Bandersnatch

Ontem assisti a Bandersnatch, novo lançamento da Netflix, na sequência do excelente Black Mirror. Acho que já comentei sobre Black Mirror aqui no blog, é uma série inglesa sobre impactos da tecnologia na vida dos cidadãos comuns. Muito bom, recomendo demais, estou esperando ansioso a quinta temporada. Antes de prosseguir, deu curiosidade de entender o que significa Bandersnatch, e ai vai extraido da Wikipedia: “A bandersnatch is a fictional creature in Lewis Carroll’s 1872 novel Through the Looking-Glass and his 1874 poem The Hunting of the Snark. … Bandersnatches have appeared in various adaptations of Carroll’s works; they have also been used in other authors’ works and in other forms of media.”

O que é que tem de diferente? O filme é interativo, quem assiste interage com o filme e em alguns pontos de decisão (binária) vai escolhendo os caminhos a serem seguidos. Isso leva o espectador a participar do filme, a gente se sente como parte da trama, e é esse mesmo o efeito desejado. Em vários pontos, a decisão leva a um caminho sem saída (dead end), e a interação permite uma volta a algum ponto anterior, para refazermos a decisão que levou ao impasse.  Não achei as decisões muito lógicas, na maioria delas decidi pelo instinto e pelo contexto do filme naquele ponto. Não há tempo para ficar pensando, as decisões devem ser tomadas em 10 segundos. Tem cara de jogo interativo, tipo um filme-jogo.

Achei sensacional, e no meu entendimento esse filme abre caminho para um mundo novo, de filmes interativos e imersivos, obrigando o espectador a entrar na história para valer. Muitas possibilidades de uso, pode ser um caminho de salvação da indústria do cinema. Lembrei-me muito do excelente A rosa púrpura do Cairo, um filme de 1985 que também recomendo.

Tem que ser assistido em um dispositivo que permita interação e que tenha a última versão do app Netflix (tablet, smartphone ou TVs de última geração).

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Bactericida, antibactericida…

Um pouco de conhecimento de lógica é fundamental para ajudar a gente a não falar muita besteira. Em uma visão simplista, a lógica matemática é um framework, ou arcabouço, para raciocinar com argumentos precisos, sem ambiguidades. Claro, para aplicá-la no nosso diário, é preciso cuidado, pois nosso português (e demais línguas) tem uma semântica própria, que complica sobremaneira o uso da lógica para avaliar termos que são usados regularmente. Mas, em algumas situações diárias, é flagrante o desrespeito e o desconhecimento da lógica, levando pessoas bem instruídas a falarem enormes besteiras, coisas sem sentido. São as nossas famosas armadilhas da linguagem coloquial.

Um termo muito utilizado é o tal do “antibactericida”. Uma conceituação de “bactericida” é “Os bactericidas são antibióticos que destroem a bactéria, por meio de diversos mecanismos, destruição da parede celular, inibição da síntese proteica, inibição na síntese do ácido fólico, eliminando a bactéria. Extraí do site educalingo, mas se procurarem vão encontrar o mesmo conceito em outras fontes. Portanto, “bactericida” já é, por definição, antibactéria, ou “contra bactéria”. Então, o que significaria “antibactericida”? Passando para uma notação parecida com a da lógica, seria um “contra bactericida”, ou expandindo o termo “bactericida”, daria “contra contra bactéria”!!!  Aí a porca torce o rabo, o que significa isso? Usando a boa lógica, “contra contra…” seria um “não não …”, ou seja, um “sim”. O termo, então, seria (“contra contra bactéria” ~ “sim bactéria”), ou seja, a favor da bactéria (interpretem “~” como “equivalente”). Mas que doideira, olhem que disparate: antibactericida seria algo a favor da bactéria, e não contra, não um destruidor de bactérias como é o desejado.

Na verdade, em bom português, não precisaria dessas brincadeira de lógica que fiz ai acima, até exagerando um pouco no uso da notação. O nosso enorme erro é usar as palavras sem conhecê-las, sem saber seu significado real. Para isso servem os dicionários e tesauros, para melhorar nosso conhecimento da linguagem que usamos.  Nesses tempos de zapzap e outros aplicativos, o uso da linguagem só vem piorando.

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Passeando no meu passado

Sempre que venho a Belo Horizonte para ficar mais tempo, gosto de dar uma volta pelo centro da cidade. Quando estudei aqui de 1971 a 1976, o centro era preferido pelos estudantes que vinham do interior para estudar na capital. Muitos hotéis sérios, familiares, moradia de muitos de nós, eu incluído. Era mais tranquilo morar no hotel, menos preocupações, e mais barato. Hotel Magalhães, na rua Espírito Santo entre rua dos Caetés e av. Santos Dumont; Hotel Americano entre av. Santos Dumont e rua dos Guaicurus (isso mesmo, na boca da antiga zona boêmia de BH), Hotel Londres na av. Santos Dumont quase esquina de rua Espirito Santo, são alguns hotéis onde já morei. Já presenciei várias enchentes do Arrudas, que transformavam a av. Santos Dumont em um verdadeiro rio que carregava os fuscas que ficavam estacionados. Já vi dono de fusca amarrando o carro em poste para não ser levado para a praca da Estação.

Normalmente tomávamos café da manhã no hotel, e o almoço era no restaurante da faculdade. Eu me formei em Engenharia Elétrica na PUC-Minas, em 1976. Todo dia, busão para lá de manhã, aulas, almoço no restaurante, busão de volta para o centro, para em seguida subir a rua da Bahia até a Praça da Liberdade, onde eu trabalhava na Prodemge. Na época quase não havia linha de ônibus bairro-bairro, acho que uma das raras (ou talvez a única) era a linha 60, Sion-Floresta, que subia a rua da Bahia até o bairro, e passava exatamente em frente de onde eu trabalhava (não consegui achar referências). A Prodemge ficava (ainda tem uma unidade lá) atrás do Palácio dos Despachos na Praça da Liberdade, na frente da sede social do Minas Tênis Clube. Normalmente essa linha 60 era lotada entre meio dia e uma hora, alunos do colégio Santo Antônio principalmente. Raramente conseguia entrar no ônibus, o que me obrigou a desenvolver o saudável hábito de subir a rua da Bahia a pé todos os dias, para trabalhar de 13 às 19 horas como programador Cobol na Prodemge. Final do expediente, descia também a pé, era muito bom e saudável. Enfim, tudo isso para dizer que tinha e ainda tenho total intimidade com o centro de BH, onde passei meus anos de faculdade, uma época boa da minha vida.

Ontem, de bobeira aqui em BH, eu e um colega do curso de engenharia, amigão da vida inteira, resolvemos ir tomar um café na padaria Belopães, que fica no começo da av. Santos Dumont. Cheguei um pouco mais cedo, e fiquei rodando pelos locais onde vivi meu passado, minha época de estudante em BH. Primeiro choque, a av. Santos Dumont hoje é uma estação do Move de ponta a ponta, estou atrasado nisso, já deve ter muito tempo que é assim. Continua lotada de gente, com o mesmo tipo de comércio que tinha na época. Muita lanchonete, muita loja pequena. O choque foi quando vi o Hotel Londres, completamente degradado e fechado (bloqueado para não ser invadido). Em nada lembra o passado dele. E assim foi com outros prédios que tinha como referência na época, como o Hotel Majestic ainda bem preservado e com outro nome, o Hotel Magalhães que hoje é uma unidade de recrutamento do estado. Outros prédios de que me lembrava seguiram o mesmo caminho, degradados completamente. A boa surpresa foi o Hotel Esplanada, na época uma referência de bom hotel, mantém a imponência com o prédio bem tratado e bonito. Não esquecendo de que o nosso café foi excelente, recomendo a padaria se ainda não conhecem. Tranquilo, grande, muito movimento, pão de primeira, atendimento simpático.

No meu entendimento, as administrações deveriam investir mais nos centros das cidades. Muita circulação de gente, ponto de comutação entre transportes coletivos, um verdadeiro mar de gente. Que precisa de infraestrutura pública, banheiros, serviços, algum local para sentar um pouco e descansar as pernas, um centro mais humanizado. Até que em termos de serviços a PBH avançou bem com o BHResolve, não podemos reclamar. Mas falta um pouco de humanização, valorização dos equipamentos que já estão disponiveis no centro. Sei que não adianta muito dar ideias, já se passaram mais de 40 anos, e está tudo lá quase que do mesmo jeito. Foi bom passear no meu passado, vou voltar lá mais vezes.

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Sálvese quien pueda!

O que tem polarizado atenções atualmente é a questão de como o avanço tecnológico atual, muito rápido, vai afetar o emprego e a vida das pessoas? Artigos sobre o tema têm aparecido com muita frequência, tanto artigos de opinião quanto artigos técnicos, com dados reais de qualidade. O assunto não é nada novo, desde que o homem existe na face da terra as novas tecnologias causam disrupção no nível de emprego e na vida das pessoas. Por outro lado, o avanço tecnológica traz também oportunidades, novas carreiras, novas profissões, novas especializações, e novas oportunidades nunca sonhadas antes. Alguns exemplos, como o telégrafo, são emblemáticos. A invenção do telégrafo e sua adoção em larga escala causaram um enorme desemprego na Inglaterra vitoriana e na Europa, e criaram milhares de novas oportunidades. Se quisermos regredir mais no tempo, a invenção da tipografia por Gutenberg acabou com o emprego dos copistas. Ou mais recente, o aparecimento dos plotadores acoplados aos computadores acabou com a profissão do Desenhista de plantas na engenharia civil.
O livro é todo sobre esse assunto. O autor gastou cinco anos em entrevistas com pessoas importantes da indústria e ligados a inovação e tecnologia, no mundo todo. Muitos dados foram coletados, muitos trechos valiosos de entrevistas com enorme conteúdo de informação. Muitos cenários positivos e negativos são apresentados e discutidos. O cenário atual, sobre o avanço da inteligência artificial sobre o emprego e carreiras, e o uso de robôs na indústria, é muito bem discutido, com muitos dados e múltiplos cenários. Discussão madura e muito interessante sobre o tema. Uma leitura empolgante, mesmo para quem está bem informado na área de tecnologia e inovação. Muito bem escrito, bem sequenciado, foi uma leitura agradável pelo estilo do autor, que eu já conhecia de outro livro dele, Crear o morir!, também excelente e cheio de informações e dados sobre inovação. Recomendo muito, a leitura é acessível, linguagem fácil de ler e entender. Eu li a versão em espanhol, a original, mas estão disponiveis também em outras linguas. Abaixo, links para artigos do meu blog sobre o tema do livro.

https://zeluisbraga.wordpress.com/2015/04/16/telegrafo-precursor-da-internet/

https://zeluisbraga.wordpress.com/2017/08/17/robos-vao-tomar-o-seu-emprego/

https://zeluisbraga.wordpress.com/2015/03/09/inovacao-e-sobrevivencia/

=======ENGLISH VERSION========

What has been polarizing attention today is the question of how current, fast technological advancement will affect jobs and people’s lives? Articles on the subject have appeared very often, both articles of opinion and technical articles, with actual research data. The subject is nothing new, since man exists on the face of the earth new technologies cause disruption in the level of employment and in people’s lives. On the other hand, the technological advance also brings opportunities, new careers, new professions, new specializations, and new opportunities never dreamed of before. Some examples, such as the telegraph, are emblematic. The invention of the telegraph and its adoption on a large scale caused enormous unemployment in Victorian England and Europe, and created thousands of new opportunities. If we would regress more in time, the invention of the typography by Gutenberg ended the employment of copyists. Or more recently, the emergence of computer-linked plotters has put an end to the profession of designers (people dedicated to draw the projects on paper) in civil engineering.
The book is all about that subject. The author spent five years in interviews with key people in the industry and connected to innovation and technology, worldwide. Much data has been collected, many valuable snippets of interviews with huge information content. Many positive and negative scenarios are presented and discussed. The current scenario, about the advancement of artificial intelligence over jobs and careers, and the use of robots in industry, is very well discussed, with many data and multiple possible scenarios. A very mature and interesting discussion on the subject. An exciting read, even for those who are well-informed in the area of ​​technology and innovation. Very well written, well sequenced, it was a nice read by the style of the author, which I already knew from his other book, Crear o morir !, also excellent and full of information and data on innovation. I highly recommend it, the language is journalistic what makes understanding easier. I read the Spanish version, the original one, but they are also available in other languages. Below, links to articles from my blog on the theme of the book.

https://zeluisbraga.wordpress.com/2015/04/16/telegrafo-precursor-da-internet/

https://zeluisbraga.wordpress.com/2017/08/17/robos-vao-tomar-o-seu-emprego/

https://zeluisbraga.wordpress.com/2015/03/09/inovacao-e-sobrevivencia/

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Internet: plataforma para inovação e novos negócios

Desde o seu advento em 1969, inicialmente denominada Arpanet que tinha como objetivo ser uma rede de pesquisa e pesquisadores nos EUA,  a internet vem causando estragos nos modelos de negócio existentes. Seu desenvolvimento aconteceu rapidamente, colocando enorme pressão sobre o desenvolvimento tecnológico para suportar esse crescimento. Redes, equipamentos para redes, canais de comunicação, software de apoio, segurança, equipamentos que habilitassem seu uso. Em menos de 50 anos de existência, a internet causou um enorme impacto nos modelos de negócios baseados em átomos, em objetos físicos. Na medida em que o desenvolvimento da tecnologia permitiu, vários ícones da era dos átomos foram caindo, um depois do outro. Lembrando apenas das ocorrências mais recentes, a indústria fonográfica foi uma das primeiras a cair. A comercialização de discos de acetato prensado, substituídos pelos CDs e DVDs, caiu diante da facilidade de termos as músicas disponíveis na rede, ao alcance de um clique de mouse. As grandes lojas que se baseavam na venda da música em meio físico fracassaram, e um exemplo marcante foi a Tower Records, criada em Sacramento, Califórnia, um gigante mundial da comercialização de discos de vinil, fitas, CDs e DVDs, sonho de consumo de gerações, que fechou todas as suas lojas, restando apenas uma franquia no Japão. E o outro caso emblemático foi a Kodak, que não acompanhou a evolução dos negócios de átomos para os negócios de bits habilitado pela internet, e também ruiu completamente com o surgimento da fotografia digital. De posição de destaque no setor de fotografias, foi derrotada pelo advento da fotografia digital, das pequenas máquinas digitais que hoje ninguém mais carrega, todo mundo usa o celular.

Organizações exponenciais são aquelas que apresentam crescimento explosivo em valor de mercado e em base de clientes em curto espaço de tempo, regido pela curva exponencial de crescimento positivo. Empresas surgem e em pouquíssimo tempo, impensável para indústrias de produtos físicos, atingem números astronômicos em valor de mercado. São empresas que não detêm posse de nada ou quase nada físico, seu negócio principal é a informação e seu uso para proporcionar serviços a seus usuários. Os exemplos mais emblemáticos econhecidos são o Uber, que não tem (ou tem poucos) nenhum veículo mas, apesar das resistências corporativas, domina o mercado de compartilhamento deveículos, com valor de mercado que pode ultrapassar os 100 bilhões de dólares (estimativa de 2017). Ou então o Airbnb, que atua no segmento de aluguel de quartos e apartamentos, não tem a posse de nenhuma propriedade física, mas é omaior locador de imóveis do mundo. Não podemos nos esquecer do Netflix, que reina (quase) absoluto no mercado de filmes e documentários disponibilizados via internet, também com uma enorme base de clientes, e em crescimento. E a Amazon, a precursora, que começou com o segmento de livros e hoje é o maior varejista do mundo, utilizando um modelo misto de átomos e bits?

Todos os casos que citei, e poderia ainda citar um monte de outros, são rupturas dos modelos de negócio baseados em átomos, idealizados por jovens empreendedores que enxergaram na internet a oportunidade escancarada por sua enorme capilaridade e pela convergência tecnológica representada pelo telefone celular. Dispositivo que todo mundo tem, todo mundo usa, é nosso centro de informações e comunicações que vai dentro do bolso. Negócios, transações bancárias, compras, vendas, comunicações pessoais, tudo concentrado nesse dispositivo tecnológico fantástico. E que é usado cada vez menos na sua função primordial que é o telefone. A maioria das pessoas nem se lembra de que é também telefone e pode ser usado para falar! A internet se transformou, nesse curto período de tempo, em um meio por onde circulam as comunicações do mundo, de particulares e de governos, onde são fechados negócios bilionários, reuniões virtuais são realizadas, decisões são tomadas, namoros são desfeitos, reputações são atingidas,  novos negócios surgem, velhos negócios são devidamente sepultados. Em uma velocidade de mudança vertiginosa, difícil de acompanhar. Do ponto de vista de novos negócios e possibilidades de inovação, a internet se transformou em uma plataforma de desenvolvimento como não se tem notícia anterior na história do mundo.

Exceção feita ao desenvolvimento do telégrafo no século XIX na Inglaterra vitoriana, que também causou um impacto similar no mundo dos negócios. A internet, com suas facilidades e ferramentas, iguala oportunidades, pequenos se tornam tão competitivos quanto os grandes. Rapidamente, é possível idealizar um novo tipo de negócio ou nicho de atuação no uso da informação, criar um protótipo utilizando recursos disponíveis na internet, testar o protótipo, atingir possíveis clientes, verificar aceitação, terminar o sistema final com os subsídios colhidos nos testes, e finalmente colocar no mercado algo inovador, que vá fazer diferença na vida das pessoas. Prestem atenção nos novos modelos para o setor bancário, novas empresas denominadas FinTechs, que utilizam internet e tecnologia para balançar estruturas tradicionais do setor. O modelo bancário tradicional está na berlinda: ou acompanha e vence o desafio,ou vai ser enterrado como tantos outros foram. São oportunidades que a internet como plataforma torna disponíveis de maneira direta e a custo baixo para gerar os protótipos. As ferramentas estão lá, a rede está lá disponível, o software está lá disponível, basta ter a ideia, conhecer o setor de negócios, enxergar o nicho de atuação, construir o protótipo e testar com um segmento de usuários da internet que possa ser facilmente atingido. Poucos conseguem enxergar esta realidade: a internet é, antes de mais nada,  uma plataforma de desenvolvimento ubíqua e democrática.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI, http://www.simi.org.br/coluna/internet-plataforma-para-inovação-e-novos-negócios

Publicado em Economia, Empreendedorismo, Inovação, Tecnologia

Construção civil e as novas tecnologias

O famoso Empire StateBuilding, que fica na ilha de Manhattan na cidade de Nova Iorque-EUA, teve sua construção iniciada em 17 de março de 1930 (dia de St. Patrick, padroeiro irlandês), e foi oficialmente inaugurado em 1 de maio de 1931. Tem 102 andares, 381 metros de altura até o telhado e 443 metros se incluída a antena que fica no seu topo, é o quinto prédio mais alto dos EUA e o vigésimo nono mais alto domundo.  Em pouco mais de um ano, esse edifício símbolo da cidade e muito visitado, saiu do chão e foi terminado, e o padrão de eficiência e segurança associados com a obra passaram a ser referência de produtividade  para a indústria de construção civil. Claro que há um contexto histórico ai: competição para ter o edifício mais alto do mundo, o que certamente ocasionou um aporte de recursos maior, mais equipamentos, talvez trabalhadores mais bem treinados, etc.

Apenas oitenta e sete anos depois, o setor de construção civil está passando por uma transformação tecnológica sem precedentes, que certamente vai  proporcionar ganhos de produtividade comparáveis aos da construção do Empire State Building. Estamos  assistindo à evolução e revolução proporcionadas pelo movimento Makers, que é a evolução do faça-você-mesmo do século passado (DIY-Do It Yourself), melhorado com adição de novas tecnologias. Dentre elas, a “impressão 3D” tem causado grande impacto pelo que já consegue proporcionar, e pela visão do impacto futuro que essa tecnologia sozinha pode causar. Esclarecendo, “impressão 3D” se refere à obtenção de artefatos dos mais variados tipos, desde objetos de uso pessoal até partes a serem utilizadas em equipamentos industriais, armas de fogo, próteses, utilizando o conceito de “deposição em camadas” como acontece na impressão tradicional de tinta em cima do papel. Só que usando outros materiais para deposição, como plásticos, concreto, fios de plástico ou de metal, etc., e um equipamento que por sua semelhança com o processo de deposição das impressoras tradicionais de jato de tinta ou laser, passou a ser chamado de “impressora3D”. Por enquanto, o nome está servindo bem ao seu propósito, e fica fácil entender a ideia.

Como a impressão 3D está impactando a construção civil? Paredes inteiras podem ser produzidas como painéis impressos por impressoras 3D, com formatos e funções específicas para a construção, e já com as tubulações e encaixes necessários para fiação e outras exigências. O maior uso atual ainda é a impressão dos moldes para produção dos painéis, que têm maior precisão nas medidas e podem ser distribuídos nos vários locais onde são necessários, com aumento na produtividade e melhoria nos encaixes dos painéis. As impressoras são muito grandes, como vocês já devem ter imaginado. Para terem uma ideia do tamanho de uma impressora para esse uso específico, aproximadamente um equipamento com 30 metros de altura, 8 metros de largura e 5 metros de profundidade (100x25x15 pés), é usado para imprimir moldes (formas) de até 2 metros de altura por 1,5 metros de largura. As primeiras construções inteiras, casas pequenas, estão começando a aparecer, utilizando concreto como material para a deposição ou impressão. Para a construção de prédios, a produção de painéis específicos ainda é o padrão, pois dependem de estrutura de sustentação que deve ser preparada antes, com vigas de aço ou colunas e cintas de concreto. Mas, lembrem-se, isso é por enquanto, pois certamente os equipamentos vão evoluir a ponto de permitirem a impressão de prédios inteiros. Muita informação já está disponível sobre essa evolução e revolução na construção civil, vejam na Wikipedia uma boa referência, rica em informações e links interessantes.

A pesquisa por novos materiais, adequados aos usos das impressoras 3D em processos produtivos, é fundamental para a evolução do setor.Está ai uma área ainda aberta, em que materiais tradicionais estão sendo adaptados para uso nas impressoras 3D. A expansão do uso vai certamente acelerar a demanda por pesquisa e produção de novos materiais, talvez ainda nem pensados. Do ponto de vista de trabalho e emprego, o uso em larga escala das impressoras 3D na construção civil vai acabar com os empregos de baixa qualificação e, ao mesmo tempo, vai exigir profissionais com maiores qualificações para poderem lidar com novos desafios de montagem das construções, utilização das impressoras 3D na produção, gestão da produção, manutenção de equipamentos envolvendo tanto software quanto hardware. Reparem que estou usando o termo “montagem” e não “construção”. Sim, no futuro próximo vamos fazer montagem de construções, e não propriamente construir com tijolo e massa como é feito hoje.

Enxergo muito mais oportunidades do que ameaças no setor de construção civil, terreno fértil para novas startups de tecnologia. Só no último parágrafo citei várias áreas que vão ter que se desenvolver em paralelo com o uso disseminado das novas tecnologias.

Artigo inspirador: The construction industry in the 21st century, porKeith Kirkpatrick, CACM March 2018, vol. 81, número 3, páginas 18-20.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI, http://www.simi.org.br/coluna/novas-tecnologias-e-a-construção-civil-1)

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Sucesso em startups

Seria muito bom se tivéssemos a fórmula pronta para o sucesso em qualquer empreendimento, eliminando os riscos e percalços que certamente vão surgir na trajetória, da sua criação até o sucesso de mercado. Mas a realidade é dura, e os números são desanimadores. Em pesquisa rápida na web, aparecem alguns números: 74% das startups fecham em até 5 anos, e 25% fecham no primeiro ano, no Brasil. E esses números se verificam em outros países, como por exemplo nos EUA, onde as condições são muito mais favoráveis aos novos negócios, 70% das startups fecham entre o quinto e o sétimo ano de existência, apenas 30% logram ter algum sucesso. Tive um exemplo recente no Brasil com a Podcycle, uma startup que eu havia apoiado no portal de crowdfunding Catarse. O produto inovador era um veículo elétrico inteligente, e tiveram sucesso no apoio financeiro, bateram a meta estabelecida. Recebi a mensagem deles há alguns dias, dizendo que o projeto não vai ter continuidade,  problemas de incompatibilidade interna entre os sócios do empreendimento.

Segundo artigo muito atual sobre o assunto (veja referência ao final), numa lista de oito fatores que devem ser observados ao criar e gerenciar uma startup na área de desenvolvimento de software,  o fator interno à empresa mais importante se refere à sua equipe  gerencial. Para pesquisadores do  MIT (Massachussets Institute of Tecnology), se um dos membros da equipe tem formação e experiência em vendas e marketing, as chances de sucesso aumentam muito. Esse profissional enxerga o mercado e entende melhor a inserção do produto inovador em seu nicho de mercado. Normalmente, startups dominadas por uma equipe totalmente tecnológica, acabam muito mais focadas no desenvolvimento e refinamento do produto, e depois não conseguem colocar esse produto no mercado, pensar nas vendas, nos clientes, nos investidores. Não adianta ter um produto que seja o fino da tecnologia, se não houver mercado para ele. A armadilha, neste caso, é ter um produto fantástico, mas não ter comprador para ele.

Os demais fatores citados no artigo são: mercado promissor e atrativo; um produto ou serviço promissor em termos de mercado; evidências fortes de interesse de consumidores no produto; preparo técnico para vencer a barreira da credibilidade no mercado, que é um processo de aprendizagem; demonstração convincente da capacidade de crescimento e geração de lucro; flexibilidade na estratégia e na tecnologia; demonstrar potencial para alto retorno de investimentos para os possíveis investidores. Cada fator desses merece reflexão e pelo menos mais um artigo,  para início de discussão.  

Muitos dos fatores citados acima são também descritos em bons livros sobre empreendedorismo e inovação. Não são tanta novidade assim. Lembrem-se sempre de que inovação não acontece no estalo, da noite para o dia. Exige uma fase de criatividade, essencial para ter a visão e criar o produto foco, adquirir o conhecimento tecnológico, verificar viabilidade técnica. Para completar, o produto ou serviço tem que ir para o mercado e ser bem aceito, e aí caímos no choque de realidade, que é relacionado com a capacidade de realização da empresa e sua equipe. Envolve conhecimento do setor em que o produto se insere, conhecimento de mercado, perfil do cliente, análise econômica de investimentos, marketing para uma campanha de lançamento do produto, etc. O sonho tem que ir para a rua.

Artigo inspirador: Michael A. Cusumano. Technology strategy and management: evaluating a startup venture. CACM October 2013, pp-26-29. (Viewpoints)

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