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Estou tentando entender melhor o que pode levar a União Europeia – UE a investir tão pesado contra as grandes empresas de tecnologia do mundo, como já fez com a Microsoft há pouco tempo, e mais recentemente com o Google. Ainda não tenho conhecimento suficiente para escrever aqui sobre isso, mas enquanto vou lendo e colhendo evidências, bons artigos vão aparecendo, que merecem ser comentados aqui.

imagesPor exemplo, essa questão de como tratar a quebra de privacidade, a proteção aos dados individuais. Como os grandes blocos,  UE e os EUA, tratam a questão, quais os fundamentos? A maioria dos países considera a proteção aos dados individuais e à privacidade direitos fundamentais, registrados por exemplo na Constituição Europeia, sendo também tratado em um ato legal no Japão a respeito da proteção da informação pessoal (Japanese Act Concerning Protection of Personal Information). Nos EUA não existe esse fundamento declarado de maneira universal. Existem iniciativas setorizadas, como por exemplo o HIPAA – Health Insurance Portability and Accountability Act, voltado especificamente para dados de saúde e registros médicos. As primeiras iniciativas de tomar posição universal  com relação a essa questão estão acontecendo no atual governo. Na UE, a preferência é por regras e leis explícitas, já os EUA preferem autoregulação como o mecanismo principal.

O ASRC – Advertising Self-Regulatory Council, nos EUA, sugere a colocação de um icone nas páginas web, próximos às propagandas na página, com um link que leve ao detalhamento de que dados do usuário estão sendo coletados no momento, naquela página. Mas vejam que é uma sugestão, não tem força de lei, com uma ressalva: se for constatado algum desvio legal, algum processo legal de um usuário que se sinta lesado, a barra pesa, multas e penalidades altissimas, porque nesse caso, o sistema legal estadunidense se encarrega das punições. Nos EUA, a preferência é por pouca ou nenhuma interferência do estado na vida do cidadão. Na UE  as regras são mais incisivas, mais diretas, como por exemplo o Artigo 8 do Charter of Fundamental Rights of the European Union“Everyone has the right to the protection of personal data concerning him or her. Such data must be processed fairly for specified purposes and on the basis of the consent of the person concerned or some other legitimate basis laid down by law. Everyone has the right of access to data which has been collected concerning him or her, and the right to have it rectified.”  As preocupações na UE vieram como resquício do que aconteceu por lá na Segunda Guerra, sob o nazismo, com relação ao fim dos direitos e dados individuais, daí a tendência à regulação pelo estado.

Os indícios são de que nos EUA existe uma preocupação maior com a invasão de privacidade provocada pelo estado, vigilância via internet, acesso a ligações telefônicas e dados pessoais. Já na UE, embora exista também essa preocupação, o foco é nas invasões de privacidade provocadas pela coleta de dados por empresas globais. Isso cria dificuldades para grandes empresas globais que lidam com dados pessoais, como por exemplo o Google, que coleta dados pessoais declaradamente. Facebook idem. A fiscalização sobre as atividades do Google é muito forte na UE, ao passo que nos EUA não é tanto. E não é porque o Google é uma empresa estadunidense, é a questão dos fundamentos.  As relações comerciais internacionais não são tão simples assim, mas já é um bom começo para o entendimento da questão. O artigo em que me baseei, citado abaixo, inclui também o Japão na discussão, como representante do bloco asiático, com posicionamento bem parecido ao da UE.

Artigo base para esta postagem: Online privacy, regional differences. Autor: Logan Kugler, CACM Feb. 2015, pp. 18-20.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

A chamada Era Vitoriana, no Reino Unido, sob o reinado da Rainha Vitória no século XIX, compreendendo a janela de tempo de 1837 a janeiro de 1901, foi de enorme crescimento e progresso. Expansão do Império Britânico no exterior, consolidação da Revolução Industrial, movimento artístico e social Belle Epoque, e por ai vamos. Crescimento econômico enorme, colocando pressão por serviços bancários, circulação de moeda, comunicação mais rápida, sistema de pagamentos e compensação, agilidade na movimentação de fundos na área comercial. Por exemplo, o processo de compensação de cheques no sistema bancário mundial, começou por lá. Tomei conhecimento disto em um artigo, Victorian data processing: reflections on the first payment systems, autor Martin Campbell-Kelly, publicado na CACM (Communications of the ACM) de outubro de 2010. O artigo é tão interessante, que passei a usá-lo em uma disciplina de mestrado aqui no PPGCC-DPI-UFV, como motivador para estudo e mapeamento de processos organizacionais.

downloadNessa era, surgiu o telégrafo, fantástico invento e que acelerou o desenvolvimento econômico, comercial e social desde então. “Durante o reinado da Rainha Vitória, uma nova tecnologia de comunicação foi desenvolvida, que permitiu às pessoas se comunicarem instantâneamente em longas distâncias, na realidade encolhendo o mundo muito mais e muito mais rapidamente do que jamais imaginado. Uma rede mundial de comunicação, cujos cabos se espalharam por continentes e oceanos, revolucionando a prática do comércio, dando origem a novas formas de crimes, e inundando seus usuários com uma enchente de informação. Romances surgiram via os cabos do telégrafo. Códigos secretos foram criados por alguns grupos de usuários, e quebrados por outros grupos. Os benefícios da rede foram exaltados por seus defensores, e descartados pelos céticos. Governos e a midia tentaram sem sucesso controlar o novo meio de comunicação. Desde a obtenção de noticias e informação, passando pela diplomacia internacional, tudo teve que ser revisto diante da nova tecnologia. Ao mesmo tempo, em paralelo e fora da rede, uma subcultura tecnológica com seus próprios hábitos e vocabulário estava se criando e se espalhando aos poucos. ” 

Bem familiar, não? perceberam alguma semelhança com a atual internet? Traduzi (versionei) esse trecho extraído diretamente do Prefácio do livro The Victorian Internet, escrito pelo jornalista Tom Standage, um livro bestseller do New York Times, lido e elogiado no mundo todo. Esse foi mais um daqueles livros que pulou na minha frente, entre as  leituras da nossa última viagem. Fantástica leitura, muito bem escrito, cheio de histórias, mostrando claramente o impacto do telégrafo nas nossas vidas e na sociedade. De lá para cá, a grande mudança que houve foi impulsionada pelo avanço tecnológico, das tecnologias da informação e de comunicação. Em essência, os problemas e soluções se transferiram de lá para cá, sendo adaptados e melhorados, aperfeiçoados, para acompanhar a pressão sobre a internet e seu impacto em tudo no mundo atual. Foi muita mudança, muito avanço, muita evolução tecnológica, para um período curto de tempo da nossa história moderna. Imaginem os desafios e dificuldades de lançar os cabos por todo o Reino Unido inicialmente, e depois se expandindo para o mundo, para os países Europeus e depois para os EUA, com a necessidade de lançamento de cabos submarinos usando a tecnologia disponível na época, ou então criando soluções tecnológicas próprias. Isso do lado tecnológico, mas do ponto de vista social, o impacto foi enorme, preparando a sociedade para o mundo moderno. Como toda inovação, o telégrafo e a internet também seguiram em sua adoção e disseminação a curva de logística da Economia, que na Engenharia de Software usamos muito como “curva de aprendizagem“, que cansei de apresentar a meus alunos.

A internet está lotada de postagens e comentários sobre esse livro, esta aqui vai ser apenas mais uma. Um link interessante para um vídeo longo do Youtube, sobre o livro, pode ser seguido aqui. Recomendo, está tudo descrito lá e bem ilustrado. Para quem gosta da área de redes, e de evolução da tecnologia, esse livro é indispensável, leitura obrigatória.

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imagesClaro que o assunto “corrupção” incomoda muito. É um mal mundial, que derruba governos, empobrece países, afeta a autoestima da população, piora serviços públicos essenciais, e por aí vamos. Socialmente falando, é uma enorme distorção de comportamento, que vai se alastrando e com o tempo, passa a ser visto como comportamento normal, e aí até as novas gerações vão ser contaminadas. Lendo uma entrevista publicada na revista Exame (1/abril/2015), “Corrupção é falência moral”, com o filósofo Michael Sandel da Universidade de Harvard, uma pergunta e sua resposta me chamaram mais atenção, transcrevo a seguir.

“P: O que o senhor quer dizer quando fala em virtudes cívicas? R: São cidadãos com atitudes e hábitos que tenham como meta o bem comum. Mesmo quando estamos dentro do carro, tremendamente atrasados e vemos que não há câmeras vigiando no semáforo, obedecemos ao sinal vermelho. Mesmo quando o poder de fiscalização do Fisco é falho, pagamos todos os impostos. Mesmo quando parece não haver alternativa, nos recusamos a dar ou a receber propinas. Em resumo, não negociamos o valor da honestidade e do respeito mútuo. Por quê? Porque esses valores são parte constitutiva do que somos. É nosso caráter. É nossa visão de democracia. O combate à corrupção envolve a aplicação das leis e também uma transformação cultural. A ideia de que sempre se deve tirar vantagem do sistema precisa ser fortemente combatida. A corrupção não é apenas um caso de lei. É de atitude diária.”

Em um texto curto, acho que o entrevistado falou tudo, com sobra, dispensa comentários. O paradoxo é que até quem pratica a corrupção concorda plenamente, e acha que seu comportamento é exatamente o descrito, um exemplo social. Ou vocês acham que algum dos implicados no que está ocorrendo no momento no Brasil e no mundo afora se acha desonesto ou corrupto? Nunca, vão sempre achar uma “justificativa” para o que fazem ou fizeram, sem atentar para o fato de que estamos falando de conceitos sociais absolutos, que não admitem justificativas ou explicações. O comportamento socialmente aceitável é apenas um, descrito no trecho da entrevista acima.

Os comentários que leio de que “corrupção é endêmica no Brasil e faz parte da nossa cultura de querer levar vantagem em tudo” não são verdadeiros e não fazem justiça a nós brasileiros. Não somos um povo corrupto, de forma alguma, pelo contrário, somos um povo honesto e trabalhador. Corrupção é um mal que assola o mundo todo, começando pelo primeiro mundo. Tanto é que a OECD –  The Organization for Economic Co-operation and Development (Brasil faz parte) trata do assunto extensivamente, vejam no site específico da organização. Os princípios e controles padronizados pela OECD são aceitos e utilizados nos países-membro da organização, que aos poucos vão conseguindo avançar no combate à corrupção.

As iniciativas da OECD atacam o problema institucional, estabelecendo padrões de transparência, processos transparentes, controles específicos que permitem perceber que algo está indo errado. Mas o problema maior está na outra ponta, na formação da sociedade, na educação do povo, nos valores passados antes de mais nada pela família e em seguida, pela escola. É aí que a sociedade como um todo pode atuar, e todos podemos ajudar.

Esta postagem curta é apenas um desabafo meu, cidadão, sobre o momento atual brasileiro, com o que está sendo revelado pelas investigações das polícias e do MP.

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A substituição de tecnologias é um processo complicado, no meu entendimento, pelo menos nas transições. Das mais recentes que enfrentei, a mudança, ainda em curso, do livro impresso em papel para o livro em formato eletrônico, não foi tranquila e acho que ainda não aconteceu completamente para a minha geração. Os livros impressos em papel ainda estão ai, em grande quantidade, e ninguém nega que ler em livro de verdade, rabiscar, anotar, é sempre um grande prazer, apesar de os leitores digitais permitirem a mesma coisa, sem ocuparem espaço de uma biblioteca física. Tenho meu inseparável Kindle que uso muito, mas vez por outra me vem uma recaída e tenho que ler um livro em papel.

20150303112959-rocketboard_IND_graphic_erasablebook_finalFazendo minha rodada de leituras sobre tecnologia recentemente, topei com o caderno digital. Que não seria tanta novidade assim, pois já tivemos avanços nessa área, que não pegaram totalmente, como por exemplo a caneta LiveScribe, que foi um enorme avanço na manutenção dos cadernos e blocos de anotação em papel, segurando um pouco a migração total para os notebooks, tablets ou phablets. Mas ai me aparece o incrivel Rocketbook, associando o melhor dos dois mundos: o bom e antigo caderno de papel, associado com armazenamento em nuvens e possibilidade de apagar todo o caderno utilizando o que? o microondas! Isso mesmo: um caderno espiral com  8 1/2 x 11 polegadas, com botões de comandos no pé de cada página. Se for usada uma caneta com tinta especial, uma Pilot FriXion, que permite o apagamento perfeito com calor, obtido da fricção usando o topo do botão de acionamento da caneta. Ou, se o caderno estiver completo, levando-o ao microondas e apagando por inteiro.

Como é que o conteúdo vai para as nuvens? Usando os sete botões ou ícones de comando no pé da página, você pode marcar e escolher onde o texto da página vai ser salvo. Através de um app do Rocketbook instalado no seu smartphone, basta ativá-lo e focar em cima de duas páginas do notebook de cada vez (caderno aberto), as páginas são automaticamente capturadas e carregadas em nuvens, nos locais designados pelas marcas nos ícones do pé de página.

Bom, mas esperem, esse é  um projeto financiado pelo site de crowdfunding Indiegogo, que conseguiu levantar US$445.000,00 em 25 dias, muito mais do que os US$20.000,00 pedidos inicialmente pelos inovadores donos da ideia. Estará no mercado estadunidense em Julho/2015 na versão iOS, e em Agosto/2015 na versão Android. E eu acho que vai emplacar, pois não tem nada pior que ir para uma reunião ou assistir a uma aula utilizando um incômodo tablet ou notebook  para fazer anotações. Tem coisa pior do que escrever muito tempo em um tablet? Prefiro o velho e bom caderno, não tem comparação.

Artigo original da CNET pode ser acessado aqui. A imagem ilustrativa foi extraída do site do Indiegogo, citado acima.  

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indexMinha mais recente leitura em inovação foi o livro Crear o Morir!, escrito pelo jornalista Andrés Oppenheimer, lançado nos EUA no final de novembro de 2014. Apesar de eu já ter lido vários livros sobre inovação, e de já ter formado uma base em conhecimento no assunto, fui fisgado pelo livro desde o seu início. O forte do livro são as entrevistas com profissionais  que se dedicaram  à inovação e tiveram sucesso, apesar da origem humilde e das dificuldades por que passaram. Alguns conhecidos e outros nem tanto, as entrevistas do livro foram feitas pelo jornalista em seu programa sobre inovação na rede CNNEspañol. Gastón Arcurio (chef peruano), Pep Guardiola (jogador do Barcelona e mais tarde seu técnico bem sucedido), Salman Kahn (Kahn Academy), junto com vários outros, têm suas histórias contadas no livro.

Das entrevistas,  Andrés Oppenheimer extrai um padrão que parece comum a todos os entrevistados. A partir deste padrão, enuncia no capítulo final seus cinco segredos da inovação, que transcrevo aqui sem comentar: 1-Criar uma cultura de inovação; 2-Fomentar a educação para a inovação; 3-Acabar com as leis que impedem a inovação; 4-Estimular o investimento privado em inovação; 5-Globalizar a inovação. A discussão sobre esses cinco segredos é muito rica, com muitas dicas de leituras complementares e sitios web. Embora não sejam exatamente novidades, a forma como aparecem ao longo do livro a partir das entrevistas, é muito interessante e muito rica em conhecimento.

O futuro certamente é sem emprego, em que boa parte dos cidadãos terá que criar sua própria sobrevivência, a partir da inovação. Isso já está acontecendo, mas aqui na América Latina, onde os problemas econômicos tornam a sobrevivência e os horizontes dos jovens muito incertos e cheios de riscos sociais, não conseguimos vencer parte da cultura tradicional, do ensino modelo prussiano (a tradução não é muito boa) criado para manter os cidadãos subservientes e sem capacidade de crítica, lotados de provas e atividades que não deixam margem à criatividade.  Economias fracas, cultura anti-empresarial, escolas fracas, jovens desamparados,  governos fracos com raras exceções, ausência de políticas específicas e visão de longo prazo, é dificil inovar em um volume que faça a diferença. Vez por outra um jovem se sobressai, mas por esforço próprio, são casos raros e não são produto do sistema.  O livro mostra os caminhos que podem e devem ser seguidos para que a nossa triste realidade mude.

Na minha opinião, é leitura obrigatória para pais, educadores, gestores e formuladores de políticas educacionais, e até por políticos, quem sabe passam a prestar mais atenção na inovação e no que ela pode representar. O livro favorece a mudança, sem dúvida alguma.

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Tivemos que ir ao centro de BH para pegar documentos no posto UAI da Praça Sete, exatamente cinco anos depois que fomos lá pela primeira vez, escrevi uma nota aqui no blog sobre o local e o serviço prestado.  Antes de continuar, reforço a impressão da nossa primeira visita: continua sendo um local com serviço de primeira qualidade, bom atendimento, horários marcados, senhas, triagem e pessoas para dar informação. A única diferença que percebemos nesses cinco anos, foi a quantidade de gente por lá, entupido de gente precisando dos serviços, mas nada caótico, tudo organizado, filas andam tranquilamente, triagem e senhas organizam tudo. Continuamos achando que o local merece elogios, o serviço idem, e pelo movimento, a PBH deveria abrir outro UAI no centro mesmo.

ruacuritiba-centro-bhBom, saimos de lá com os documentos prontos e na mão, sem atropelos, coisa de 20 minutos no máximo desde que chegamos. E ai fomos dar uma volta pela região, começando pela Galeria Ouvidor, que era o shopping da nossa época de estudantes em BH (inicio da década de 1970). Já tínhamos passado por lá pouco antes, continua com o mesmo aspecto, mesmo tipo de lojas, aquele cheiro de fritura, e um monte de gente circulando, transitando entre a rua São Paulo e a rua Curitiba.  Sempre foi assim, quem viveu BH nessa época, tem boas lembranças. Resolvi dar uma escapulida e fui para a Rua Curitiba, olhar um desejo antigo que eu tinha certeza que ia achar lá: um rádio de pilhas de duas faixas, bom, daqueles de levar para o estádio de futebol e jogar na cabeça dos torcedores adversários (hoje só jogam as pilhas, o rádio ficou caro e raro). Coisa de velho, não? Porque eu não uso meu celular e escuto as rádios nele, usando os aplicativos próprios? Simples, porque eu acho mais fácil e mais tranquilo usar o rádio mesmo, e o meu Sony companheiro antigo deixou de funcionar, sem recuperação.

A rua Curitiba, nas quadras entre as ruas dos Tamóios, Carijós  e Tupinambás, tinha um monte de lojas de eletrônicos, uma do lado da outra, nós estudantes de Engenharia Elétrica fazíamos a festa por lá, tinha de tudo. Componentes, equipamentos importados, medidores, alicates, fiação, ponteiras. Rodei, e não achei mais nada disso. Claro, eu esperava que alguma mudança tivesse ocorrido, mas não tanto. Só achei lanchonetes, restaurantes, lojas de eletrodomésticos das grandes redes, uma do lado da outra, mais de uma loja de cada uma das grandes redes naquele pequeno espaço do centro de BH (Rikardo Eletro, Casas Bahia, Magazine Luiza e PontoFrio). Nessas lojas, eu nem ouso perguntar se vendem rádio de pilha, os vendedores até riem, alguns ainda sabem o que é isso.

Mas, para onde foram as lojas de eletrônicos? Resposta óbvia: o centro da cidade voltou a ser atrativo, as grandes redes chegaram e se instalaram por lá, aluguel subiu demais  por causa da chegada das grandes redes que foram comprando ou alugando os espaços, os pequenos vão sendo empurrados para mais longe, onde conseguem se manter, e possivelmente foram parar nos shoppings populares, Oiapoque, Xavantes, UAI ou Tupinambás, ou então fecharam as portas.  O termo usado para essa movimentação urbana de ocupação de áreas empurrando os antigos moradores e pequenos comércios para mais longe é Gentrificação, vem do inglês Gentrification. Mas, a Americanas original  ainda continua lá no mesmo local, grande e lotada de gente como sempre foi. E a sapataria Americana original também, está firme na mesma esquina de Tupinambás com Afonso Pena. Pelo menos por enquanto.

O centro de BH mudou para melhor, a meu ver. Está mais valorizado, mais vigiado, muitas lojas como sempre, muitas linhas de ônibus passam por ali, serviços, bancos, muita gente circulando. Claro, também muito mais perigoso, tem que ter muita atenção e cuidado para andar por ali, tem muito esperto de olho num descuido seu para levar uma carteira, um telefone, uma bolsa ou seja lá o que for. Mas, BH continua sendo a nossa cidade do coração!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

ÍndiceEm mais uma das minhas longas visitas a livrarias, fui achado por esse livrinho sensacional, Travels with Epicurus: a Journey to a Greek Island in Search of a Fulfilled Life, autor Daniel Klein. Bastou ler uma citação de Epicuro, filósofo grego, na quarta página do livro,  e não precisei de mais argumentos para comprar e começar a ler imediatamente na própria livraria Barnes&Noble (Union Square, NYC): “It is not the young man who should be considered fortunate, but the old man who has lived well, because the young man in his prime wanders much by chance, vacillating in his beliefs, while the old man has docked in the harbor, having safeguarded his true happiness. EPICURUS”

Nunca tinha lido nada diretamente sobre Epicuro, minhas aulas eram voltadas para Filosofia da Ciência, mas eu tinha conhecimento de Epicuro que vez por outra aparecia  citado nos livros. Epicuro de Samos (Epicuro significa aliado, camarada) foi um filósofo grego, criador da linha filosófica do epicurismo, que tinha o propósito de levar o homem a atingir a felicidade, um estado caracterizado pela aponia, a ausência de dor física, e pela ataraxia, ou imperturbabilidade da alma. Buscou na natureza as bases para o seu pensamento: o homem, a exemplo dos animais, busca afastar-se da dor e aproximar-se do prazer. Vejam o texto completo na Wikipedia, de onde adaptei o resumo acima.

O envolvimento com Epicuro e com a vida feliz que ele prega se dá através do relato da experiência do autor, aposentado e já nos seus 70 anos (muita coincidência…), que ao invés de gastar uma pequena fortuna e muito tempo em um tratamento dentário longo e doloroso envolvendo vários implantes,  resolve investir em uma viagem a uma ilha grega, a ilha de Hydra, conhecida por sua tranquilidade, pela longevidade de seus nativos, e pela forma como levam a vida. Sem os atropelos da vida moderna, sem eletrônicos, sem necessidades materiais excessivas, exatamente o contrário da sociedade em que vivemos nossa vida louca. A lição principal do livro é aprender a desacelerar o ritmo da vida na medida em que a idade avançar, o que (pelo menos para mim) não é nada fácil depois de ter vivido a vida toda acelerada, estressado, filhos, aulas, serviço público, finanças sempre no talo, trânsito, televisão, carro, banco, pagamentos, mestrado, doutorado, pós-doutorado, ônibus, assaltos, barulho, carnaval, falta d’água, e vamos por ai afora. Chega um momento que tudo isso precisa ser redimensionado, se quisermos viver plenamente o que nos resta de vida útil aqui na terra. O ritmo tem que baixar, não há outro caminho. Supostamente, aposentadoria seria para atingirmos esse estado de tranquilidade, mas isso não acontece automaticamente. Se não enxergarmos essa necessidade, e não trabalharmos para ela acontecer, vamos continuar acelerados e exigindo muito de um corpo que já está desgastado e pedindo mudanças.

Esse livro foi meu companheiro inseparável de viagem, sempre no bolso do casacão, lido, relido e anotado. Veio para as minhas mãos em um momento em que eu precisava desta leitura e deste primeiro encontro com Epicuro. Não acredito plenamente em coincidências, mas sim em serendipidade, que é o termo usado para o acaso em ciência: você tem que estar preparado para enxergar o que está ali diante dos seus olhos. Por sorte minha, eu estava preparado para perceber mais esse acaso em livrarias.

Coincidências da vida: comprei esse livrinho um dia antes da morte do meu saudoso orientador de doutorado na PUC-Rio, Roberto Lins de Carvalho. Um grande amigo, incentivador, otimista, filósofo, despertou em todos nós seus orientados o gosto pela filosofia, pelas leituras filosóficas, pelos argumentos lógicos.

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