Transformação Digital – II

O que fica claro em todas as revoluções tecnológicas que fazem parte da nossa história, é que adotar ou não uma nova tecnologia é uma questão de tempo. Novas tecnologias têm um tempo ou curva de maturação, de difusão e adoção, que pode ser curto ou longo. Depende, em parte, dos meios para difusão e adoção. Hoje esse tempo tende a ser curto, pela enorme disponibilidade de meios de difusão, como a internet e as redes sociais. Por exemplo a internet há 25 anos era a bitnet, lenta, linhas discadas, modems lentos, era usada quase que exclusivamente para transmissão de texto, email, fax, acesso a sites de texto exclusivamente. Baixar um artigo científico, tinha que ser de madrugada. Hoje, 25 anos depois,  a internet é realidade, quem não usa a internet para novos modelos de negócio, para alavancar negócios, está destinado a fechar as portas, e exemplos de fracassos não faltam.

A adoção da internet para alavancar novos negócios, ou modernizar negócios já existentes, não andou na mesma velocidade. Não poderia ser diferente, mudanças em negócios levam mais tempo e custam muito caro para as empresas. Por isso temos ainda a convivência de empresas que adotaram modelos de negócio modernos, totalmente baseados na internet, e empresas que ainda estão na era do site estático na web. Aqueles sites onde não é possivel fazer nada, exceto ler informações e dados como por exemplo estoque e preços, sem realizar operações comerciais. Aproximadamente 20% das empresas se consideram totalmente atualizadas em termos tecnológicos. Os outros 80% estão em diferentes estágios de mudança, incluídas aí as empresas que não vão conseguir completar o processo.

Os resultados das pesquisas mais recentes sobre a transformação digital em curso, apontam para um rumo: foco no cliente. O que não é novidade, pois o cliente hoje é empoderado, toma decisões com o celular, tem acesso a redes sociais, consegue dar sua opinião em diversos temas, consegue informações sobre produtos e serviços, avalia e dá nota em serviços. Ficou muito mais difícil manter um cliente fiel por muito tempo, a empresa tem que andar na frente da concorrência, oferecendo melhores serviços, programas de fidelidade, maior variedade de produtos, e um monte de promoções. As possibilidades de escolha aumentaram absurdamente. Fazendo uma pequena regressão, para ter foco no cliente e conseguir manter a preferência dele, qualquer empresa tem que ter feito o dever de casa direitinho. Processos de negócio modernos, rápidos, tratamento de riscos nos processos, monitoramento e avaliação, segurança de dados, digitalização total, cadeia de suprimentos bem implementada, relação com os fornecedores, pagamentos, faturamento, logística direta e reversa, atendimento por outros canais que não internet, e vamos por ai afora. Tudo isso leva um tempo enorme, e custa um monte de dinheiro em qualquer país no mundo, é um processo de mudanças em todos os sentidos, principalmente mudança cultural dentro da empresa. Em alguns casos extremos, pode ser mais simples, mais rápido e mais barato abrir uma nova empresa já com o DNA dos novos tempos, contratar equipe jovem, e ir fazendo a transição do velho para o novo gradativamente, até poder fechar completamente a empresa antiga. O exemplo que sempre gosto de citar é o da Amazon. Sou cliente desde 1997 quando a empresa foi lançada, e a evolução deles em todos os sentidos é impressionante. São o modelo de empresa moderna, com foco no cliente.

Em um artigo recente publicado na ZDNet estão disponíveis  resultados de pesquisas envolvendo CIOs de várias empresas,  com foco na transformação digital e tendências enxergadas para o futuro próximo. São várias pesquisas e em particular, a realizada pela Forrester em 1559 empresas dos EUA e Europa, tem resultados interessantes e que podem servir como indicadores de caminhos a seguir: -metade das empresas pesquisadas estão em processo de transformação digital, sendo que 21% afirmam que já completaram a transformação (lembrem-se de que isso é dinâmico, o processo de mudança não acaba nunca); -qualquer função que possa ser automatizada vai desaparecer, provocando impacto no mercado de trabalho; -em 37% das empresas, o processo de transformação é liderado pelo CIO. Respondendo à pergunta “Em quais tecnologias sua empresa investe como parte da sua transformação digital?”, os principais resultados são: -55% das empresas estão em processo de adoção de SaaS – Software as a Service, associados com computação em nuvem; -47% das empresas estão investindo em tecnologias para segurança e garantia de privacidade; -46% estão investindo em aplicações móveis; -36% estão investindo em organização de dados para uso em análise de dados (business intelligence); -33% estão adotando ou criando software para permitir uma maior fidelização dos clientes; -29% estão investindo em Internet das Coisas (IoT); -17% estão investindo em inteligência artificial aplicada aos negócios; -11% estão adotando blockchain, que é uma tendência nova e mundial, com muito impacto nos negócios em curto ou médio prazo; -10% estão investindo em realidade aumentada.

Essas pesquisas são realizadas para mostrar tendências dos mercados, e o acesso aos relatórios completos só é possível pagando, e caro. Claro, pois dados confiáveis, consistentes e íntegros têm um enorme valor estratégico para as empresas que querem se manter na liderança. Vejam que apenas esses resultados simples que citei acima já servem como sinalizadores. Para as startups, são informações valiosas. De minha parte, eu recomendo investir em tecnologias que estão ainda com nível de adoção baixo, que é onde existem muitos nichos de atuação e inovação. Por exemplo blockchain, que é promissor, está avançando muito rápido, e vai causar uma grande revolução e ruptura no mercado. Pensem nisso!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI)

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Ready Player One – Ernest Cline

Como leitor de ficção científica de qualidade, o que significa que li boa parte da obra de Isaac Asimov, Arthur Clarke, Jules Verne e H.G.Wells, li esse livro como um grande desafio. De enxergar a ficção científica sob um novo ângulo, envolvendo tecnologia, videogames dos mais variados tipos, filmes de ficção, músicas dos filmes, livros de ficção, RPG e mundos virtuais. O autor faz um mix de tudo isso, e resulta um livro interessante, que prende a atenção. O ponto alto é o mundo virtual OASIS, que faz parte de uma sociedade distópica do futuro, em que o mundo real e o virtual se misturam, em algumas passagens são indistinguíveis. Muita aventura, muito RPG, muita inteligência e esperteza dos personagens, principalmente na programação de computadores dos mais variados tipos. É a ficção científica evoluída pela tecnologia, adaptada aos novos tempos e à nossa sociedade atual. Recomendo a leitura, é muito desafiante.
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As a quality science fiction reader, which means that I read almost all of the work of Isaac Asimov, Arthur Clarke, Jules Verne and H.G.Wells, I read this book as a great challenge. Which is understanting science fiction from a new perspective, involving technology, video games of all kinds, science fiction movies, movies soundtracks, science fiction books, RPG and virtual worlds. The author makes a mix of all of this, and it turns out to be an interesting book that holds readers attention. The highest point in my opinion is the virtual world OASIS, which is part of a dystopian society of the future, in which the real and the virtual world are mixed, in some passages they are indistinguishable. A lot of adventure, a lot of RPG, a lot of intelligence and smartness of the characters, mainly in programming computers and games of the most varied types. It is science fiction evolved by technology, adapted to the new times and our current society. I would recommend this book, it’s very interesting and challenging.

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Metodologia ou método?

Mais uma de minhas “broncas” sobre o uso errado dos dois termos, método e metodologia. Têm significados completamente diferentes, não se confundem. Mas nos trabalhos técnicos e científicos, o normal é encontrar o termo Metodologia sendo usado no lugar de Método. Então vamos lá, primeiro os significados corretos, a semântica de cada termo. Usei o dicionário Michaelis online.

Método

1 Emprego de procedimentos ou meios para a realização de algo, seguindo um planejamento; rumo.
2 Processo lógico e ordenado de pesquisa ou de aquisição de conhecimento.
3 Qualquer procedimento técnico ou científico.
4 Conjunto de princípios ou técnicas de ensino.
1 Parte da lógica que trata dos métodos aplicados nas diferentes ciências.
2 Estudo dos métodos, especialmente dos métodos científicos.
3 Conjunto de regras e procedimentos para a realização de uma pesquisa.
4 Lit Estudo e pesquisa dos componentes e do caráter subjetivo de um texto narrativo, poético ou dramático.
Está claro que são termos diferentes, Metodologia é um termo em um nível de abstração mais alto do que Método, pois é o estudo dos métodos. Não tem o menor sentido usar os dois termos como se fossem sinônimos, pois não são. O que mais vejo em dissertações e trabalhos técnicos, é um capítulo ou seção com o título Metodologia, dedicado a expor o Método de trabalho utilizado para desenvolvimento do trabalho. De tanto reclamar, desisti de reclamar, mas fica registrada aqui a minha reclamação. Desenvolver projeto de mestrado, doutorado ou qualquer outro e desconhecer a diferença entre os dois termos, é imperdoável.

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Transformação Digital – I

O mundo passa por transformações quase que contínuas, empurradas pelos avanços tecnológicos.  Do ponto de vista do digital, eu prefiro enxergar o começo de toda a mudança lá na Inglaterra do século XIX,  na era Vitoriana, com a invenção do telégrafo. Que era analógico, mas seu impacto no mundo abriu outra perspectiva de velocidade na circulação de informações, na criação de infraestrutura para sobrevivência do telégrafo, da velocidade de disseminação e adoção pelas pessoas, governos, etc.  Vejam este artigo aqui no blog, em que discuto a questão mais longamente.

O impacto do telégrafo sobre os negócios, pessoas, circulação quase que imediata de notícias foi enorme, durou muito tempo, e abriu um leque de oportunidades para inovação e novos modelos de negócios. Gradativamente, na medida em que os meios de comunicação foram avançando tecnologicamente, mudanças foram acontecendo, e a sociedade se adaptando. Do telégrafo para o telefone foi um salto curto, e os dois conviveram pacificamente por muitos anos. Pulando um século adiante, ou um pouco mais, vamos cair no mundo da internet, e na gradual substituição do telégrafo por seus sucedâneos sociais. O telégrafo foi perdendo seu lugar de destaque, cedendo espaço ao mais moderno, baseado em redes digitais que permitem o tráfego quase que imediato de dados. O telefone perdeu espaço mais devagar, e foram as redes de telefonia que possibilitaram o surgimento da internet, com as conexões discadas, lentas para os padrões de hoje, mas muito rápidas para os padrões da época.

Os visionários da época previam que em pouco tempo, dada a velocidade de mudança proporcionada pelos meios digitais e pela informação armazenada e difundida também na forma digital, seria possível conversar remotamente com pessoas, vendo as imagens em uma tela de computador. Isso não tem muito tempo que aconteceu, na década de 70 do século passado, surgiram os primeiros protótipos. Dai em diante, foi tudo muito rápido, e hoje vemos a tão falada convergência digital acontecendo focada nos celulares que trazemos no bolso ou na bolsa.  Um smartphone de hoje é ao mesmo tempo telefone, máquina fotográfica, filmadora, televisão, tradutor entre línguas, editor de texto, agenda, lista de contatos, leitor de livros, meio para utilização de um zilhão de aplicativos como redes sociais, compras, acesso a rede bancária, etc.

Todo esse rápido avanço afetou fortemente as empresas e seus modelos de negócio. Informatização, digitalização de acervos e dados, disponibilização de dados em formato eletrônico, vendas, transferências financeiras, contato com o cliente, concorrência muito mais esperta e mais rápida nas mudanças, pouco tempo de vida para produtos e serviços, etc. O mundo dos negócios exige, hoje, muita profissionalização, e muito gasto financeiro para implementar, acompanhar e manter atualizadas as tecnologias necessárias. As empresas que não acompanham ou não acompanharam essas mudanças foram atropeladas por elas, e muitas fecharam as portas por terem perdido a janela de tempo de adoção da tecnologia. Foram adotar com enorme atraso, quando a maior parte da concorrência já estava em outro patamar tecnológico.

Mas não se iludam. Transformação digital, entendida aqui como o redesenho de cultura organizacional, dos processos de negócio e operações de TI com adoção de novas tecnologias, com o objetivo de melhor atender e tratar seus clientes e tornar os negócios mais competitivos, é obrigatória nos negócios, sob pena de colocar sua empresa fora dos trilhos, sem chance de recuperar o tempo perdido. E tem enormes custos associados, pois não basta construir uma interface para o usuário final, disponibilizar um aplicativo (app) para iOs ou Android, e estamos com o problema resolvido. É indispensável avaliar o  impacto nos processos internos que devem ser adaptados à mudança, a mudança de cultura interna na empresa, a necessidade de digitalização de informações legadas (normalmente em grandes volumes), o treinamento dos colaboradores para conviverem no novo patamar de serviço e atendimento, a modernização de processos usando técnicas corretas, a avaliação de riscos associados ao negócio (perda de dados, invasão de privacidade, roubo de informações críticas, etc.), a montagem da infraestrutura tecnológica de apoio, o desenvolvimento ou aquisição de novos sistemas administrativos que suportem as mudanças. Tudo isso custa uma fortuna, e provoca atrasos na adoção de tecnologias. A esmagadora maioria das empresas mundo afora ainda está longe de avançar para esse novo nível, e muitas estão sendo eliminadas (ou fecham as portas ou são adquiridas pela concorrência). Exemplos não faltam, no varejo o sempre citado é a Amazon, que acaba de desembarcar no Brasil com força total.

Claro, abrem-se também janelas enormes de oportunidades para novos negócios, para a inovação e startups. Segurança de dados é uma das áreas críticas, ainda convivendo com técnicas que talvez não sejam adaptáveis às exigências atuais. O armazenamento e recuperação de grandes volumes de dados é outro enorme desafio, já em um formato que os deixe preparados para a próxima revolução que é o uso de dados para big data, e para habilitar a inteligência associada a negócios. Aí já não estamos falando mais de janela de oportunidades, estamos falando de porteira de oportunidades. Por falar em porteira, o setor de agronegócio é lotado de possibilidades para startups, e está em rápido desenvolvimento na área tecnológica.

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Vitimas da internet

Antes de entrar no assunto, uma provocação: vocês se lembram do que é fita de vídeo? Deixo o link para a Wikipedia, apenas para dar contexto. E locadora de vídeo, lembram? Já ouviram falar da Blockbuster? Era a maior cadeia de aluguel de vídeo do mundo, nascida nos EUA e com lojas espalhadas no planeta todo, várias no Brasil. Um ícone do mercado, inovadora, tinha um esquema de aluguel com devolução direta nas caixas receptoras que ficavam externamente nas lojas físicas, as fitas alugadas podiam ser devolvidas em qualquer horário. A notícia da semana passada foi a do fechamento das duas últimas lojas Blockbuster no Alaska, ainda existiam por lá devido principalmente aos invernos longos e ao serviço de wifi fraco, o que impossibilitava o uso de serviços de streaming para vídeo. Vejam a notícia e fotos da loja aqui.

A disponibilidade de internet de boa velocidade, acessível com pacotes de preços pagáveis por qualquer bolso, causou e continua causando mudanças nos costumes, nos negócios e nos modelos de negócios. YouTube é disparado o canal de informação preferido das novas gerações, colocando a mídia tradicional (jornais e TV) no aperto por falta de assinantes e leitores. No Reino Unido, em 2017, o número oficial de assinantes de serviços de streaming (Netflix, Amazon e Sky Now TV), 15,4 milhões, superou o total de assinantes de pacotes de TV por assinatura, que está em 15,1 milhões, o que coloca a TV tradicional na linha de queda (está acontecendo em outras partes do mundo também). A telefonia tradicional vai pelo mesmo caminho, está no aperto, o telefone de verdade é pouco usado, a comunicação se dá mais por aplicativos de redes sociais via internet.  Quem usa a linha telefônica para se comunicar está com um pé no passado, a comunicação moderna dispensa a telefonia e prefere os canais de mensagens, ou canais próprios no YouTube, é facílimo criar um para a sua empresa. Já é comum comprar pacotes das operadoras apenas com internet, sem incluir telefonia, para utilização em qualquer parte do mundo. Vejam aqui um exemplo, operadora WorldSim.

Vários segmentos de negócios não perceberam as mudanças se aproximando, a internet chegando forte, os negócios migrando de plataforma, o smartphone se transformando no principal equipamento de comunicação do mundo moderno, acessível a todos. Vários negócios não suportaram o impacto das mudanças e fecharam as portas, substituídos por outros modelos já nascidos dentro do contexto da internet. Quais lições os empreendedores podem assimilar a partir destes acontecimentos? A mais importante certamente é acompanhar o  mercado e seu setor de atuação, munindo-se sempre de boa informação, atualizada, melhorando sua visão sistêmica do negócio em seu contexto. É imperdoável, hoje, ser atropelado por uma mudança tecnológica, elas nunca acontecem em períodos curtos de tempo, os avisos chegam com muita antecedência. Uma outra lição, não menos importante, é não cair na armadilha da tecnologia: ter um produto inovador e altamente tecnológico, e ficar achando que sua vantagem competitiva vai durar para sempre. Seu produto inovador, uma vez no mercado, vai ser imediatamente copiado, melhorado, desafiado. Você vai ficar na pressão de manter a dianteira e não perder a liderança. É um enorme desafio manter a posição.

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Privacidade nos novos tempos

Privacidade, entendida como o direito à reserva de informações pessoais e da própria vida pessoal:  the right to be let alone (literalmente “o direito de ser deixado em paz”), sempre foi um atributo ou requisito fundamental na vida de qualquer cidadão.  Com o advento da internet, redes sociais, convergência digital no smartphone, uma infinidade de aplicativos (apps) para quase tudo, nossas informações pessoais são solicitadas a todo momento. Algumas vezes fornecemos as informações por vontade ou decisão própria. Outras vezes, os apps acessam essas mesmas informações por vias indiretas em outros apps parceiros, que deixam muitas vezes essas informações expostas e  disponíveis, pela falta ou total ausência de mecanismos de proteção aos dados. Nunca receberam alguma mensagem (ou ligação de call center) inesperada, vinda de endereço desconhecido, revelando dados pessoais que vocês têm certeza de que nunca forneceram?

Dados expostos, fotos comprometedoras, vídeos pessoais divulgados, venda de dados pessoais, invasão de contas na web, roubo de senhas, passaram a ser o pesadelo dos usuários da web. Não temos garantia nenhuma de que nossos dados estão protegidos e não vão ser capturados em algum momento por algum software malicioso, que fica nas redes de olho nas ações e dados dos usuários. E nem é preciso tanto esforço assim, pois por exemplo aqui no nosso país, basta ter acesso a uma folha de cheques, para ter várias informações preciosas que possibilitam ações criminosas. E essas informações estão lá por decisão do nosso Banco Central, não podem ser retiradas mesmo que o usuário solicite (já tentei). Sugiro que dêem uma olhada, se ainda  tiverem esse espécime em extinção que é o talonário de cheques. Em outros países, como os EUA por exemplo, a informação pessoal que vai pré-impressa na folha de cheque é determinada pelo correntista ou usuário. Se eu decidir não colocar informação  pré-impressa nenhuma, assim será.

Uma notícia recente causou rebuliço na web: a proposta de legislação do estado da Califórnia – EUA relativa à privacidade na internet (vejam a notícia aqui). Califórnia tem  a quinta maior economia do mundo, famosa pelo seu ecossistema de startups, de rede de universidades públicas que incentivam o empreendedorismo e a inovação, de fundos de financiamento de novos empreendimentos, e pela modernidade de sua sociedade e avanços tecnológicos disponíveis.  A legislação proposta é considerada a mais forte do mundo, principalmente por resguardar o direito do usuários às suas próprias informações, dando poderes de decisão a esse usuário que é a ponta mais fraca do sistema, a menos protegida. Se aprovada pelo governador do estado, a legislação vai exigir que as companhias que coletam informação dos usuários tornem públicos o tipo de dados que coletam e os detalhes sobre os parceiros com quem compartilham dados, permitindo que os usuários decidam se seus dados podem ou não ser compartilhados ou vendidos a terceiros. O usuário final também terá poder para exigir que seus dados pessoais sejam deletados e nunca utilizados pelas empresas. Por exemplo hábitos de consumo, composição da família, localização de residência ou trajetos diários coletados por aplicativos residentes nos telefones. Mais importante, a nova legislação é impositiva e fiscalizável pelos agentes públicos da lei. Significa que se houver um vazamento de dados pessoais, os órgãos do governo  poderão investigar imediatamente, processar e exigir punição criminal dos envolvidos.

Do ponto de vista de startups e produtoras de software para a web, notoriamente aplicativos (apps) para telefones ou tablets, o recomendável é que se informem sobre essa legislação e acompanhem seus desdobramentos. Um app desenvolvido aqui, certamente tem mercado mundial, pode ter sucesso rápido no mundo todo. E vai estar sujeito às leis e penalidades de onde for utilizado, pelo menos do ponto de vista da privacidade de seus usuários. A garantia dessa privacidade tem que estar embutida no serviço prestado pelo app, e isso custa caro. Não basta colocar os dados nas nuvens, isso não é garantia de privacidade ou segurança. Os dados têm obrigatoriamente que estar envolvidos e gerenciados por sistemas de segurança que os protejam adequadamente, aumentando custos de produção do software. Em tempos de economia de compartilhamento, essas garantias são fundamentais para o sucesso de negócios na internet. Sem credibilidade, não há sobrevivência.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI, http://www.simi.org.br/coluna/privacidade)

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Economia do compartilhamento

A economia do compartilhamento, ou da colaboração, ou uberização, tem suas origens na produção colaborativa de bens, principalmente software, via o modelo open-source. O sistema operacional Linux e seus ascendentes e descendentes são os mais bem sucedidos exemplos que temos, e o modelo de produção foi (e continua sendo) exaustivamente discutido. Ninguém é dono de nada, o software produzido é de domínio público, a regra é que você pode acrescentar o que achar melhor no software, desde que o deixe disponível juntamente com o código produzido, para uso comunitário. Essa ideia simples gerou um ecossistema riquíssimo de produção e distribuição de software livre, em que o ponto forte é a colaboração, a doação de tempo dos participantes para produzir software próprio, testar e utilizar software produzido por terceiros, e colaborar na sua melhoria e manutenção de todo o ecossistema.

Uma evolução da ideia foi o modelo peer-to-peer (rede de pares, ou parceiro-a-parceiro) de compartilhamento de bens e serviços. Foi a raiz da enorme mudança no mercado fonográfico que quebrou o modelo baseado em produtos físicos de discos de vinil, fitas cassete e CDs. Com a disponibilidade das redes peer-to-peer, ficou fácil copiar músicas para um formato digital (MP3 e outros) e disponibilizar para uso de parceiros da mesma rede. A indústria fonográfica tentou combater o avanço deste modelo, conseguiu algum sucesso fechando o Shazam, o Napster e outras iniciativas, que mais tarde ressurgiram com pequenas mudanças no modelo. O mais importante: devagar e sempre, a indústria fonográfica como existiu no passado foi sendo engulida pelo novo modelo de negócios. E também pelo modelo adotado pela Apple e outros, de tratar a música (e filmes posteriormente) como bits e não como átomos. E hoje os discos de vinil, CDs e fitas cassete são coisa do passado, uma mudança muito rápida, possibilitada principalmente pela disponibilidade da internet. Novas gerações não sabem o que é disco de vinil, LP ou compacto, fita cassete ou fita de vídeo.

As mudanças não param por ai, e novos negócios apareceram, baseados na mesma ideia de colaboração e compartilhamento. O sistema Zipcar foi uma ideia inicial de compartilhamento de carros de aluguel, existente no mundo todo. Custo baixo, toda a transação feita via internet com cartão de crédito. Carros limpos, tanque cheio, um cartão de crédito específico para abastecimento no porta-luvas do carro, simples e direto. A evolução natural e disruptiva que veio em seguida foram  o Uber e sua turma (Lyft, Cabify, Sidecar, Gett, Flywheel, Hailo)  no compartilhamento de carros e motoristas, e o Airbnb para aluguéis de quartos e casas mundo afora. O Uber ganhou as manchetes pelo seu enorme impacto num setor antigo e forte da economia mundial, o de táxis e carros de aluguel. O Uber possibilita acesso a uma rede de motoristas e seus próprios carros, contratados diretamente via aplicativo no smartphone, pagamento via cartão de crédito cadastrado no sistema, e localização e roteamento feito por sistema próprio do Uber. Muito confortável, e uma infinidade de modelos e tamanhos de carros e serviços disponíveis. A sacudida no setor de táxis, cheio de sindicatos e regulações, aconteceu e continua acontecendo no mundo todo. Muitos interesses são contrariados, por exemplo, o poderoso e rico mercado das cooperativas de  táxis na cidade de New York nos EUA, onde uma licença de taxi (taxi medallion que é afixado na carroceria do carro) chega a custar mais de US$1.000.000,00 (isso mesmo, um milhão  de  dólares, valor de 2015!). Claro que a reação é totalmente negativa, e estamos assistindo hoje a uma queda de braço entre o status-quo e o modelo de compartilhamento que vai aos poucos ganhando espaço e novos usuários. Pela simplicidade, pela enorme oferta, pelos preços muito mais baixos, pela rapidez no atendimento e pelas oportunidades para quem presta o serviço. Que favorece tanto o lado do cliente, quando o lado do prestador de serviço. E a despeito de todas as críticas e falhas do modelo, que aos poucos vão sendo corrigidos.

E o Uber continua firme na inovação e novos produtos: Uber solidário, que é tipo um táxi-lotação; Uber-Eats, serviços de entrega de produtos que podem ser coletados na rota até sua casa; aluguel de carro, um novo serviço que vai morder e incomodar o enorme setor de aluguel de veículos incomodando Avis, Hertz, Enterprise, Movida, e um monte de outros. O serviço de aluguel foi anunciado recentemente, e vai ser possibilitado dentro do mesmo aplicativo já existente. O serviço já existe para motoristas que querem dirigir para o Uber e não têm carro, via convênios com grandes locadoras de veículos. Podem esperar para breve o compartilhamento e aluguel de bicicletas e motos, anotem ai.

É questão de tempo o avanço deste modelo de negócios baseado em internet. Já discuti  isso em outros artigos aqui no blog, modelos baseados em bits e internet, as empresas não possuem acervo físico de nada, apenas manipulam a informação disponível e colocam clientes e prestadores de serviços cadastrados em contato, seguindo firme numa variação do modelo peer-to-peer que apresentei no inicio do artigo. É legítimo o choro e o esperneio dos modelos tradicionais que têm seu interesse contrariado, mas não adianta. O modelo Uber e a uberização, como tem sido chamado, estão aí para ficar. Para piorar (ou melhorar, depende do ponto de vista) a situação, em cidades onde o Uber foi proibido de operar, surgem redes particulares em paralelo baseadas em Whatsapp e outros aplicativos, seguindo a mesma ideia, colocando motoristas e clientes em contato direto. São redes mais locais, funcionando com a tecnologia disponível na internet, que conseguem fugir do controle e da vigilância, sendo uma variação muito interessante. Mesmo que proíbam o Whatsapp, já existem outros aplicativos similares, onde as mesmas redes (peer-to-peer) podem funcionar. Você acha que é possível mudar isso, parar o crescimento do modelo e suas variações?

Em breve, ninguém mais vai se lembrar de o que foi um táxi no passado, podem anotar ai.   Do mesmo modo que poucos se lembram do que foi uma fita VHS, uma locadora de vídeos, ou um disco LP de música (compacto eu nem comento…).

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI, http://www.simi.org.br/coluna/economia-do-compartilhamento-sharing-economy.html)

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