Decisões reativas – II

Análise sistêmica é algo que me fascina, invisto boa parte das minhas leituras e esforço intelectual em tentar enxergar sistemas, e não fatos isolados. Enxergar a floresta antes de mais nada para só então focar nas árvores, usando uma expressão mais corriqueira. Para mim, decisões estão imersas em um contexto complexo  e em raras vezes, apenas complicado (vejam aqui uma diferenciação entre complicado e complexo. Não são a mesma coisa!). Mexer em variáveis sistêmicas, sem antes entender e analisar o impacto nas demais variáveis interligadas que fazem parte do sistema (complexo), é uma temeridade enorme. O efeito da decisão certamente não aparece imediatamente, tem um atraso de tempo ou delay até que o efeito (positivo ou negativo) se manifeste no mundo real.  Em 2008 escrevi sobre a questão na postagem Decisões reativas, dez anos já se passaram, e nada mudou.

Acontecimento recente, a greve dos caminhoneiros que paralisou o país por alguns dias, foi rica de exemplos sobre a questão das decisões reativas. Resumidamente, o movimento teve como pauta o alto preço dos combustíveis praticados no Brasil, a política de correção diária de preços praticada pela monopolista Petrobras, e o baixo preço dos fretes. Não quero e nem devo entrar no mérito da questão, vou fazer apenas considerações superficiais. Não é preciso ser muito esperto, para perceber que esses três fatores da pauta se influenciam mutuamente. Então, se o combustível aumenta de preço todo dia, e o preço do frete permanece baixo, o caminhoneiro e as empresas não conseguem manter os caminhões nas nossas péssimas e inseguras estradas (nem vou entrar nisso, daria um livro inteiro). O frete, negociado a cada contrato, certamente tende a aumentar de preço. Portanto, preço de combustível afeta o preço do frete diretamente, sem dúvida alguma. Por outro lado, aumento do preço dos combustíveis e aumento no preço dos fretes, causa aumento de inflação pois tudo o que é transportado pelas nossas estradas vai sofrer o impacto do aumento da inflação, e teremos comida mais cara na nossa mesa, para citar apenas o que nos afeta diariamente, que é a alimentação. E aí entramos na espiral inflacionária, que leva a outra rodada de aumentos de preços de combustíveis e frete e alimentação, e assim por diante. Se quiserem, podem incluir outras variáveis na brincadeira, para complicar o raciocínio. O uso de diagramas de influência, ou diagramas causais, ajuda muito a enxergar as relações entre as variáveis e o funcionamento do sistema.

Bom, aí vem o governo e resolve mexer  em uma variável do sistema, o preço do óleo diesel nas bombas. Como se fosse possível, de posse da varinha mágica do Harry Potter, resolver tudo mexendo apenas nesta variável. Mexe daqui, remenda dali, aparece a realidade da planilha de custos e preços do combustível praticados pela Petrobras, que tem a exclusividade do refino de petróleo no Brasil (monopólio). Considerando que os custos de produção estejam corretamente lançados na planilha, e o preço de saída da refinaria seja exatamente o que foi apresentado, sem custos extras embutidos, a maior parte do preço na bomba é composto pelos impostos, notoriamente o ICMS estadual. Quem é inocente de achar que nossos estados, quebrados e endividados como são, vão abrir mão de ICMS tão rico quanto o dos combustíveis?  Além disto, o governo mexeu também no frete, tabelando e estabelecendo controle estatal sobre ele. Uma variável que, por lei,  é de livre negociação (já apareceram juristas afirmando que a decisão contraria a nossa constituição), seu tabelamento e controle podem desencadear mais problemas do que soluções. E foi exatamente o que aconteceu: a tabela de frete inicial agradou a alguns, e desagradou fortemente outros setores organizados da economia. E o problema inicial, ao invés de ser solucionado, foi enormemente piorado, e agora reaparece com um outro nível de complexidade. Como por exemplo para o agronegócio, que passou a projetar uma alta de preços de grãos que vai, no final da linha, inviabilizar o escoamento das safras, aumentar inflação, levar a novos aumentos no preço dos combustíveis, no frete, etc. O fantasma volta para nos assombrar, e assim vai ser sempre, recorrente com as decisões reativas, que não respeitem o sistema. É um efeito bumerangue, sempre.

Assim é com qualquer decisão reativa em sistemas complexos, que exigem análise sistêmica. Sempre que são adotadas soluções paliativas, aquelas que afetam diretamente o efeito do problema, sem atacar diretamente o problema de base ou problema fundamental, teremos a rebordosa do sistema algum tempo depois, exigindo novas soluções paliativas, numa espiral mortal que acaba por fazer o sistema todo entrar em colapso. Como, por exemplo, a espiral inflacionária que a maioria das novas gerações de brasileiros não conheceu de perto. Mas minha geração conheceu muito bem, apavora só de lembrar. Vejam uma outra postagem aqui no blog, sobre Soluções paliativas e seu impacto sistêmico.  O preço de mexer irresponsavelmente em uma variável crítica de qualquer sistema é muito alto, e a conta normalmente aparece lá na frente, quando quem tomou a decisão já nem está mais disponível para ser responsabilizado pela decisão.

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Economia do compartilhamento

No artigo de maio da minha coluna no portal SIMI, abordo a questão da economia do compartilhamento, que aos poucos está avançando e quebrando resistências. Muitas barreiras da economia tradicional estão sendo quebradas, sempre a favor do cliente ou usuário final. Vejam o artigo aqui neste link.

Portal SIMI: http://www.simi.org.br/coluna/economia-do-compartilhamento-sharing-economy.html

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Internet: plataforma para inovação

O artigo de Abril no Portal SIMI foi sobre o impacto da internet como plataforma para inovação. Os recursos disponíveis na web são muitos e valiosos, e a transformam de simples ambiente de navegação, compras, redes sociais, etc., em uma poderosissima plataforma de experimentação, desenvolvimento e inovação em produtos tecnológicos. As ferramentas estão disponíveis, fáceis de usar e ao alcance de qualquer empreendedor que queira testar suas ideias e atingir públicos variados. Para ler mais, visite minha coluna de Abril no Portal SIMI, aqui neste link. Boa leitura!

 

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Factfulness: sem visão sistêmica estamos ferrados

Hans Rosling, um dos autores (os outros são um filho e nora) e mentor de todo o trabalho, é conhecido por excelentes palestras no TedTalks. Sempre usando a ferramenta que eles criaram, o Gapminder. O livro é interessante demais, mostra os nossos vícios humanos de interpratação de dados, de tirar conclusões apressadas e de tomar decisões erradas com base em primeiras impressões. O ponto principal de todo o livro é visão sistêmica, análise sistêmica, aprender a enxergar não apenas fatores isolados, mas sim saber ter espírito crítico para conseguir enxergar mais do que os dados estão mostrando inicialmente. Mesmo quem sabe fazer análise sistêmica e usa ferramentas para enxergar contextos sistêmicos (meu caso com a dinâmica de sistemas), tira grande proveito das lições e insights proporcionados pelo livro. Uma leitura obrigatória para qualquer profissional que em algum momento, tem que interpretar resultados de gráficos, tabelas, planilhas, etc. Imperdível.

 

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Alinhamento estratégico entre o negócio e a TI

Alinhamento estratégico entre o negócio e a TI

José Luis Braga, Suellen Pereira Iraci (vejam citação completa no final do artigo)

Ainda é comum as organizações encontrarem dificuldades para obter os retornos esperados dos investimentos feitos em TI – Tecnologia da Informação. É também significativo o número de projetos relacionados com a TI que fracassam de alguma forma. A falta de alinhamento estratégico, que é conceituada como alinhamento entre as estratégias do negócio e as estratégias de TI, é considerada uma forte causa dos problemas apontados. Somente a partir desse alinhamento é possível planejar e implantar projetos de TI de acordo com os objetivos e metas da organização, considerando as estratégias e reais necessidades do negócio.

Obter o alinhamento entre as estratégias de TI e negócio é um trabalho árduo,  devido à existência de diferentes fatores que facilitam ou inibem o alinhamento, como por exemplo, o apoio do executivo principal do negócio em relação a TI, tamanho da organização, envolvimento da TI no planejamento estratégico do negócio e qualidade do relacionamento entre os executivos de TI e executivos da área de negócio.

Além da existência desses diversos fatores que influenciam o problema, avaliar o estado atual do nível de alinhamento não é trivial devido à sua natureza dinâmica, por isso o tema permanece um campo fértil para muitos estudos. Uma vez entendida a importância do alinhamento entre TI e negócio e a complexidade em relação aos diversos fatores relacionados, o uso de ferramentas que possibilitem a visualização sistêmica do problema, que mostrem as influências mútuas entre as principais variáveis e sua evolução com a passagem do tempo, é indispensável.  A Dinâmica de Sistemas (DS) é uma dessas ferramentas, uma vez que permite a elaboração de modelos para uma análise dos diferentes elementos que compõem um cenário, suas relações e comportamento no decorrer do tempo.

Os principais fatores que facilitam a obtenção do alinhamento estratégico são: apoio dos executivos de negócio em relação a TI, o envolvimento da TI na definição das estratégias de negócio, o conhecimento do negócio pelo gestor e equipe de TI, a parceria entre negócio e TI, a priorização adequada de projetos de TI e uma liderança eficaz do setor de Tecnologia. O compartilhamento de conhecimento sobre aspectos importantes para a organização entre os executivos de negócio e os de TI também tem enorme influência: quando é intensificado o nível de compartilhamento, um maior alinhamento também é obtido

Já os principais fatores que inibem a obtenção do alinhamento estratégico são a falta de relacionamento próximo entre os executivos de TI e negócio, ausência ou baixo apoio dos executivos de negócio em relação a TI, falhas na priorização de projetos ou no cumprimento de prazos da TI, ausência de entendimento do negócio pela TI e carências na liderança de TI representam os principais fatores que inibem o alinhamento.

O diagrama de influências, ou diagrama causal, a seguir exibe as relações entre as principais variáveis envolvidas no problema. Não é um modelo definitivo, nem pretende ser completo. Foi utilizado em simulações qualitativas sobre a questão, apontando cenários alternativos com variação dinâmica das principais variáveis envolvidas. Setas indicam relação entre as variáveis ligadas, uma na cauda e outra na ponta da seta. Um sinal + na seta, indica que as duas variáveis ligadas variam no mesmo sentido, ou seja, se a da cauda aumenta/diminui de valor, a da ponta da seta também aumenta/diminui. Um sinal – indica a relação inversa. Por exemplo, se a Taxa de Interação entre Gestores de TI e Negócio aumenta/diminui, o Conhecimento de TI pelo Gestor do Negócio também aumenta/diminui. E se o Nível de Alinhamento entre TI e o Negócio aumenta, diminuem os Problemas com as Entregas da TI.

O que pode ser retirado do grafo? Várias situações podem ser simuladas e entendidas, e recortes no grafo podem ser feitos, para permitir considerar apenas uma parte das variáveis de cada vez. Esta é uma abordagem incremental de simulação, que é uma estratégia quase que obrigatória em problemas maiores e mais complicados em termos do número de variáveis envolvidas. Das simulações qualitativas executadas usando o modelo acima como base, foram validados as principais conclusões disponíveis na literatura da área: quanto maior a interação, maior será o conhecimento de TI e seus resultados pelos executivos do negócio e, como consequência, maior será o entendimento da importância acerca da TI. Entretanto, para o sucesso dessa interação, é primordial que exista a centralização da TI, principalmente no que tange às suas decisões. Sem a centralização as decisões serão segmentadas entre os departamentos, dificultando aos executivos de negócio terem uma visão integrada da TI, complementam os mesmos autores. Mais detalhes, vejam os links na Nota abaixo.

Nota: Esta postagem foi derivada do trabalho de dissertação de minha orientada Suellen Pereira Iraci, no Mestrado em Engenharia e Gestão de Processos e Sistemas do IETEC. O título da dissertação é Modelo para Avaliação do Nível de Alinhamento entre TI e Negócio utilizando Dinâmica de Sistemas, apresentada e aprovada em Agosto de 2017,  e está disponível ao público na base de dissertações do IETEC.

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Tecnofobia: o medo da tecnologia moderna

Tecnofobia é o medo da tecnologia moderna, em oposição a tecnofilia, que é adesão às novas tecnologias. Tecnófobo é o sujeito com tecnofobia, e tecnófilo é o sujeito com tecnofilia. Falei alguma coisa, mas expliquei pouco. Esse é um termo que persegue o ser humano em todas as inovações da nossa história. A invenção da imprensa, da eletricidade, do telégrafo, do cinema falado, do telefone e seus descendentes, do rádio, do carro com motor a gasolina, da internet, e por ai vamos. E sempre houve a turma que tinha medo da inovação tecnológica e resistia a ela, e a turma que abraçava a inovação tecnológica assim que surgia. O movimento ludita ficou famoso na história do desenvolvimento tecnológico, na época da revolução industrial.

E assim é até hoje. Dia desses, uma pessoa conhecida me soltou uma pérola: só sabe dirigir corretamente quem dirige carro com câmbio manual. Isso em pleno século XXI, em que carros com câmbio automático já passaram a ser o comum, e os veículos totalmente elétricos estão logo ali na esquina, chegando rapidamente. E carros elétricos, que serão a esmagadora maioria em futuro próximo, não precisam de câmbio. E nem de freio pois param por reversão, o freio é apenas auxiliar. Só precisa mesmo do pedal do acelerador, para tocar o carro adiante ou fazê-lo parar. Então devemos entender que ninguém mais vai saber dirigir direito!? Antes disso, deve ter existido alguém que disse que só sabe dirigir corretamente quem aprendeu a tocar charrete, carroça ou carro-de-boi. Para dizer a verdade, os carros com câmbio automático trocam de marcha melhor que eu conseguia fazer no câmbio manual. Muita tecnologia embutida, usando técnicas de inteligência computacional para disparar o momento certo da troca de marcha. Lógica nebulosa, em alguns casos.

E essa mesma pessoa, em outro dia, soltou outra pérola. Só usa telefone celular de verdade, de raiz, daqueles que só servem para falar, e que de vez em quando têm um surto de ressuscitamento e são relançados pelas fábricas, usando tecnologia moderna, com a mesma cara antiga. Mas em pleno século XXI, em que a tão falada convergência digital está ai nos smartphones, que são muito mais que telefones, são nossas centrais de comunicação, informação, assistente pessoal, guia de ruas, guia de estradas, e mais um monte de funcionalidades que passam despercebidas para a maioria dos usuários. Independente do gosto das pessoas pelo antigo e ultrapassado (gosto não se discute, muito menos mau gosto!), não é mais possivel no nosso mundo ficarmos alheios à tecnologia e ao que ela nos proporciona. Não há como esconder, vamos ter que usar, e o melhor que temos a fazer é entender a tecnologia e dominá-la, antes de sermos atropelados por ela.

Nem tanto à tecnofobia, e nem tanto à tecnofilia. Sempre no ponto de equilíbrio!

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Sucesso em startups

Fui convidado para escrever uma coluna no jornal do SIMI – Sistema Mineiro de Inovação, a partir de março de 2018. Segue a mesma linha do blog, mais voltado para inovação, empreendedorismo e seu ecosistema. O primeiro artigo publicado, Sucesso em startups, está disponível aqui neste link. Espero que gostem, e assinem o informativo do SIMI, tem muita coisa boa publicada.

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