A voz das coisas

Estava ouvindo um comentário de um jornalista, dos raros que eu acompanho nas redes sociais, quando ele falou sobre Antônio Gonçalves Dias, nosso poeta, escritor, advogado maranhense, nascido e falecido no século XIX. E mais conhecido pelo seu belo e festejado poema I-Juca-Pirama, que merece ser lido e relido por todos nós.

Não sei porque, me veio à mente “E Juca ouviu a voz das coisas”, de um poema que aprendemos no ginásio (quem passou pelo ginásio vai se lembrar desta poesia). Mais um poema daqueles que decoramos, declamamos e discutimos na sala de aula, e que certamente deixam marcas. Mas essa frase aí não tem relação nenhuma com I-Juca-Pirama, é de outro poema de Menotti del Pichia, A voz das coisas, e que é o título desta postagem.

Claro, fui reler o poema, agora com cabeça de 70 anos (daqui a 20 dias). Maravilhoso, fala da nossa relação com a terra em que nascemos e vivemos, com as origens. Valores que foram, de certa forma, perdidos ou embrutecidos pela vida, pelo mundo louco, pela pressa e pela urgência que as redes sociais imprimem na vida das pessoas, indistintamente. Recomendo a releitura (ou leitura), faz bem ao coração. Bom domingo!

A VOZ DAS COISAS [JUCA MULATO]

A VOZ DAS COISAS [JUCA MULATO]

E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brado:
“Queres tu nos deixar, filho desnaturado?”

E um cedro o escarneceu: “Tu não sabes, perverso,
que foi de um galho meu que fizeram teu berço?
E a torrente que ia rolar no abismo:
“Juca, fui eu quem deu a água para o teu batismo”.

Uma estrela a fulgir, disse da etérea altura:
“Fui eu que iluminei a tua choça escura
no dia em que nasceste. Eras franzino e doente.
E teu pai te abraçou chorando de contente…
— Será doutor! — a mãe disse, e teu pai, sensato:
— Nosso filho será um caboclo do mato,
forte como a peroba e livre como o vento! —
Desde então foste nosso e, desde esse momento,
nós te amamos seguindo o teu incerto trilho
com carinhos de mãe que defende seu filho!”

Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,
pareciam querer apertá-lo entre os braços!

“Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,
o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,
o varejão do barco e essa lenha sequinha
que de noite estalou no fogo da cozinha?
Depois, homem já feito, a tua mão ansiada
não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?
“Não vás” — lhe disse o azul — “Os meus astros ideais
num forasteiro céu tu nunca os verás mais.
Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas
hão de relampejar como pontas de espadas.
Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo,
irão te procurar com seus olhos de fogo…
Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas
correndo atrás de quem anda fugindo delas…”

Juca olhou para a terra e a terra muda e fria
pela voz do silêncio ela também dizia:

“Juca Mulato, és meu! Não fujas que eu te sigo.
Onde estejam teus pés, eu estarei contigo.
Tudo é nada, ilusão! Por sobre toda a esfera
há uma cova que se abre, há meu ventre que espera.

Nesse ventre há uma noite escura e ilimitada,
e nela o mesmo sono e nele o mesmo nada.
Por isso o que te vale ir, fugitivo e a esmo,
buscar a mesma dor que trazes em ti mesmo?
Tu queres esquecer? Não fujas ao tormento.
Só por meio da dor se alcança o esquecimento.

Não vás. Aqui serão teus dias mais serenos,
que, na terra natal, a própria dor dói menos…
E fica que é melhor morrer (ai, bem sei eu!)
no pedaço de chão em que a gente nasceu!”

© MENOTTI DEL PICCHIA
In Juca Mulato, 1917
MENOTTI DEL PICCHIA In Juca Mulato e 1917 Enviado por CYNDYQUADROS em 20/02/2018
Código do texto: T6259054
Texto copiado do blog Recanto das Letras, protegido sob licença CREATIVE COMMONS

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Mingau de fubá

Ontem, como me acontece de vez em quando, me lembrei dos meus avós maternos, em conversa de cozinha. Foram os avós com que convivi toda a minha infância e juventude, e certamente de quem herdei boa parte da minha cultura familiar, bons princípios e algumas manias como o gosto pela leitura, pela música, pelo violão, pelas brincadeiras (de minha avó principalmente). O mingau de fubá é uma dessas lembranças muito fortes, que de vez em quando me volta à memória no rastro da saudade.

Antes de mais nada, será que todo mundo sabe o que é mingau? e de fubá ainda por cima? Vejam a foto aí do lado, é uma aparência típica do mingau de fubá: um creme, parecido com um angu mais molengo, e doce, coberto por canela. É um prato típico de café da manhã no interior de Minas, onde meus avós viviam. E meu avô Gastão adorava o mingau. Reunia os netos e quem mais estivesse na casa, na mesa do café da tarde (sim, aqui em Minas tem esse costume do café da tarde) principalmente, e faziamos uma roda de mingau com muita conversa. A gente era bem novo, eu sou o neto mais velho e tinha uns 6 ou 7 anos no máximo. Para a época, quase um bebê, menino crescido.

Conversa boa, que foi aos poucos ajudando a formar nossa cultura. Meu avô tinha paixão pelos livros e pela escrita, publicava artigos no jornal local de vez em quando, tinha gosto pela língua francesa (que era muito chique na época), e foi este o contexto em que cresci. Em algum momento meus pais se mudaram para outra cidade, e o mingau de fubá rolava somente nas férias. No mesmo formato, no mesmo lugar, com o mesmo gosto.

Interessante é que, do mingau de fubá mesmo eu não gostava, embora adore angu, mingau de milho verde, pamonha, etc., todos parentes do mingau de fubá. Eu preferia mingau de Maizena, que minha avó preparava com o mesmo gosto, e a mesa ficava mais ilustrada. Bons tempos, lindas lembranças. Os avós não morrem, os avós apenas ficam invisíveis, ou se mudam para o nosso coração.

A imagem do mingau de fubá veio do site http://receitasagora.com.br

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Netflix: a regra é não ter regras (No rules rule)

Lendo esse livro, me lembrei de um artigo de 2001 que eu usava em minhas disciplinas de Engenharia de Software: Zepellins x Jet Planes (citação no final do texto). O contexto era processos de desenvolvimento de software, comparativo entre métodos sequenciais (waterfall é o representante mais usado), e os métodos iterativos-incrementais (no final da linha, métodos ágeis que ainda não eram realidade da disciplina).

Problemas e situações mais estáveis e menos sujeitos a mudanças, são comparados a Zeppelins, fáceis de abater pela sua lentidão e baixa altitude de vôo. Esse tipo de problema aceita melhor a abordagem sequencial dos métodos waterfall. Já os problemas mais dinâmicos, que por sua natureza exigem mais mudanças para adaptação rápida à realidade mutante, eram comparados a JetPlanes, que voam alto, rápido e mudam de direção com muita facilidade, e exigem métodos de desenvolvimento que permitam promover com facilidade as mudanças no sistema exigidas pelo contexto.

Nesse livro sobre a cultura gerencial da Netflix, que é A regra é não ter regras, temos exatamente isso: gerenciamento de empresas menos sujeitas a mudanças de contexto e mais adequadas ao gerenciamento por processos com mais controle de atividades, e o gerenciamento de empresas que estão completamente imersas na inovação, seu contexto exige mudanças com muita frequência para se manterem no mercado. Essas exigem métodos de gerenciamento que permitam decisões rápidas, acompanhando as evoluções do mercado, com menos controle e muito mais contexto para decisões acertadas, sem controle. É o caso da Netflix, imersa em um contexto de inovação contínua, que exige gestão que permita adaptação também continua, descentralização quase-total do processo decisório, etc. Um enorme desafio aos métodos tradicionais de gerenciamento, mais baseados em processos, monitoramento e controle.

É um livro que desafia os nossos conceitos de gestão o tempo todo, a cada página, muitas lições, muita revisão de conceitos. Uma evolução nos métodos atuais de gestão. Valeu a pena a leitura, recomendo demais, para ser lido mais de uma vez. Proporciona evolução de conhecimento e uma nova visão do que anda acontecendo pelo mundo.

Phillip Armour. The business of software: zepellins and jet planes: a metaphor for modern software projects. CACM 44(10), October 2001.

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Klara e o sol (Kazuo Ishiguro)

Talvez o que eu mais tenha lido na vida até o momento, de maneira consistente, foi ficcção científica. Desde garoto, li muito Flash Gordon, Mandrake, Fantasma (além é claro dos gibis de western), e mais tarde H. G. Wells, Isaac Asimov, Arthur Clarke (li tudo o que estava disponível), e vários outros mais recentes. Claro, assisti Metropolis várias vezes. Por exemplo, o conto O homem bicentenário, do Asimov, eu li incontáveis vezes, usava como leitura recreativa e motivadora em minhas disciplinas de Inteligência Artificial. Vi também o filme protagonizado pelo saudoso Robin Williams, incontáveis vezes, cada vez prestando atenção em mais detalhes.

Meu doutorado, terminado em 1990 na PUC-Rio, foi essencialmente em Inteligência Artificial (no limite do que o termo alcançava na época) numa época em que as discussões e possibilidades eram mais filosóficas, prevalecendo sobre a tecnologia que era ainda muito pobre. Na época, os japoneses lançaram seu projeto The Fifth Generation Project, que balançou o mundo e botou pilha nos demais países, para prestarem mais atenção na IA e suas possibilidades futuras.

Com essa base pregressa, fiquei positivamente impressionado com o livrinho Klara e o sol (Klara and the sun), do Kazuo Ishiguro, escritor japonês de ficção, mas não ficção científica. Já tinha lido o excelente Vestígios do dia, belo livro que tem filme sobre. Na leitura, vi passarem na mente várias teses e assuntos importantes, principalmente sobre a questão do aprendizado autônomo por máquinas, que é o ponto forte do livro. E, como em O homem bicentenário, como esse aprendizado pode levar as máquinas (robôs) a desenvolverem sentimentos parecidos com os dos humanos. Levando o leitor a ter pena dos robôs no final do livro.

Foi um grande prazer ler o livro, li atentamente para aproveitar ao máximo a leitura, os cenários que imaginei, e as cenas que se desenvolveram nesses cenários. Muito bom, gostei muito, recomendo. Candidato a filme em breve!

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Utilidade pública: o cartão do SUS

É isso mesmo, cartão do SUS. Tema meio inusitado para este blog, mas eu tenho uma categoria de postagens que é “Dicas”, então vamos lá. Nas informações sobre a tão esperada e salvadora vacina contra a Covid19, está a exigência de apresentação do cartão ou carteirinha do SUS. Quando li isso a primeira vez, quando fiz meu cadastro de velhinho para entrar na fila da vacina no site da Prefeitura Municipal de Viçosa, fiquei incomodado. Eu não tenho essa carteirinha, pelo menos ela nunca esteve nas minhas mãos. Fiquei pensando se não seria a apresentação do número CNS – Cartão Nacional de Saúde suficiente, e fui investigar. Entrei nos sites oficiais, entrei no SUS, procurei carteirinha, e consta lá que podemos ter a carteirinha virtual, não necessáriamente física em plástico. Já melhorou, bastava descobrir como conseguir essa carteirinha virtual. Mais fácil que morder água, vou explicar em seguida. Mas, já adianto que esse número CNS consta do seu cartão de plano de saúde, se você tiver um. Por exemplo, no cartão do Agros, tem esse número registrado, é obrigatório.

Como é que faz para ter acesso à carteira do SUS? Se preferir usar o celular, instale o app ConecteSUS, disponível tanto para Android quando para iOS (Apple). Ou https://conectesus-paciente.saude.gov.br/menu/home se preferir entrar pelo computador ou notebook. Abra o aplicativo instalado ou entre no site acima, aparece a tela com o famoso Entrar (tela de login). Clique no botão Entrar, e vai ser direcionado para a tela de login. Se você já tiver cadastrado usuário e senha, então é só fornecê-los e entrar no sistema. Se não, você vai ter que definir a senha, criando uma conta no site gov.br, que aparece indicado no próprio app ou tela do computador. Terminada esta etapa e se a senha for aceita, pronto, você vai usar o mesmo usuário (no caso é o número do CPF) e a senha definida, e entrar no aplicativo ConecteSUS que indiquei acima. Todos os seus registros no SUS estão cadastrados ai e vão estar acessiveis, e sua carteira SUS idem, vai aparecer no pé da página, basta clicar que ela aparece inteira. E permite exportação para fora do aplicativo, pode ser impressa se preferir, etc.

No próprio site do SUS há a indicação de que não é necessário mais apresentar a carteirinha no plástico, a carteirinha virtual resolve a questão da identificação. Claro, como ela não tem foto, tem apenas nome e número CNS, você terá que apresentar um documento de identidade. Mas isso já é normal e tranquilo. Achou difícil ou complicado? Fique tranquilo, não é nada complicado, em poucos minutos estará resolvido. E você ainda leva uma vantagem: seu CPF e senha definida serão usados para acessar qualquer outro site de serviço do governo federal, vai acabar aquela zona de um login para cada site, um inferno ter que ficar anotando tudo. Ajudei?

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Andança

Não se enganem, esta não é uma postagem sobre a música Andança: Vi tanta areia andei; Da lua cheia eu sei; Uma saudade imensa…, autoria do Danilo Caymi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós. Quem não se lembra desta música linda?

A conversa aqui é outra. É sobre andanças diárias mesmo, de sair a pé e andar, com ou sem rumo, em qualquer lugar. Andar parece iniciativa óbvia, mas não é mais tanto assim. Com a proliferação de especialistas em práticas esportivas, o que era uma simples questão de colocar um sapato ou tênis no pé e sair andando, passou a ser um cerimonial chato e cheio das exigências. Tênis adequado, boné, bloqueador solar, short com bolso para levar o telefone, meia confortável, garrafinha de água, relógio com GPS para marcar o trajeto, e talvez até um “personal caminhator” do lado, para garantir que estamos caminhando corretamente, no pace correto, com a respiração no ponto. Sem contar a indispensável máscara para os novos tempos.

Obviamente, nada contra, cada um complica a vida do jeito que achar melhor. Exceto talvez por algum problema físico que restrinja a atividade de caminhar, e que deve ser tratado com o médico e fisioterapeuta, andar deveria ser uma atividade diária e prazerosa. Oportunidade de fazer algum exercício cárdio-respiratório-físico, associada com a imersão no ambiente, encontro com um ou outro conhecido, etc. E este é exatamente o meu ponto aqui nesta postagem. Pratico esportes desde que me entendo por gente, comecei a jogar tênis incentivado por meu pai desde meus 13 anos de idade (o que não significa que fui um bom jogador), e joguei a vida toda, até que uma protusão discal na coluna lombar me limitou os movimentos de rotação do torso, e resolvi sair das quadras para não correr riscos. Afinal, quando o corpo é jovem, a recuperação física é muito rápida. Quando o corpo já está mais na descendente, a recuperação é muito lenta, cada lesão consome semanas de sofrimento, fisioterapia, talvez remédios. E não foi só tênis, também estão incluidos vôlei, natação, corrida, mountain bike.

Na minha época de estudante de engenharia em BH, eu trabalhava na parte da tarde na Prodemge (era programador Cobol), de 13 às 19hs de segunda a sábado. Ou seja, aula pela manhã, chegava correndo da PUC, almoçava quando dava tempo, e ia a pé do centro de BH para a Praça da Liberdade que é onde ficava a Prodemge. Subia e descia a Rua da Bahia todos os dias a pé, com sol, com chuva, com estrela ou com lua. Os ônibus eram lotados, e a famosa linha 60 (Sion-Floresta) só passava lotada de alunos de colégios que tinham aula às 13 horas. A situação reforçou o hábito de andar a pé, e nunca deixei de praticar. Simples: posso caminhar sempre, em qualquer lugar e em qualquer situação. Meu meio de transporte ancestral, o famoso JK (Joelho e Kanela), está sempre disponível, basta sair para a rua e começar a andar. Não falha!

E com isso, a andança passou a fazer parte da minha vida. Em alguns momentos até é uma caminhada mais longa, com amigos, roupas adequadas, etc. Mas na esmagadora maioria das vezes, é andar na rua mesmo, sempre procurando os trajetos mais longos para ter oportunidade de andar mais um pouco. Já me perguntaram porque eu não vou caminhar nas ruas da nossa bela e bem tratada UFV, e a resposta é simples: eu não saio para fazer caminhada, eu saio para andanças. Perceberam a diferença? Até passo pela UFV algumas raras vezes. Ajudado, é claro, pelo meu marcador de passos que vai no pulso disfarçado de relógio, que ajuda bem na disciplina. Estabeleci a meta minima de 8000 passos diários (aprox. 5km), e cumpro com prazer. Que diferença isso faz? Enorme, durmo melhor, acordo melhor, endorfinas ajudam. Emagrece? Claro que não, o que emagrece é fechar a boca e ter alimentação certa, na hora certa, saudável. Associando tudo, dá uma vida boa e tranquila.

Fui motivado a escrever esta postagem, que está na fila há muito tempo, por um artigo que li sobre a questão no site Men’s Health, que recomendo muito.

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Homônimos

Este é um assunto que eu já deveria ter comentado aqui no blog há muito mais tempo. Mas é aquela história, as coisas acontecem, a gente passa por elas, lembra que é assunto para o blog, mas não anota em lugar nenhum. E o tempo vai indo, o assunto fica esquecido. Até que, como aconteceu agora comigo, a gente se lembra dele lendo algum texto não relacionado com o assunto, a ideia volta a brilhar. Em particular, estava lendo um pequeno texto do Gabriel Garcia Márquez, no livro O escândalo do século (muito bom, recomendo).

Aeroporto de Confins, não me lembro mais o ano, possivelmente lá por 2017, não importa muito. Embarque internacional para os EUA, vôo direto da American para Miami. Esse vôo não existe mais, ficamos condenados a ter que embarcar em outros aeroportos do país, Guarulhos é o campeão. Na fila da Polícia Federal para checagem de passaporte, documentos, etc. Na minha vez, cumprimentos de praxe ao agente que estava na cabine, pegou o passaporte (ainda era o modelo antigo), entrou com meus dados no sistema, olhou para mim, olhou para o passaporte, olhou para mim de novo, olhou para o passaporte, olhou para a tela… Claro, pensei logo, deu merda! Aí o pior do constrangimento, a fila inteira de olho em mim, o agente me encaminhou para outra cabine, onde estava (claro) outro agente responsável por desambiguar as ambiguidades que aparecessem. Cumprimentos novamente, me perguntou se eu tinha outro documento disponível, e claro que eu tinha, sempre viajamos com a identidade atualizada e carteira de motorista. Apresentei a identidade, em dois minutos me liberou.

Claro demais, eu quis saber o motivo da dúvida. Perguntei se era problema com homônimo e ele assentiu, e disse que com os dados da identidade eles conseguem desambiguar e identificar o cidadão corretamente. No caso, o nome da mãe é a chave da desambiguação. Disse também que esse problema seria resolvido na emissão do meu próximo passaporte, que já vem com chip de identificação, que tem as informações concentradas e mais confiáveis. Minha cabeça a mil por hora, eu ex-professor também de banco de dados, onde o assunto chave primária, chave secundária e um monte de outros correlatos era esticado em várias aulas, muito sério. E eu ainda pensando, porque não usam o tal do CPF que é, supostamente, um identificador único de cada cidadão brasileiro? Algum problema existe, podem ter certeza, talvez alguma integração de sistemas que ainda não foi implantada. Problema muito comum, existem vários sistemas antigos, denominados sistemas legados, que ainda não são integrados aos sistemas mais novos por uma questão de custo altissimo para a integração. Bom, deixa os bancos de dados para lá, vou acabar mostrando transparências das minhas aulas (em papel celofane ou plástico :):)).

Quando cheguei ao destino nos EUA, peguei um notebook e fui pesquisar meus homônimos, só de curiosidade. Nome comum demais, curto, e com sobrenome também muito comum, principalmente em Portugal. Mesmo com meu Luis escrito com “s”, não me livra das colisões de nomes. Encontrei alguns homônimos envolvidos em processos judiciais, nem quis olhar o conteúdo, não interessa muito. E fiquei pensando na realidade atual com relação aos nomes. O mundo está entupido de gente, e certamente a questão dos homônimos deve ter piorado muito, não tem como a gente se esconder no nome. Como é que o cidadão comum pode resolver isso? O jeito mais fácil é não usar nomes curtos, aproveitar os sobrenomes de mãe e pai, usar nomes incomuns, etc. Quanto mais nomes ou sobrenomes forem incluídos, certamente diminui a quantidade de homônimos. Já fiz o teste, quando fiz a busca no Google incluindo o sobrenome da minha mãe no meu nome, a quantidade de homônimos caiu muito, apenas uns dois. Deu até vontade de acrescentar o sobrenome da minha mãe no meu nome, mas dá uma trabalheira do cão, até as certidões de nascimento dos meus filhos tem que ser alteradas, e todos os documentos deles daí em diante. Resultado do sistema cartorial de registro no Brasil, poderia ser uma coisa muito simples, um registro de nomes alternativos associados ao mesmo nome original. Solução muito usada na computação (alias), mas que ainda não chegou aos cartórios.

Bom, fica a dica de alerta, que certamente ainda vai ter falhas. Ia me esquecendo, com o passaporte novo, o problema desapareceu (a agente que emitiu o passaporte me garantiu que não teria mais problemas). Mas, sinceramente, ainda levo umas olhadas de banda dos agentes nas filas da Polícia Federal nos aeroportos. Tipo olhada rápida, despistada, de olho na tela do computador. Já estou acostumado…

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Mudando o estilo do texto

Como orientador e professor, eu esperava que os vícios de escrita e organização de texto derivados do uso das redes sociais demorassem um pouco mais a aparecer no texto técnico. Ou, na verdade, esperava que nunca aparecessem, e que ficassem restritos à comunicação na internet.

Mas, engano meu. O estilo que estou chamando “estilo twitter” já está emergindo, e aparecendo com muita frequência nos textos técnicos. Mas o que é isto? Textos organizados na forma de parágrafos curtos (por exemplo 140 caracteres…), cada pedaço da ideia principal espalhado por um monte de parágrafos em sequência. Dificultando a leitura e o entendimento da ideia, pois cabe ao leitor sair concatenando tudo para tentar entender corretamente a ideia que está sendo passada no texto. Parece que o conceito de parágrafo, aglutinador de ideias relacionadas, já foi corrompido.

Uma conclusão parcial é a de que as novas gerações perderam (se é que já tiveram) a capacidade de se expressar corretamente através da escrita. Mais uma vez, escreve bem quem lê muitos e bons textos, de bons autores. Livros, bons livros sempre. A leitura de notícias nas redes sociais, por exemplo, não passa esse conhecimento aos leitores. São headlines, úteis para uma ou mais gerações que têm pressa de tudo, e que mal lêem meia dúzia de linhas e já mandam a notícia adiante, e já formam opinião sobre assuntos polêmicos. E discutem doutamente as ideias, banalizando situações complicadas que fazem parte do mundo atual.

Minha função de orientador ficou mais desafiadora neste novo contexto. Quando recebo um texto de um aluno, por exemplo uma dissertação pronta ou parcialmente pronta, eu passo hoje mais tempo corrigindo e acertando o texto, a forma, juntando parágrafos, corrigindo uso indevido de termos e palavras, do que propriamente me dedicando a entender e contribuir com o principal, que é o conteúdo. Percebo também que está sendo tempo perdido meu, pois minhas observações mudam pouco ou quase nada na formação do aluno. O aluno aceita as observações, até corrige, mas logo adiante continua fazendo da mesma forma que já fazia. A questão já é cultural.

Isso não é uma onda passageira, as consequências são imprevisíveis. A linguagem que a gente usa forma parte do nosso caráter, da nossa cultura. A linguagem tem história associada, e a cultura de um povo depende em parte da língua que esse povo usa.

Acho que vou me aposentar de novo!

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Voltando ao normal

Entramos finalmente na primavera, calor total que vai persistir até março do próximo ano, quando voltamos ao outono do hemisfério sul. Pelo menos cinco meses de muito calor, criando o ambiente hostil e desfavorável (até onde se sabe) para a propagação do coronavirus. Aos poucos, atividades vão sendo retomadas, bares e restaurantes, praias, parques, nada de aulas. Enquanto isso, a vacina vai chegando devagar, já temos governador com data marcada para um grande evento de inicio da vacinação no seu estado. Ou seja, a perspectiva é boa, e temos que ser otimistas, pois o limite com a situação já foi atingido, já estamos naquele ponto de ruptura em que as pessoas estão preferindo o risco de serem contaminados, a continarem em casa com a vida limitada. Ninguém aguenta mais, afinal somos sociais, nossa vida é em sociedade. E temos que ganhar nosso sustento.

Será que vamos ver mudanças pessoais e sociais acontecerem de fato, assim que a grande ameaça for vencida? Vamos ter um normal diferente do que sempre foi normal para nós (eu me nego a usar a besteira do “novo normal”, um termo inventado pelos consultores e a turma da auto-ajuda)? Mudanças sociais não acontecem em seis meses, necessitam gerações para que se transformem em novos hábitos. E na hora do aperto, o ser humano promete qualquer coisa, até comer jiló ensopado todo dia no almoço e na janta, para ficar livre do problema (sem preconceito contra o jiló, que tem preferência nacional). Ou não é assim? As atividades sociais de antes da pandemia vão sendo retomadas, escolas voltam a funcionar, negócios são retomados ou recomeçados, economia vai se aquecendo, vida vai florescendo e, mesmo tendo passado por esse atropelo todo, tudo vai ficando no passado e vamos voltando ao que já faziamos antes da pandemia. Certamente algumas mudanças vão persistir, como por exemplo o trabalho remoto, reuniões remotas, menos viagens de negócios, atendimentos profissionais remotos, delivery de tudo, melhoria em logística, etc. Essas fazem parte da economia, já estavam acontecendo lentamente, e foram apenas aceleradas pela situação.

Aquelas promessas e planos que fizemos no momento do aperto, vão ficando para “quando for possível”, ou seja, vão para debaixo do tapete e não vão sair de lá. Claro que alguns poucos mais persistentes e mais disciplinados não entram nessa turma, esses vão adiante com as mudanças. Hoje mais cedo, estava fazendo minha meditação (vai ser assunto de uma próxima postagem) guiada pelo Tadashi Kadomoto, e na conversa inicial, ele disse que percebeu uma diminuição no número de pessoas participando das meditações nos últimos dias. O normal são umas 25000 pessoas nos dois canais (YouTube e Instagram), tanto às 6 horas quanto às 20 horas. Porque a queda? Segundo ele próprio, vida voltando ao normal, outras atividades voltando ao cenário, pizzaria, cervejinha, academia, praia, etc. Ai você deixa de fazer um dia para ir a praia, no outro vai sair com os amigos, e por ai vamos, vida normal e o que foi apoio e promessa na travessia dos meses de isolamento, vai indo aos poucos para debaixo do tapete.

Não tem nada de errado, claro. Vida voltando aos poucos, compromissos, cansaço diário. Como disse antes, mudanças permanentes exigem muito tempo, gerações, para serem incorporadas ao cotidiano.

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Trabalho remoto (não fique de pijama…)

Muita coisa publicada sobre trabalho remoto, homeoffice, as mudanças na rotina de trabalho, o futuro do trabalho, etc. Vou lendo tudo e assimilando algumas coisas que interessam, principalmente porque estou no trabalho remoto desde que me aposentei, ou até um pouco antes disso. Vivendo nessa situação de emergência mundial, em que os deslocamentos e agrupamentos de pessoas estão proibidos fisicamente, tudo parece um pouco pior. Felizmente, seres humanos se adaptam muito rapidamente a novas situações, e vamos seguindo em frente. A maioria sem condições de sossego para trabalhar, crianças também em casa sem aula presencial e fazendo atividades remotas, espaço para usar um notebook e a rede inexistente, qualquer cantinho é disputadissimo. Sossego não existe, só mesmo dentro de um enorme fone de ouvido com supressão de ruídos. Que custam uma fortuna e acabam por provocar danos à audição, como aquele zumbido fininho, alto, baixo, some, aparece, o famoso tinnitus, que atinge uma parte alarmante da população, eu incluído (meu caso não é por fone de ouvido, é desgaste mesmo).

Empresas afirmam que vão adotar o trabalho remoto definitivamente, pois a situação atual está significando uma enorme economia. Muitas empresas estão dispensando aluguéis caros e o modelo de escritório com trabalho presencial. Sem contar a enorme economia com passagens aéreas e estadias para custear deslocamentos das equipes. Aí me vem uma pergunta: se a empresa está economizando, quem está gastando? Claro, a ponta mais fraca, que está trabalhando remotamente. No caso geral, usando seu próprio equipamento, rede, energia elétrica, lanches, e espaço valioso da casa ou apartamento. As empresas grandes enxergam isso e criaram auxílios financeiros para ajudarem no aumento de despesa. Ajuda para compra de equipamento, contratação de redes com maior velocidade, segurança de dados, mesa para trabalho, etc. Pelo que tenho observado, esta não é a regra geral, infelizmente. A maioria das pessoas está financiando seu próprio trabalho remoto. Como, por exemplo, os bancos, quando transferiram o atendimento presencial nas agências para o atendimento remoto via terminais ou, mais recentemente, via aplicativos que rodam em qualquer coisa (celular, tablet, notebook, desktop, em breve nas TVs e sabe-se lá mais onde…). Uma enorme economia, pois o gasto foi todo transferido para o cliente, que arca com os custos (de rede, de energia, de equipamento).

Supondo as questões materiais todas resolvidas, ainda restam as questões sociais. O convívio é importante, a conversa presencial indispensável. Em alguns momentos, reuniões presenciais vão ter que ser realizadas. E em algumas áreas, quase impossível fazer tudo remotamente. Como por exemplo na área jurídica, em que audiências remotas acabam prejudicando a possibilidade de advogados observarem pessoalmente as reações físicas das partes contrárias. Imaginem num tribunal, um advogado de defesa ou de acusação falando para os jurados, sem poder avaliar o impacto de suas palavras pela observação das reações provocadas nos jurados. São situações estratégicas de cada área e que, no meu entendimento, ainda vão ter que ser presenciais. Pelo menos enquanto não tivermos disponíveis avatares ou teletransporte (que talvez nem seja necessário, se é que um dia vai existir).

Não dá para avaliar o que vai persistir e o que vai voltar ao que era antes. Como estamos falando de sistemas e situações sistêmicas, o número de variáveis é muito grande para ser bem gerenciado e avaliado neste momento, em que as coisas estão acontecendo. Muitas decisões são tomadas de forma reativa, apenas para resolver uma situação de momento. Certamente o sistema se transforma e se adapta, mas tudo tem que ser devidamente avaliado para termos uma percepção aceitável da nova realidade. Para termos um novo padrão emergente e duradouro, que provoque mudança social, ainda leva um tempo.

Agora um pouco de humor nessa história toda. Minha recomendação é a de que não fiquem em casa de pijama! Bem preconceituoso a princípio, mas explico. Quando me aposentei, em 2013, uma recomendação que segui à risca foi exatamente esta: não fique em casa de pijama ou de short, chinelo, e outros confortos domésticos. Todos os dias, invariavelmente, eu me visto e fico pronto para sair de casa, mesmo que não saia. Até sapatos eu visto, nada de chinelos (que são mais confortáveis). Minha perspectiva é a de que a moda pijama provoca uma mudança de hábitos depois de algum tempo. É tipo “estou de pijama, mas a padaria é logo ali em frente, não vou trocar de roupa só para ir lá comprar pão, vou de pijama mesmo…”. Já passaram por isso? E por aí vai, em pouco tempo você vai se pegar dirigindo no meio de um engarrafamento, vestido de pijama. Daqueles bem confortáveis e velhos, camisa furada debaixo do braço, e de repente… fura um pneu do carro, e você tem que atuar na rua, de pijama. Já pensou só?

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (Estou no GoodReads)

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Publicado em Emergência, Opinião, Reflexões, Social
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