Walden, a vida simples

Esse livro é um clássico da literatura mundial, mas notoriamente a estadunidense. Publicado em 1854, no meio do século XIX, foi um marco na vida de muitas pessoas, particularmente o movimento hippie dos anos 60, que foi baseado em parte no transcendentalismo (vejam aqui, Wikipedia). Escrito por Henry David Thoreau, Walden descreve a experiência de vida simples do autor em um sítio às margens do lago Walden Pond, localizado em Concord, Massachussets, EUA (vejam no Google Maps). Sítio de propriedade do poeta estadunidense Ralph Waldo Emerson, considerado um ícone do transcendentalismo, e que foi uma das influências de Thoreau em sua experiência transcendental de vida.  Thoreau viveu uns tempos nesse sítio, construiu a casa e vivia de seu próprio trabalho, comia o que colhia, vida simples totalmente, com dependência econômica mínima do mundo exterior.

O livro é um relato desta experiência, é muito longo e leitura cansativa em alguns pontos, pois o tema não tem mais o apelo que teve na época e principalmente no século seguinte, o século XX, com o movimento hippie dos anos 60. Não  consegui ler o livro todo com a devida atenção, muito do que ele fez e relata não se aplica mais, vivemos em outro mundo. Vida simples e despojada certamente deveria ser uma meta de todos nós nesse nosso mundo consumista, mas a visão idílica e utópica de viver na beira de um lago, produzindo para as próprias necessidades, tomando banho de lago todos os dias, levando vida solitária e de contemplação, é impossível nos nossos dias. Não existe na face da terra um sítio onde seja possível fazer isso com segurança e paz suficientes (exceto talvez no cemitério…).

De quebra junto com o livro, vem um artigo ou livreto complementar do Thoreau, Civil disobedience, tão conhecido e famoso quanto o próprio livro Walden. Reflexões do autor sobre o estado, a dominação do estado com relação ao cidadão, a servidão do cidadão ao estado com os impostos, etc. As ideias são bem atuais, estou gostando mais da leitura. O livro que li pode ser baixado em formato ebook (Kindle ou opensource) diretamente do site do Projeto Gutenberg, aqui. Vale a pena a leitura? Claro que sim, vale muito, ainda mais se considerarmos o peso histórico deste livro que influenciou e ainda influencia gerações.
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Transcendentalismo: substantivo masculino
1. doutrina concebida pelo filósofo alemão Immanuel Kant 1724-1804e desenvolvida por inúmeros epígonos e seguidores, que se estrutura em torno da investigação das formas e dos conceitos apriorísticos da consciência humana; idealismo transcendental.
2. qualquer doutrina voltada para a investigação da realidade transcendente, ou caracterizada por métodos alógicos de compreensão da verdade, tais como a intuição, a fé ou a revelação, que transcendem os instrumentos racionais e empíricos do conhecimento humano.

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Vesícula

A vesícula é uma pequena bolsa, localizada logo abaixo do fígado, próximo às costelas do seu lado direito do corpo (vejam a figura ao lado) que tem a função de armazenar e jogar bile, um líquido pastoso formado predominantemente por colesterol, bicarbonato e pigmentos, no duodeno para ajudar na digestão de alimentos gordurosos.  A bile é formada no fígado que se comunica com a vesícula, e a bile fica lá esperando sua vez de ser usada. Quando a dieta é pobre em gorduras  a saída da vesícula para o duodeno fica fechada. Com o tempo, a bile vai se endurecendo e forma os famosos cálculos biliares, enormes (normalmente) e causadores de problemas. Esses cálculos acabam por se alojar vesiculana saída de bile para o duodeno, represando tudo dentro da vesícula que incha, e aí acontece o que ninguém quer: crises de dores na vesícula. Exames de ultrassom abdominal de rotina mostram a vesícula e sua estrutura. Quando chega no ponto de estar com muitos cálculos e barrando a saída da bile, é a hora de tirar a vesícula, que perde sua função original, e vai ficar provocando crises. Existem procedimentos externos, não invasivos (como a litotripsia extracorpórea usada para bater e quebrar cálculos renais), que podem ser usados, mas se funcionarem, será por pouco tempo, os cálculos vão se formar novamente e o problema vai persistir. Segundo os médicos, o caminho seguro é tirar a vesícula.

Como eu já tenho meus cálculos renais (vejam aqui no blog) e o processo é parecido, conheço os sintomas das horríveis crises renais, já tive várias, expeli vários cálculos e tive que ir para bloco cirúrgico algumas vezes fazer extração de outros tantos. Mas a vesícula me enganou completamente.  Uma vez de que me lembro foi em 2014, abdômen inchou de repente, doendo demais, tomei remédio para dor (Buscopan mesmo) e não adiantou nada, levou um tempão para passar. Tive outra mais recente, pior que a primeira, desta vez inchou tanto o abdômen que chegou a provocar dor na coluna. Não consegui identificar a causa da dor, tinha certeza de que não era crise renal, pois já tive várias e essa eu conheço bem. E também como nas crises renais, remédios para dor adiantam pouco, a dor é persistente e chata demais. É possivel que outras crises mais brandas tenham acontecido e eu não percebi, sem contar a sensação de lotado e abdomen inflado com regularidade após as refeições. E olhem que nem como carne vermelha, só frango. Gorduras, nem pensar, já faz um bom tempo que reduzi meu consumo ao inevitável. Nada frito.

Nos exames anuais de rotina (faço todos os anos desde meus 40 anos), cardiologista e urologista pelo menos, e outras especialidades quando há indicação, a vesícula apareceu no ultrassom repleta de cálculos, indicação de remoção já pelo médico que fez o ultrassom. Daí para constatar que de fato a cirurgia era mesmo o indicado, marcar a cirurgia e extrair a vesicula foi um pulo. Data é só marcar que ela chega rápido, já repararam nisso? No dia 3 de março, anteontem, tirei a vesícula finalmente. Por videolaparoscopia, um procedimento de baixo risco e alto benefício, apenas quatro pequenos furos na região próxima da vesícula, e em pouco tempo, estava livre ela. Anestesia geral, quando dei por mim, já estava na sala de recuperação com o problema resolvido, meio sem saber o que tinha acontecido. Detalhe, sala lotada de pacientes em recuperação. Aqui em BH, no hospital LifeCenter. A recuperação é muito boa, ontem mesmo, dia 4, já tive alta e vim para casa, sem problemas.

Não tem jeito de passar pela vida sem ir deixando pedaços do corpo pelo meio do caminho. O corpo humano vai envelhecendo, não tem como parar esse processo e deixar o corpo sempre jovem (por enquanto!) e sem problemas. Certamente vou ter melhora sensível na digestão de alimentos, as crises vão sumir. A bile continua a ser pingada no duodeno, mas sem passar pela vesícula. Dieta sem muita restrição, apenas não exagerar nas gorduras (o equilibrio deve ser sempre a nossa meta, nada de exageros com nada). De quebra, ainda emagreci uns 100 gramas (peso aproximado da vesícula),  isso é lucro.

Quis deixar esse depoimento pessoal aqui no blog, como fiz com meus problemas com cálculos renais. Sei que ajuda muita gente que procura um depoimento menos técnico para entender seus próprios problemas de saúde. Mas, não se esqueça, se tiver algum sintoma como eu descrevi aqui, procure seu médico, nada de iniciativa própria. Recomendo este artigo aqui do MDSaude sobre pedra na vesícula, está tudo ai com mais fotos.

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V2V: a rede veículo a veículo

Seguindo os passos dos veículos autônomos, carros sem motorista, etc., começam a aparecer ainda em estágio experimental novos avanços tecnológicos que vão tornar o futuro mais confiável e mais confortável para o ser humano. A ideia é promover a comunicação entre veículos, que poderão trocar informações valiosas entre si, também de maneira autônoma. A comunicação veículo-a-veículo, ou V2V, é habilitada por uma rede sem fio dedicada e de  uso específico, de alcance restrito em torno de 300 metros (1000 pés) ou, em termos de tempo, 10s em velocidade normal para boas estradas. A tecnologia a ser usada (pelo menos nas pesquisas) são as comunicações dedicadas de curta distância (DSRC – Dedicated Short Range Communications), um “wifi like” que não usará as frequências tradicionais de wifi disponíveis.

bmw_3d_car2car_cityscenarioNo estágio atual, a tecnologia está em desenvolvimento na University of Michigan em Ann Arbour. Os testes estão sendo feitos em uma auto-estrada em Ann Arbour, com a instrumentação necessária instalada em um trecho de 73 milhas (121 km). Oito fabricantes participam dos testes com 2500 veículos devidamente equipados para permitir a comunicação.  Os dados a serem trocados entre os veículos são (lista inicial): velocidade do veículo, posição e direção do veículo, tipo de marcha (acelerando, marcha normal ou desacelerando), freios acionados, mudança de faixa de trânsito, controle de estabilidade, limpadores de párabrisas ligados, posição da marcha do carro, etc.  Com esses dados disponíveis para cada veículo, já com a frota atual equipada com hardware e software específicos em parte já disponíveis nos sistemas multimídia que já se tornaram comuns, será possível avisar aos motoristas de acidentes adiante, chuva, queda de barreiras, neve, necessidade de diminuir velocidade, etc.  Isso por enquanto, pois quando os carros autônomos estiverem nas estradas em número suficiente, as correções necessárias poderão ser feitas de maneira autônoma, sem intervenção do motorista.

Claro que os questionamentos já estão surgindo, pois há riscos enormes envolvidos. Por exemplo, a segurança desta tecnologia de comunicação DSRC. Os veículos ficarão mais vulneráveis? Serão um convite aos crackers, que poderão invadir os veículos diretamente afetando seu funcionamento, acionando freios, acelerando e outras desgraças?  São problemas que vão surgindo na medida em que a tecnologia vai ficando disponível, e vão ter que ser resolvidos antes de irem para a rua (preferencialmente), pelo menos no que for possível antever. Infelizmente, não temos disponível ainda um modelo da “mente do mal” que permita mapear antecipadamente todas as desgraças que possam acontecer. Digo “ainda” porque certamente em algum momento esse modelo vai estar disponível, podem apostar.

Segundo estimativa da GM, a tecnologia será efetiva quando 25% da frota estiver equipada e rodando nas estradas.

Artigo base para esta postagem:   V2V: What are vehicle to vehicle communications…?

A figura utilizada acima foi extraída do V2V:…, ilustração feita pela BMW que é um dos fabricantes que participam do projeto.

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Raciocínio lógico ainda é falha de formação

question-con-2-1444519Até parece que estava lendo notícia antiga de há mais de 10 anos:  “Entre os quase 1,3 milhões de jovens de 18 a 28 anos de idade, inscritos em 94 processos seletivos de 53 companhias ao longo de 2015, somente 0,3% deles atendiam aos requisitos impostos pelas companhias.”  E a surpresa maior, isso independente da universidade de origem, os alunos das nossas grandes universidades também estão nessa amostra aí. Os critérios de seleção mudaram um pouco para outras habilidades não ensinadas ou incentivadas nos cursos superiores pelo país. Os dois principais fatores de eliminação: 54% dos candidatos não atendem ao requisito de “domínio do idioma inglês no nível intermediário ou superior“, e 45% têm “baixa capacidade de raciocínio lógico, análise e resolução de problemas“.

Achei que a exigência de inglês fluente já estivesse resolvida, afinal isso é antigo, todo mundo sabe disso. Mas aumentaram a altura do sarrafo e o salto tem que ser mais forte e mais alto, não basta mais o yes-no-ok-maybe, tem que ter fluência e saber falar de fato. Já a capacidade de raciocínio lógico raros alunos conseguem desenvolver, tem que ser trabalhada muito antes de o aluno entrar no curso superior. Seu aprendizado tem que ser associado com a exposição dos alunos a problemas reais, situações que exijam capacidade de análise e tomada de decisão. Na minha opinião, no curso superior a participação em Empresas Juniores provoca o polimento e desenvolvimento destas habilidades, pois os alunos assumem responsabilidade de fato sobre projetos a desenvolver. Têm que se dedicar a fazer planejamento (por mais rasteiro que seja, é um aprendizado real), acompanhamento do desenvolvimento, resolução de conflitos, habilidades sociais, participação profissional em reuniões com os clientes, contato com empreendedorismo e seus desdobramentos, inovação, etc. Aquisição de visão sistêmica de problemas, este é o ponto. O inglês é até considerado secundário, pois pode ser aprendido em qualquer fase da vida (em termos). Já a desenvoltura nos negócios é mais difícil de aprender, piora muito enquanto o tempo passa.

Um outro atributo é a castigada resiliência, termo usado e abusado pois se tornou modismo e ficou bonito incluir a palavra em qualquer palestra ou notícia. Na maioria das vezes, é usado errado, vejam o correto: “Resiliência significa voltar ao estado normal, e é um termo oriundo do latim resiliens. Resiliência possui diversos significados para a área da psicologia, administração, ecologia e física. Resiliência é a capacidade de voltar ao seu estado natural, principalmente após alguma situação crítica e fora do comum.” (vejam no site original aqui). É uma capacidade que só se adquire com a vida e com as pancadas que a gente leva dela, não acho que seja possível ficar lendo livros sobre o assunto, lendo exemplos, e aprender a ser resiliente. Quanto mais dura for a sua vida, mais oportunidades de aprender a ser resiliente você vai ter. Falei um pouco sobre essas questões em uma postagem recente, Profissões em extinção.

Os raros que são aprovados nos programas de trainee estão recebendo treinamento complementar para desenvolver as habilidades sociais, convivência em grupos, resiliência, liderança, visão sistêmica. Mas lembre-se sempre de que uma parte da sua formação é responsabilidade sua mesma, hoje o aprendizado é mais autônomo, contínuo e dinâmico, aprende-se a vida toda. Não adianta ficar esperando conhecimento cair de graça no colo, de mão beijada. Tem que saber buscar as boas fontes, aproveitando as oportunidades que surgirem. Assuma o rumo do seu futuro e da sua vida o mais cedo possível. 

Artigo inspirador deste post: EXAME de 21 de dezembro de 2016, seção GESTÃO – Recursos Humanos, jornalista Aline Scherer. Recomendo a leitura, tem muita informação importante. 

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2016 foi ruim? Feliz 2017!

20172016 foi um ano ruim? Ao invés de fazer aqui uma análise do ano que passou, polarizada pelo meu entendimento dos fatos e meus próprios valores ou semântica, vou enveredar por outro caminho. Entendo que como seres humanos, devemos usar extensivamente nossa capacidade única de crescer e aprender na medida em que vivemos a vida. Não nascemos com modelos e reflexos pré-estabelecidos como os demais animais da natureza (exceto o da alimentação), não temos predadores naturais e não temos capacidade de sobrevivência autônoma no mundo assim que nascemos. Nosso processo é mais longo, e dependemos de outros seres humanos (pais inicialmente, depois a rede se expande) para nossos passos pela vida afora. Somos seres sociais, políticos.

Olhando para 2016 que já ficou no passado, enxergo que foi um ano rico em aprendizado para todos nós. Muita informação foi gerada, muitas oportunidades de aprender com nossos próprios erros e acertos. Nossos governantes fizeram um monte de merda, maracutaias mil, erramos na escolha de nossos representantes legislativos e executivos. Um mar de dinheiro foi desperdiçado, desviado e pessimamente mal usado em benefícios que nem sabemos direito quais foram. O que sabemos é que educação, saúde, miséria, fome e outras mazelas não foram resolvidas, ao contrário pioraram e muito nos últimos 15 anos ou mais. Isso se enxergarmos apenas internamente, mas o mundo nos ensinou muito em 2016, quem não se entristece ao ver a guerra na Síria, os refugiados, as mortes no mar, as mortes de fome?

Independente de análises, parcialidades, interpretações com viés etc. que possam ser feitas, o que interessa é que tivemos em 2016 uma enorme oportunidade de aprendizado. Isso sim, nos permite adquirir informação que se transforma em conhecimento em algum momento, em um processo dinâmico e infinito enquanto estivermos por aqui na terra. Isso enriqueceu demais nossa capacidade de enxergar os fatos e saber analisá-los, separando as falsidades e exageros. Escolher fontes confiáveis de informação não é tarefa fácil, e eu considero que temos que pelo menos inicialmente, ler de tudo, até termos um filtro semântico (dinâmico) para entender melhor a realidade.

E ai estamos em 2017, esperando que esse ano seja um ano melhor que 2016. Mas, isso não vai acontecer por inércia, sem nossa participação. E é aí onde a porca torce o rabo: se não nos reinventarmos a cada novo ano, se não crescermos como seres humanos e aproveitarmos as oportunidades de crescimento, todos os anos vão ter a mesma cara, nosso mau humor não vai mudar, vamos ficar na ranzinzagem de sempre, reclamando de tudo e de todos. Criticar é muito fácil, principalmente sem conhecer os fatos completamente. Ficamos enraivecidos com informação rasa e manipulada, sem buscar fonte confiável. E pior, mandamos notícias falsas e sem base adiante nas redes sociais, sem verificar a veracidade e sem ler o conteúdo.

Então, fica um desafio: que tal usarmos melhor nosso cérebro e nosso potencial, e junto com as reclamações mandarmos adiante também as soluções para nossas reclamações? que tal agirmos positivamente para mudar o que estiver ao nosso alcance?  Reclamar no Facebook não resolve nada, fica tudo do mesmo tamanho, a realidade precisa de ação para ser alterada.

Feliz 2017!

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Previdência 1: Repartição Simples

Acho que é um bom momento para escrever sobre previdência e seu modelo público no Brasil. A discussão está no ar, embora eu veja muita gente reclamando da proposta de Reforma da Previdência Oficial feita pelo governo, sem perceber que esteja acontecendo uma discussão séria e necessária sobre o assunto. Vão aqui meus poucos centavos de contribuição ao entendimento da situação.

A previdência social no Brasil tem sua origem em 1888 com o Decreto 9912, de 26/03/1888, direcionado à aposentadoria dos funcionários dos Correios, com o requisito de 30 anos de efetivo serviço e 60 anos de idade mínima. Essa foi a semente da previdência social por aqui, e a história é muito longa e pode ser acessada aqui, por exemplo. Quero me concentrar aqui no aspecto “como é que funciona a previdência oficial”. O regime financeiro adotado aqui é o denominado de repartição simples, ou regime de caixa ou fluxo de caixa. Os recursos arrecadados são utilizados imediatamente no mês da arrecadação, não existe capitalização de qualquer espécie. A lógica é simples, temos um monte de compromissos para pagar, e o dinheiro disponível para fazer os pagamentos é o que foi arrecadado naquele mês, muito parecido com nossas finanças domésticas (para quem tem algum controle sobre ela). Esse é um modelo solidário, em que todos que contribuímos para a previdência estamos pagando a aposentadoria dos muitos aposentados, um dia será nossa vez de mudar de lado, passando de pagadores a recebedores (em termos). Em linhas gerais é assim que funciona, relativamente simples.

cashflowBom, se é tão simples assim, porque é que temos tantos problemas? Para início de conversa, o que garante a sobrevivência do sistema é tanto os novos entrantes/pagantes no sistema, melhorando a arrecadação, quanto a mortalidade da massa de aposentados. Claro, embora seja um aspecto desagradável lidar com a ideia de morte, o sistema tem que contar com essa variável. Se não acontecer esse fluxo dinâmico, a previdência fica em apuros, e os recursos podem não ser suficientes para saldar os compromissos de cada mês. O que é que pode dar errado? Por exemplo um fato marcante da nossa época, o avanço da medicina e da saúde dos idosos, aumentando a longevidade e a média de sobrevivência da população (felizmente). O impacto na previdência é grande, pois serão necessários recursos por mais tempo para continuar pagando as aposentadorias. O fator sobrevivência ou mortalidade é um dos mais importantes para manter o equilíbrio do fluxo de recursos do sistema, que deveria ser sustentado pela entrada de novos pagantes no sistema, normalmente jovens que levarão muito tempo para se aposentar e que manterão o sistema em funcionamento. Nesse ponto, podem imaginar várias situações que melhorariam o sistema, desde a entrada de muitos novos pagantes com bons salários iniciais, indo até o aumento da mortalidade dos aposentados. Ou aportes extras nos recursos, como por exemplo impostos criados pelos governos para garantir mais recursos entrando no sistema. O que não resolve muito, pois se o sistema todo não for sustentável (essa é a ideia chave), ele nunca vai se manter em equilíbrio, e de tempos em tempos vai ser necessário criar novos tributos com o mesmo objetivo. É a natureza do problema que determina esse comportamento.

Quem leu até aqui já percebeu que o problema tem uma natureza dinâmica, a cada período de anos ele muda, pois muda o perfil de mortalidade da população, variando para mais ou para menos. E os técnicos que trabalham com a previdência têm esses modelos (espero que sim) que ficam em constante execução e monitoramento, mostrando as variações e subsidiando as decisões para os anos seguintes. Por exemplo, como é calculado o valor de contribuição para a previdência oficial? Várias variáveis entram na conta, e uma delas é a tabela de mortalidade da população de aposentados, que é um elemento importante usado nos modelos. E é por isso que os governos do mundo todo, nos países que usam o mesmo modelo de previdência brasileiro, têm que fazer ajustes na idade mínima de aposentadoria (que é o que nos afeta mais diretamente). Isso tem lógica, pois se a média de sobrevivência aumenta, aumenta também o tempo de pagamento das aposentadorias, introduzindo desequilíbrio no sistema. Aumentando a idade mínima para aposentadoria, mantém-se mais gente pagando por mais tempo, dando um fôlego extra ao sistema.

Mas é só isso? Mais ou menos, pois governos costumam provocar mudanças no sistema, que só pode ser alterado por mudanças na constituição, pois a previdência é regulamentada lá, em vários artigos e seções importantes. Difícil ou não, o sistema tem ralos e benesses introduzidas por governos, o que sobrecarrega os pagamentos a serem feitos, sem a introdução da necessária entrada de recursos para suportar as alterações. E esse é o nosso terror de aposentados, a cada mexida inconsequente ou irresponsável, o fluxo de recursos sofre alteração, e o que parece fantástico à primeira vista, passa a ser um inferno depois de alguns poucos anos. Como estamos lidando com um sistema supostamente em equilíbrio, qualquer mexida em variáveis críticas provoca desequilíbrio, e os efeitos deste desequilíbrio só vão ser sentidos muitos anos adiante, em um efeito de atraso ou delay. Normalmente, quem toma a decisão de mudar, errada ou não, não estará mais vivo para perceber a merda (ou benefício) que introduziu no sistema.

Não vou me alongar, só queria esclarecer esse ponto. Teria muito mais a escrever e a contar, mas a postagem está longa e já dei meu recado. Só mais um detalhe, se é você é contribuinte da previdência oficial no Brasil, e acha que “contribuí durante 30 anos mês a mês com um valor proporcional a  R$xxxx,xx, então eu devo ter armazenado 30 x 12 x R$xxxx,xx no sistema”, não se iluda, não é assim que funciona. Não tem nada armazenado, o nosso sistema não funciona assim, embora possa ser assim. Vou falar dessa possibilidade em uma postagem seguinte, sistema de capitalização. E depois, previdênvia privada que está em alta por aqui. Aguardem!

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Profissões em extinção

Vejam atualizações no final da postagem.

O ciclo de mudanças sociais provocadas pelo avanço da ciência e da tecnologia é implacável com as profissões. Algumas vão sendo extintas, outras vão sendo criadas, habilidades e conhecimentos vão aparecendo como exigência para os novos entrantes no mercado de trabalho. E ao mesmo tempo, habilidades mais antigas vão sendo substituídas por máquinas, por software com inteligência artificial. De um modo geral, profissões baseadas em rotinas que podem ser descritas como uma sequência de passos passíveis de serem executados por máquinas virtuais, que envolvam apenas decisões rotineiras, são passíveis de serem substituídas.

Muitas profissões sumiram dentro desse contexto. Por exemplo, talvez as novas gerações não se lembrem, mas até há bem pouco tempo existia a profissão do Desenhista, profissional com formação superior responsável por desenhar, a mão, plantas de obras de engenharia, desde casas e prédios até desenho industrial, peças, ferramentas, objetos de decoração, etc. Utilizando grandes pranchetas, papel vegetal e tinta nanquim, sabem o que é isso? Com o surgimento dos computadores pessoais mais poderosos, software de projeto de engenharia e as mesas plotadoras (mesas para desenhos), aos poucos essa profissão foi sumindo. Um escritório de engenharia ou arquitetura tem disponíveis hoje várias ferramentas que facilitam esse trabalho, ajudam na produção de protótipos visuais perfeitos, e cuidam da impressão em escala e dentro das normas estabelecidas. Desenhista deixou de ser necessário, tiveram que mudar a qualificação profissional para poderem sobreviver no mercado.

Um outro exemplo é o do Protético, aquele que produz as partes de dentes ou dentes completos utilizadas pelos dentistas, ainda existente e muito usado, mas que aos poucos vai sendo substituído por equipamentos sofisticados, ainda caros para chegar a todos os consultórios. Equipamentos de laser escaneiam perfeitamente as cavidades onde vão ser implantadas as próteses, o modelo virtual vai direto para uma máquina ou impressora 3D que produz a peça na hora, dentro do consultório, com um nível alto de perfeição e aderência ao local. O sistema bancário mundial é cheio de exemplos de funções substituídas por máquinas ATM ou pelos aplicativos que rodam em máquinas que cabem no bolso (smartphones, tablets). Neste caso dos bancos, uma parte da responsabilidade é transferida para o usuário final, que tem que acompanhar e se preparar para o uso dos aplicativos. Outros exemplos de profissões que já estão na transição de mudança: Motorista (carros autônomos), Piloto de avião (drones cada vez mais sofisticados) e até Professor!

fyareportUm relatório recente da FYA – Foundation for Young Australians traz um estudo longo, cuidadoso, sobre as escolhas de cursos superiores de boa parte dos jovens australianos, que estarão em extinção nos próximos cinco anos. Em linhas gerais: -ocupações de nível de entrada no mercado de trabalho desaparecerão (secretárias, recepcionistas, caixa de supermercado, programador de computador, e outras que seguem rotinas automatizáveis); -70% dos novos entrantes na força de trabalho serão afetados diretamente pela automação (associada com inteligência artificial); -60% dos estudantes que estão atualmente nas universidades australianas estão sendo treinados em trabalhos e rotinas que serão totalmente alterados pela automação; -mais de 50% dos que já estão no mercado de trabalho serão exigidos, num período estimado de 2 a 3 anos, a terem habilidades reais para configurar, usar ou construir (programar, código mesmo) sistemas digitais. Embora o estudo tenha sido feito para a realidade australiana, a sua leitura permite concluir que ele se aplica a qualquer país do mundo que esteja adotando a tecnologia, o que inclui o Brasil evidentemente, mas não tão rápido. O relatório segue detalhando os dados levantados, e no final propõe diretrizes ao governo Australiano, para proceder a uma reforma do ensino profissionalizante e superior, para incluir disciplinas que preparem os jovens para as novas exigências de mercado. Dentre elas, as citadas como mais importantes forças que vão moldar o mercado de trabalho: Automação, Globalização (embora o novo presidente estadunidense não queira…) e Colaboração. Vale a pena a leitura do relatório completo, que pode ser baixado do site da FYA, é muito ilustrativo e bem produzido. A figura acima foi extraída do relatório da FYA.

Atualizações: Will a robot take your job? 05/12/2016 (obrigado Victor Avalos); The most important skills of tomorrow, 05/02/2107;

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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