhor que nós humanos)? Isso para falar apenas dos carros, há muito mais. Fotos de muito boa qualidade que batemos com celular ou até com as cada vez mais raras máquina fotográficas, sempre há um algoritmo por trás para tirar a tremura da foto, melhorar as cores, enquadrar melhor, tirar o vermelhão dos olhos, etc. As decisões não são todas de algorítmos? E os carros autônomos que ainda nem chegaram prá valer, quando isso acontecer, aí sim, estaremos de fato terceirizando muitas das nossas decisões diárias para os algoritmos embutidos. Já pensaram nisso?

Bom, aí vem a pergunta: quando acontece uma falha ou acidente, de quem é a responsabilidade? Onde está o erro do algorítmo ou processo que levou à falha externa? O comportamento do software que estamos usando é transparente ao ponto de mostrar como as decisões foram tomadas pelo algoritmo, justificando todas elas? É facultado ao usuário questionar a decisão do algoritmo quando, por exemplo, o navegador nos manda entrar por algum caminho que conhecemos e sabemos que é o mais perigoso? E o algorítmo consegue explicar o porque da indicação dele? Será que o rastro das decisões tomadas fica armazenado e disponível para análise posterior, caso seja necessário? Por exemplo, quando um carro autônomo atropela algum pedestre ou animal, ou provoca uma colisão com alguma coisa, a explicação das decisões fica disponível de maneira transparente? Para uma análise forense, ou até para melhorar a tecnologia e obter novas versões dos algoritmos? Quando seguimos a orientação de um algoritmo para algum investimento (estão cada vez mais comuns), e no final dá tudo errado, a responsabilidade é do algoritmo ou é nossa?  Vão prender quem fez o algoritmo? Com base em que alegações? Podem perceber que não tem nada trivial aí, é um longo processo de aculturamento e amadurecimento social, temos que ir aprendendo a conviver com a tecnologia e ir ajustando legislações e comportamentos.

Claro que há pesquisadores do mundo todo preocupados com os aspectos sociais do uso da tecnologia, e essa é uma área importantissima, multidisciplinar, envolve computação, aspectos sociais, transparência, direito, economia, polícia, órgãos reguladores,  etc. O ACM Public Policy Council (USACM) saiu na dianteira e desde a década de 1990 interage com o governo estadunidense e a comunidade de computação, em  assuntos relativos a políticas públicas que se refiram à tecnologia da informação e comunicações e seus impactos. O mesmo papel vem sendo desempenhado na Europa pelo   ACM Europe Council Policy (EUACM), tomando a dianteira da discussão dos impactos da tecnologia (ACM é Association for Computing Machinery). Foram identificados e registrados princípios focados na razoabilidade (fairness) das políticas adotadas com relação ao  ecosistema tecnológico: 1-conscientização (awareness): educação e disseminação ao público com respeito ao grau de automação da tomada de decisão pelos algoritmos, estabelecendo consciência dos riscos e da tecnologia embutida; 2-acesso e reparação de erros (access and redress): tem que existir uma forma de investigar e corrigir decisões erradas; 3-atribuição de responsabilidade legal (accountability): rejeita a prática comum de desviar a responsabilidade da culpa para um sistema automatizado ao invés de culpar aqueles que construíram o algorítmo e o embutiram nos equipamentos;  4-capacidade de explicação (explanation): a lógica do algoritmo, por mais complexa que seja, deve estar disponível para explicação a seres humanos;  5-proveniência (ancestralidade) dos dados (data provenance): conhecer as fontes de dados e sua ancestralidade (ou seja, o seu rastro desde que foram gerados a primeira vez e as transformações ocorridas ao longo do tempo);  6-auditabilidade (auditability): registro da história das decisões, todos os passos que levaram às decisões devem estar devidamente registrados e disponíveis; 7-validação e teste (validation and testing): todas as técnicas utilizadas em segurança computacional devem ser utilizadas também para aumentar a confiança nos sistemas automatizados.

Reparem que essa lista tem várias implicações, dentre elas a de indicar linhas de investigação aos pesquisadores, principalmente para os que lidam com o estudo dos algoritmos, engenharia de software para sistemas embarcados, transparência em processos e algoritmos, segurança em computação, explicações científicas, etc. São vários desdobramentos interessantes, que vão acontecendo lentamente e ao longo de muito tempo.

Infelizmente, o avanço tecnológico em áreas economicamente estratégicas acontece em ritmo muito mais acelerado do que as regulações e análise de impactos sociais relativos a eles. Ainda vamos conviver com muitos problemas derivados do uso errado ou indevido da tecnologia, falta de conhecimento do público, algorítmos que provocam falhas nos equipamentos  fora de nosso controle. O que podemos fazer é usar a informação a nosso favor, evitando partir para a adoção imediata de novas tecnologias, deixando isso para os early adopters  que adoram as novidades e ficam nas filas esperando para comprar ou adotar os novos modelos e avanços.

Inspiração para essa postagem: Simson Garfinkel e outros: Toward algorithmic transparency and accountability, CACM September 2017, página 5, Seção Letters from Members of USAACM. 

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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Bancos de dados: Charles Bachman (1924-2017)

Terminei meu mestrado em Ciência da Computação no DCC-UFMG em 1981, foco em Bancos de Dados. Impossível desenvolver uma dissertação em Bancos de Dados na época, sem ler os artigos fundamentais de Charles Bachman (1924-2017), considerado o “pai dos bancos de dados”. Eu lia tudo o que me chegava às mãos (comecei o mestrado em 1978), era muito difícil na época ter acesso a bibliografia e saber de tudo, o pouco que conseguíamos tinha que ser lido até no osso. Tudo impresso, vinha tudo de fora do Brasil, levava meses para chegar o último número da Communications of the ACM (CACM) e outros journals, que ainda são  nossas fontes principais de informação. Li vários artigos do Bachman, de quem era admirador (continuo sendo) pelas suas contribuições precursoras dos bancos de dados. Numa época em que não havia tecnologia disponível para implementar os gerenciadores de BD como os conhecemos hoje, o padrão era usar os sistemas de arquivos nativos do sistema operacional dos mainframes (organização sequencial, acesso direto ou sequencial indexado) da melhor maneira possível. Se olharem na lista de publicações disponível na biografia do Bachman na Wikipedia, vejam novamente aqui, vão topar com vários, se não todos, os artigos que foram nossos influenciadores.

Formado em Engenharia Mecânica em 1948, terminou o Mestrado em engenharia na University of Pennsylvania. Não fez doutorado, não era comum na época e nem havia tantos disponíveis assim. Suas contribuições foram todas derivadas da necessidade e do seu trabalho em grandes empresas, como a DowChemicals e General Electric posteriormente. Por sua reconhecida e enorme contribuição à área de BD, ganhou o ACM Turing Award de 1973 (não deixem de visitar o site), uma premiação muito valorizada na área de computação. Foi precedido por Edsger Dijkstra e seguido por Donald Knuth nessa premiação. Conseguiu suas contribuições a partir exclusivamente de seu contato diário e desafios com aplicações e suas necessidades, percorrendo o caminho inverso da pesquisa básica. Partiu do problema para a solução, e foi extremamente inovador, formando a base para os modernos bancos de dados. Doutorado não garante capacidade inovadora, na verdade as mentes curiosas e brilhantes não dependem muito de estudos formais para se manifestarem e brilharem.

Seu biógrafo Thomas Haigh observa “Bachman was the first Turing Award winner without a Ph.D., the first to be trained in engineering rather than science, the first to win for the application of computers to business administration, the first to win for a specific piece of software and the first who would spend his whole career in industry”.  Não é pouca coisa, realizou muito, e a academia hoje torce o nariz e desconsidera o pesquisador fora do padrão “científico”, com a formação no nível mais alto e que siga o padrão científico em suas pesquisas. Como se ter ganho o Turing Award não fosse suficiente, Bachman ainda foi agraciado com o Distinguished Fellowship na British Computer Society em 1977, e com o Fellow of the ACM em 2014, pelas suas contribuições para a tecnologia de BD.

As histórias e seus protagonistas têm que ser conhecidos, e suas contribuições devem ser lidas e entendidas levando em conta seu contexto original. Os bons exemplos devem ser seguidos, e as lições assimiladas.

A inspiração para esta postagem, além das fontes citadas no texto, foi a nota publicada em CACM, September 2017, 80 (9):24-25, escrita por Lawrence M. Fisher.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

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Conflito de interesse

Conflito de interesse é um tema felizmente discutido demais, levado às escolas dentro do estudo de ética e códigos de conduta. Na atualidade brasileira, estamos cheios de exemplos em que o conflito de interesses está claramente caracterizado, sendo mais evidente nas tomadas de decisão administrativas. Por exemplo, quando um determinado profissional que ocupa posição de decisão em uma empresa,  toma a decisão de adquirir um determinado imóvel para nova sede da empresa, selecionando entre um grupo de ofertas. Até aí tudo tranquilo, mas descobre-se posteriormente que a empresa selecionada, que vai vender o imóvel, pertence à esposa do tomador de decisão. Fica caracterizado ai um possível conflito de interesses, em que a decisão é guiada por critério externo à empresa, que colocam a decisão sob suspeita de favorecimento indevido. Mesmo que exista um benefício grande na decisão, o conflito permanece.

O problema é sério demais, e pode levar a enormes prejuízos tanto na área privada quanto na área pública. A CGU – Controladoria Geral da União, órgão do governo federal que fiscaliza desvios na administração pública e privada, produziu a Lei do Conflito de Interesses (Lei 12813 de Maio de 2013), assinada pela Presidente Dilma Roussef! A CGU tem entre suas principais atribuições “… destacam-se a promoção da transparência, do acesso à informação, do controle social, da conduta ética e da integridade nas instituições públicas e privadas” (vejam aqui). Particularmente  em seu artigo 3:

Art. 3o  Para os fins desta Lei, considera-se:

I – conflito de interesses: a situação gerada pelo confronto entre interesses públicos e privados, que possa comprometer o interesse coletivo ou influenciar, de maneira imprópria, o desempenho da função pública; e

II – informação privilegiada: a que diz respeito a assuntos sigilosos ou aquela relevante ao processo de decisão no âmbito do Poder Executivo federal que tenha repercussão econômica ou financeira e que não seja de amplo conhecimento público.

Em seu artigo 5, são caracterizadas as situações geradoras de conflitos de interesse:

Art. 5o  Configura conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal:

I – divulgar ou fazer uso de informação privilegiada, em proveito próprio ou de terceiro, obtida em razão das atividades exercidas;

II – exercer atividade que implique a prestação de serviços ou a manutenção de relação de negócio com pessoa física ou jurídica que tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe;

III – exercer, direta ou indiretamente, atividade que em razão da sua natureza seja incompatível com as atribuições do cargo ou emprego, considerando-se como tal, inclusive, a atividade desenvolvida em áreas ou matérias correlatas;

IV – atuar, ainda que informalmente, como procurador, consultor, assessor ou intermediário de interesses privados nos órgãos ou entidades da administração pública direta ou indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

V – praticar ato em benefício de interesse de pessoa jurídica de que participe o agente público, seu cônjuge, companheiro ou parentes, consanguíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, e que possa ser por ele beneficiada ou influir em seus atos de gestão;

 VI – receber presente de quem tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe fora dos limites e condições estabelecidos em regulamento; e

 VII – prestar serviços, ainda que eventuais, a empresa cuja atividade seja controlada, fiscalizada ou regulada pelo ente ao qual o agente público está vinculado. 

Parágrafo único.  As situações que configuram conflito de interesses estabelecidas neste artigo aplicam-se aos ocupantes dos cargos ou empregos mencionados no art. 2o ainda que em gozo de licença ou em período de afastamento. 

No âmbito das empresas públicas ou privadas, normalmente existe um Comitê (ou qualquer outro nome) de Ética, que produz um regimento interno contendo a caracterização dos conflitos de interesses e outras falhas éticas, e se encarrega de fazer as verificações dos possíveis desvios de conduta, dentro dos preceitos da governança e de conformidades com a legislação. Essas verificações, acompanhadas de sindicâncias para estabelecimento dos fatos, levam aos processos judiciais na esfera pública ou privada, e que podem levar finalmente às condenações e penas.  Felizmente, hoje com internet, redes e mídias sociais, smartphones com câmeras e gravadores de voz de alta qualidade, é muito fácil tornar públicas essas situações, como estamos vendo acontecer neste  triste período da nossa história moderna brasileira.  Observando que o contexto das denúncias deve ser respeitado e descrito, pois é uma falha que pode levar a entendimento errado e a denúncias viciadas ou infundadas, o que também constitui crime, pode manchar a reputação de cidadão honesto (vejam postagem sobre reputação aqui).

Ficou uma postagem um pouco longa por conta das cópias dos artigos da legislação que incluí, necessários para o entendimento completo do assunto. Olho vivo, entenda a legislação, tenha comportamento ético sempre. Na minha caracterização mundana de comportamento ético, tenho um teste infalível: coloque sua mãe do outro lado e, se sua decisão se mantiver mesmo com ela do outro lado, então possivelmente você está se comportando dentro da ética!

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Drácula

Este ano o livro Drácula, de Bram Stoker, publicado em 1897, faz 120 anos de publicação. Por coincidência, e sem saber de nada, terminei a leitura do livro (que ganhei em promoção da Amazon Brasil). O mistério de Drácula e vampiros fez parte do imaginário da minha geração, que tinha que usar a imaginação para visualizar cenários e cenas contadas nos livros e gibis da época. Mas, interessante é que até hoje, mesmo com toda a tecnologia disponível, o livro e o filme despertam curiosidade e imaginação.

Além de ser um livro clássico elogiado e lido no mundo todo, é antes de mais nada um registro dos costumes da Europa da época. Inglaterra (Londres), Holanda (apenas citada), região da Transilvânia no interior da Romênia, tipos de roupas, alimentação, transporte, viagens de trem e de barcos a vapor, uso extensivo de cartas enviadas pelo tradicional correio, telegramas para comunicação mais imediata (era a internet da época), lancha a vapor, armamentos, carruagens, costumes. O livro é riquíssimo nos detalhes dessa parte que passa às vezes despercebida para quem está interessado na história apenas.

A trama da história é fantástica, muita imaginação do autor (que se baseou em histórias anteriores), detalhes e ocorrências bem sequenciados e bem trabalhados, atiçando a imaginação do leitor atento. O mistério do castelo do conde Drácula na Transilvânia, os vampiros que habitam o palácio, os ataques aos seres vivos para sugarem o sangue essencial para sua sobrevivência. Cada vítima humana era também transformada em vampiro, imortal e também outro chupa-sangue. Nessa trama toda, surge o salvador holandês Van Helsing que se transformou em lenda e tem até filme inspirado no seu personagem no livro.

Tem tanta análise do livro, sinopses, etc., que é desnecessário fazer mais uma descrição detalhada aqui. O filme Drácula, de 1992, é um retrato do livro, pobre em detalhes como todo filme. Li o livro e em seguida, fui rever o filme que já tinha visto outras vezes. Mais uma vez, minha imaginação ganha disparado do filme, que não deixa de ser um relato bem aderente ao livro, com cortes de muitos detalhes, afinal espremeram um livro enorme, cheio de detalhes, em duas horas de filmes. Tem que ser focado no essencial da história.

O livro está disponível na internet, basta fazer a busca com “Dracula Bram Stoker”, já caiu no domínio público, é “de grátis”. Recomendo, acho que vão gostar.

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Infâmia: imagem e reputação

Mais um livro que me achou em livraria, Infâmia, da Ana Maria Machado. Nunca tinha lido nada dela, por falta de oportunidade. Rodando na livraria, o título me chamou atenção, li capa e contracapa, momento certo. Comprei direto para o Kindle, mais confortável para ler em qualquer momento.

A facilidade com que se destroem reputações, com as mídias sociais atuais, é incrivel. Uma vez a imagem (reputação) destruída ou arranhada, mesmo que o atingido prove completamente que as acusações ou suspeitas são infundadas, que é completamente isento, a reputação anterior nunca mais vai ser restaurada. Vai ser sempre lembrado como “…é aquele que fez isso, e isso, e isso…”, sempre vai circular com aquela nuvem negra incômoda, por cima da cabeça. Na verdade nunca foi muito complicado acusar alguém injustamente de alguma coisa, a mídia regulamentada (jornais, revistas, rádio, TV) publica às vezes sem verificar a veracidade dos fatos, na base do sensacionalismo, e de repente a gente topa com uma notícia espantosa, sobre alguém conhecido, sendo acusado de alguma merda, possivelmente indevida ou injustamente.

O tema do livro Infâmia é exatamente este: a destruição de reputações. O livro é classificado como romance, mas tem um enorme suspense embutido, impossível parar de ler, a trama é muito bem elaborada e construída, histórias diferentes andando em paralelo, em cima do mesmo tema, mostrando aspectos e situações diferentes.

Leitura muito atual, que põe o leitor em alerta sobre os riscos que corre no mundo de hoje, das redes sociais, da facilidade das fotografias com celulares, da facilidade de publicação de fotos e gravações nas mídias sociais. Pegando às vezes situação normal da vida da pessoa, mas que quando registrado em uma foto ou uma gravação e levado para outro contexto, cria o clima para um enorme arranhão na reputação da pessoa, causando destruição. Estamos cheios de exemplos, cada vez temos que ter mais cuidado para não passar adiante notícias falsas, não comprovadas.

Lembre-se sempre: um dia a vítima pode ser você, portanto, cuidado com o que passa adiante. Do outro lado tem sempre uma pessoa, com uma história de vida, possivelmente inocente, que está sendo vítima de alguma brincadeira de mau gosto, ou de vingança, ou sei lá o que.

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Previdência 2: Capitalização

Há mais tempo do que eu imaginava, escrevi sobre a Repartição simples, regime de fluxo de caixa adotado pela previdência social no Brasil. A intenção era escrever em seguida sobre o regime de Capitalização, que é um outro modelo talvez mais eficiente, adotado em alguns países com variações. Mas o tempo, sempre o tempo, voou e só agora termino a obra.  A característica principal do regime de Capitalização é o individualismo: cada participante do sistema tem uma conta individual e forma seu próprio benefício ao longo da vida contributiva. Que é o contrário do sistema de repartição simples, em que as contribuições não são individualizadas e formam um bolo só, semelhante a fluxo de caixa, os recursos necessários saem desse bolo que tem que ser suficiente para cobrir as necessidades.

O trabalhador é responsável pelo custeio da sua própria aposentadoria. A contribuição mensal é calculada a partir de uma projeção do valor a receber desejado pelo trabalhador no momento da aposentadoria, e esse valor mensal vai sendo atualizado na medida em que o tempo vai correndo. Os valores pagos são investidos pela administradora do fundo de pensão, de maneira isenta e transparente, para garantir a aposentadoria (ou complementação de aposentadoria) com os rendimentos obtidos dos investimentos. Há variações nesse modelo, que pode ser exclusivamente ou totalmente capitalizado, que estabelece que todas as contribuições para o custeio da aposentadoria sejam feitos antes da concessão da aposentadoria. Ou pode ser de capitalização parcial, em que uma parte da aposentadoria é garantida pelo sistema de capitalização, e uma outra parte é garantida pelas contribuições de novas gerações para um fundo mútuo, como no regime de repartição. Aí teriamos um modelo híbrido.

Os planos de capitalização para aposentadoria oferecidos pelo sistema financeiro nacional usam o modelo de capitalização exclusiva. Recebem as contribuições, fazem as aplicações, pagam as aposentadorias prometidas, e cobram taxas de administração dos participantes. A pergunta que fica: então eu não posso fazer isso individualmente, sem precisar de intermediários? Claro que sim, mas tem alguns requisitos: você tem que ser investidor, tem que conhecer mercado financeiro, tem que ter tempo para participar do jogo financeiro, correndo seus riscos sozinho. A instituição financeira credenciada oferece tudo isso como um serviço, e você obviamente tem que pagar pelo serviço, que é a taxa de administração. Investimento com bons resultados não é para inocentes, tem que ter experiência e saber investir para fazer o dinheiro render.

Onde esse regime é usado? No Chile e outros países, como Malawi, Kosovo e República Dominicana, Israel, Hong Kong e Austrália. Mas está sempre e em constante discussão e evolução, principalmente devido ao enorme crescimento populacional observado no mundo todo, e principalmente o grande aumento na população de idosos, associado com o aumento da longevidade. Não existe regime perfeito, único e que satisfaça a todos.

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Robôs vão tomar o seu emprego?

imagesArtigos de blog, de jornais, de revistas, opiniões e comentários estão pipocando sobre a percepção pela sociedade de mais uma mudança provocada pelo avanço da tecnologia: inteligência artificial, robôs, carros sem motorista, etc. Mas será que há motivo para tanto rebuliço assim? Não foi sempre assim nas relações entre tecnologia e sociedade? Por exemplo, quando Gutenberg inventou a imprensa, com seus tipos organizados e a promessa de edição de livros e material impresso em maior quantidade, baixando custos, também não causou uma comoção social? Sim, os copistas, que eram os responsáveis por copiar a mão os livros e outros materiais, também não tiveram seus empregos ameaçados? E o telégrafo, que teve um impacto enorme nas comunicações, encurtando distâncias, eliminando cartas e ameaçando em parte a profissão de carteiros? Escrevi sobre o telégrafo aqui no blog, vejam a postagem Telégrafo, precursor da internet.  E os traçadores de gráficos ou plotadores, equipamento acoplado a computadores que permitia traçar desenhos técnicos de engenharia com precisão, dentro das normas, a partir de modelos produzidos no computador, que dizimaram a profissão de Desenhista Industrial? Hoje a função nem existe mais entre os cargos oficiais, até há pouco tempo era um curso superior. Um monte de gente teve que se retreinar e se realocar em outras áreas. E a indústria relojoeira suiça, com a invasão dos relógios digitais dos japoneses? O choque foi violento, um monte de empresas fechando, marcas sumiram do mercado, e os relógios digitais, mais leves, baratos, fáceis de usar, bateria de longa duração, entraram com força no mercado. Em seguida, como se isso não fosse suficiente, veio a revolução dos telefones celulares e smartphones, que acabaram de enterrar os relógios. As novas gerações não usam relógios, exceto como acessório de decoração. Os relojoeiros foram se acabando aos poucos, hoje existem raros.

Bom, tudo isso sem contar o enorme impacto, ainda em andamento, do advento da internet no mundo dos negócios, no encurtamento de distâncias, no streaming de músicas e vídeos, nas cadeias de TV pagas (hoje o padrão é TV via internet, aqui no Brasil ainda incipiente). Indústrias inteiras foram afetadas e fechadas, como a indústria fonográfica, a fotográfica (o fechamento melancólico da Kodak aconteceu recentemente), os jornais e revistas impressos, os computadores desktops sendo substituidos por tablets que por sua vez foram substituidos por smartphones poderosos, em uma etapa da convergência digital prevista para acontecer com foco em smartphones, e já aconteceu. Até os tablets foram superados pelos smartphones.

O fato é que o mundo foi sempre sacudido pela tecnologia e sua relação com emprego. E eu ainda nem falei da revolução industrial, máquinas a vapor, automação na indústria, de que o filme Tempos Modernos do Charles Chaplin é um ícone e obrigatório assistir. Ou então, mais antigo, o filme Metróplis (Fritz Lang), sobre os mesmos temas. Não tem novidade nisso, é uma revolução silenciosa, que segue uma curva de aprendizagem sempre, a cada novo patamar de conhecimento e desenvolvimento atingidos, novas tecnologias vão chegar ao mercado, deslocando profissões e profissionais, substituindo funções, deixando desempregrados. Todas essas mudanças são anunciadas com antecedência, ninguém deveria ser pego de surpreso por elas nos nossos dias. Informação é o que não falta.

Vejam por exemplo os temas abaixo, que extraí de um livro sobre riscos em Engenharia de Software (Robert N. Charette, Software Engineering Risk Analysis and Management, McGrawHill, 1989), que dominavam as discussões sobre tecnologia em 1973: “-Will man be replaced by machine?; -Does the computer industry require regulation?;-Can one trust plans made by computers?; -Are databanks threats to individual freedom and liberty?; -Are governmental balances of power being upset by computers?; -Are computers destroying basic value systems?; -Does the world, including third world countries, really need computers?; -Are individuals being alienated because of computers?; -Are there computer applications that should not be undertaken because of moral or ethical reasons?; -Will computers create massive unemployment?”. Façam o teste, troquem a palavra computer ou machine por artificial intelligence, e teremos as mesmas dúvidas atualizadas para os nossos tempos.

Na minha concepção, não temos novidades. Claro que as evoluções tecnológicas vão continuar provocando substituições de funções, sumiço de profissões, readaptações, é inevitável. Os mais espertos vão acompanhar o avanço tecnológico e vão se preparar antes. Toda e qualquer função que seja passível de descrição via procedimentos ou sequência não-ambígua de passos que possam ser executados por máquinas ou software,  vão sofrer impactos. Caixa de banco, motoristas, atendentes de telemarketing, de telefone (telefone fixo quase não existe mais), programador de computador, varredor de rua, produção industrial em massa, etc. Se sua profissão é uma dessas, então prepare-se, vem mudança por ai. Claro, não acontece de um dia para o outro, os avisos vão aparecendo devagar, aqui e ali, tem que prestar atenção. O que ainda não é possivel substituir por máquinas (software ou hardware) são as funções que exigem criatividade para a solução de problemas. Mesmo assim, já temos software produzindo músicas com qualidade, e não é música eletrônica bate-estaca.

Terminando, as informações estão ai disponíveis na internet e acessáveis por qualquer smartphone básico com acesso a internet. Todo mundo tem que saber procurar informação de qualidade, se informar e aproveitar o que a internet oferece em termos de informação, cursos, preparação profissional, etc. Se você vai ficar ai parado esperando as coisas acontecerem, vai ser de fato atropelado pela tecnologia. Use sua inteligência a seu favor. E, respondendo ao título da postagem, robôs ou software vão tomar o sem emprego sim, é questão de tempo.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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