Pompeia

Em outubro 2017, resolvemos encarar um passeio curto pela Europa, via pacote turístico. Incluiu parte da Itália, uma passagem pela Suiça apenas uma noite, e o restante do tempo em Paris. Cansativo demais, mas ao mesmo tempo tranquilo, sem preocupações com carro alugado, estrada, estacionamento, sinal do celular para usar o Google Maps, etc. Para um casal na terceira idade, nada melhor, apesar da correria e da pressão de tempo. Vou falar aqui um pouco sobre a cidade histórica de Pompeia, que nos impressionou demais.

Fica localizada na base do famoso vulcão Vesúvio, na região sudoeste da Itália, muito próxima de Nápoles (22 km). Pertencia ao Império Romano, fundada nos séculos VI e VII, e completamente destruída pela erupção do Vesúvio no ano de 79. Somente em 1748 foi descoberta por acaso, e aí começou o trabalho de escavação e recuperação da cidade pelos arqueólogos. Tudo muito preservado pelas cinzas expelidas pelo vulcão e pela lama que se formou com a chuva que acompanhou a erupção.  Hoje é patrimônio mundial pela UNESCO, e é muito bem preservada e bem cuidada. Claro, muito vigiada e sempre com muitas pessoas fiscalizando e orientando os 2.5 milhões de turistas que passam por lá todos os anos. Vejam aqui na Wikipedia um resumo histórico sobre a cidade.

É incrível como os romanos, lá nos séculos VI e VII, tinham uma noção de organização urbana espetacular. Ruas bem desenhadas com espaço para circulação de carros (bigas, carruagens), todas pavimentadas com pedras lisas bem colocadas, e as marcas das rodas das carroças aparecem nas pedras, cortadas pelo uso. Calçadas idem, largas e pavimentadas com as mesmas pedras encontradas nas ruas. A cidade tem setor residencial separado do setor comercial. Ruas de comércio, com as pequenas lojas e “botecos” preservados, com balcão de atendimento, algumas com fornos. As moradias com noção de divisão funcional, com sala, quartos, etc. Algumas casas que vimos, tinham preservados no chão os moradores pegos de surpresa pela erupção do vulcão e ficaram soterrados ali, debaixo das cinzas, mas incrivelmente bem preservados. A cidade fica numa região elevada, em alguns pontos é possível ver todo o vale abaixo e ao redor, e o Vesúvio sempre de olho. A foto que acompanha a postagem é de uma rua da cidade, procurei capturar uma rua de ponta a ponta, para dar uma noção do comprimento da mesma. Vejam que as ruas não são curtas, e são várias assim, com o mesmo tipo de organização.

Ficamos impressionados com Pompeia e seu peso histórico, que está presente no ar que se respira por lá. Todas as nossas aulas de história do ginásio (secundário) voltaram à mente, nossos professores Pedro Gomide ou Pélmio Carvalho falando sobre Pompeia e sua importância na história da humanidade. Viajar traz retornos, sempre vale o sacrifício financeiro. Até a próxima postagem e a próxima viagem.

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Feliz Ano Novo!

Mudamos de ano, mas de fato nada muda. O fluxo normal dos acontecimentos continua firme, cada novo ano herda tudo do ano anterior, problemas e soluções.  Continuamos com os mesmos problemas, uma parte sendo resolvidos com muito esforço de poucos, empurrando paredes e paredões. A criatividade do ser humano é enorme, cada dia aparece um esquema novo, ainda não detetado pelas investigações de nomes extravagantes.

Estamos confiantes nas eleições para mudar os rumos do país, mas de fato nunca mudamos nada com eleições, até pioramos. Eleição direta é apenas uma parte do sistema democrático, e não praticamos todo o resto das bases da democracia, apenas recitamos o que nos interessa em algum momento. Exemplos não faltaram em 2017, principalmente no quesito “democracia é isso, posso falar o que eu quiser” ou “democracia é isso, posso fazer o que eu quiser”. Sempre esquecendo da parte complementar: “com responsabilidade sempre, e sem ferir o direito de quem está do lado”. E aí a coisa enrosca, pois falar e fazer com responsabilidade exige princípios éticos e morais fortes, exige nos colocarmos do outro lado, ou então colocar nossa mãe ou um filho ou quem quiserem do outro lado, e então avaliarmos se ainda faríamos ou falaríamos a mesma coisa. Essa prática de pensar sempre no outro e avaliar nossos atos enxergando o outro, é a meu ver a base da sociedade harmoniosa e solidária. Simples, não?

Mas a chegada do novo ano, 2018, traz junto a esperança de melhoria, como se num passe de mágica fosse possível passar tudo a limpo e começar tudo novinho, como nossos cadernos da época de grupo escolar (meu tempo). Era sempre um prazer começar a usar um caderno novinho, encapado, caprichado na primeira folha, na segunda… mas nem tanto nas demais folhas que se seguiam. Mas não é assim todo ano? Começa bem até entrarmos na rotina diária, nas impossibilidades do mundo real, aparecem problemas novos, e vamos ajustando os rumos e seguindo outros caminhos. Cada vez mais longe das promessas e desejos de início de ano.

Então, vai um desafio: vamos mudar o país com nosso esforço? vamos parar com mimimi e vamos encarar os fatos reais? vamos parar de escrever qualquer coisa nas mídias sociais, de compartilhar besteiras sem o menor fundamento? vamos pensar no próximo, em quem está do outro lado sendo atingido por nossos comentários ou compartilhamentos? vamos ler e entender de fato o que as mensagens querem dizer? vamos verificar se não estamos compartilhando boatos grosseiros e ajudando a confundir mais as pessoas? em algum momento, vamos ter que começar a fazer isso. A mudança depende de cada um de nós. Só eleição não muda nada, nós é que podemos mudar alguma coisa.

Feliz Ano Novo a todos que conseguiram ler até aqui. Que 2018, 2019, 2020 etc, seguindo a regra dos sucessores da aritmética de Peano, sejam palcos do nosso próprio protagonismo. Sem terceirizações de mente, sem esperar um super-humano populista que venha resolver nossos problemas sem a nossa participação ou interferência. Isso só existe na nossa imaginação ou nosso desejo, mas a realidade é bem outra.

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GPS: sinal falso, caminho errado!

Uma equipe da University of Texas at Austin (USA) conduziu um experimento que deveria deixar todos nós preocupados. Instalados dentro de um iate de 80 milhões de dólares, navegando no mar Jônico,  a equipe sequestrou o sinal de GPS e o falsificou, levando o iate para um rumo ligeiramente diferente daquele estabelecido pela tripulação. Como foi um experimento, nada de assustar. Mas, nas mãos erradas, poderia ser usado para sequestrar o iate de fato, levando-o a uma região onde poderia ser abordado.  Isso usando equipamento relativamente barato e fácil de achar no mercado.

GPS-Global Positioning System já faz parte do cotidiano, qualquer smartphone tem captador de sinal de GPS, que usamos para navegar por mapas, encontrar rumos, marcar lugares por onde passamos, etc. O Google Maps e seus serviços derivados, por exemplo, são dependentes do sinal de GPS para funcionarem adequadamente e independente de existir sinal de wifi disponível. Os carros mais modernos trazem sempre o painel de navegação, e o GPS funciona ali, nativo do veículo ou espelhado a partir do telefone, via bluetooth. Veículos autônomos então, sem comentários, não funcionam sem ajuda do GPS. Todo mundo usa, sem saber dos possíveis riscos inerentes à tecnologia GPS. Nos EUA, o sistema GPS é formado por 24 satélites em órbita geoestacionária, que emitem sinal constantemente para a terra, alimentando os dispositivos. O sistema disponível para o público não é muito preciso, mas tem sido aperfeiçoado já podendo chegar a 30 cm de erros quando usado em telefones comuns. Já notaram que, quando vamos usar um app que dependa de GPS para localização, por exemplo para chamar um táxi (onde o serviço estiver disponível), aparece um endereço bem diferente daquele onde estamos? São problemas de precisão na localização, podem acontecer erros de muitos metros.

O sequestro de sinal GPS e sua falsificação pode ser feito com equipamentos baratos, disponíveis no mercado. No experimento citado acima, tudo custou abaixo de US$2000! Um dispositivo simulador, que gere sinal de GPS para teste de equipamentos, pode ser ajustado para emitir o sinal que se deseje, provocando a mudança de rota. E se vocês estão achando que isso é coisa de pesquisador de universidade que não tem mais o que fazer, vejam o vídeo curto da CNNTech, relatando um caso real.

Então estamos ferrados, nas mãos dos falsificadores de sinal? Bom, os equipamentos de recepção de sinal GPS mais sofisticados têm um sistema de deteteção de erros, e não usam apenas um sinal de satélite para determinarem seu rumo. Usam mais de um sinal vindo de satélites diferentes, que por sua vez enviam o sinal com uma “assinatura” de identificação, e calculam o rumo e distâncias com base nesses dados. Os equipamentos disponíveis em carros e telefones comuns não fazem isso, estão sujeitos a erros o tempo todo. A tecnologia tem avançado para tentar evitar esses problemas, usando por exemplo assinatura nos sinais de satélite, o que certamenta facilita a identificação do sinal falso. Já pensaram um monte de carro em uma cidade grande, todos usando Waze ou Google Maps direto, com sinal de GPS falso? Sem salvação, vai ser o caos total. E a esmagadora maioria dos motoristas, hoje, usa algum aplicativo para se orientar, mesmo em rotas conhecidas. Os aplicativos ajudam a identificar e contornar acidentes, impedimentos na estrada, etc. O sistema de assinaturas do sinal, para quem tiver interesse de aprofundar um pouco mais, pode ser encontrado aqui neste artigo. E se quiserem, além disso, acompanhar os riscos de uso da teconologia no mundo moderno, recomendo o site Inside Risks da ACM, vejam aqui. Professores de computação principalmente, não deixem de usar o material do Inside Risks, experiência própria.

Nota: esta postagem foi motivada pelo artigo Why GPS spoofing is a threat to companies, countries?, Logan Kugler, CACM September 2017.

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Nossos tempos eram melhores?

Às vezes me pego tentando comparar os tempos atuais com os “meus tempos”, de nascido em 1951. Nada formal, apenas nuvens de ideias que vão passando e se misturando umas com as outras, formando contextos das duas épocas separadas por mais de 60 anos. Difícil comparar, pois os contextos devem ser levados em consideração, e a imparcialidade tem que ser um requisito da análise.  Aqui vão apenas algumas considerações extraídas das minhas leituras e ideias próprias, apenas isso. Um pouco motivado também por uma conversa em que uma pessoa pouco mais nova que eu, que gosta de dar palpite superficial em tudo, me disse que “os tempos atuais são os melhores já vividos”. Uma afirmação complicada, improvável, e que só tem valor na cabeça de pessoas desinformadas, leitores de headlines.

Nasci em 1951, no pós-segunda guerra mundial, o mundo sofrendo ainda os efeitos perversos de uma longa guerra que dizimou boa parte do mundo, afetando gerações. Eventos que marcaram não só a minha geração, mas as que vieram imediatamente antes e várias que vieram depois. E ainda em pleno governo de Getúlio Vargas, então legitimamente eleito por esmagadora maioria de votos dos brasileiros. Mas, junto com os sofrimentos, também foram chegando os avanços obtidos na segunda guerra: comunicações, transporte, penicilina, técnicas cirúrgicas, materiais, rádio, televisão, telefone, veículos de guerra, veículos de passeio derivados dos veículos de guerra, tecidos resistentes, o glamour da década de 50 no hemisfério norte, principalmente nos EUA. Tudo era novidade, e tudo significava muito progresso. Era emocionante poder pegar um telefone daqueles em que se ouvia numa parte do aparelho, e falava-se em outra parte, com uma manivela para poder chamar a telefonista, que era quem completava a ligação. O tremendo progresso que significou o telefone de mesa, com o fone para ouvir e falar numa peça só, mas ainda com a manivela para chamar a telefonista. Ou o que se sucedeu a ele, com o discador, que só estava disponível nas capitais. E os jogos de futebol nas tardes de domingo, transmitidos no rádio de válvulas? E as novelas de rádio, que aguçavam nossa imaginação, que era muito rica. E o rádio de pilha, portátil, todos japoneses? Eram o máximo da tecnologia, miniaturização e transistor. Comunicação pessoal ou oficial por meio de cartas escritas a mão e entregues pelos correios, ou então por telegramas (muita gente nem imagina o que é um telegrama, se é que ainda existem). E a televisão que demorou para chegar ao interior, mas que já estava disponível em BH no meio da década de 50, TV Tupi, quem não se lembra? E a transmissão da chegada do homem à lua? Fotografia só com as máquinas de filme, tinha que esperar terminar o filme para mandar revelar, negativo e mais uma cópia de cada foto. Nunca me esqueço da minha coleção de gibis que guardava numa mala velha debaixo da cama: Fantasma, Mandrake, Tio Patinhas e turma, Cavaleiro Negro (que também era uma novela), Flash Gordon.  E as brincadeiras de rua, a despreocupação de poder sair de casa a qualquer hora do dia ou da noite em perfeita segurança, sem maiores preocupações? E os carros que iam aparecendo aos poucos, desde os fuscas e jipes derivados dos carros de guerra, os sedans enormes importados dos EUA, DeSoto, Chevrolet, Studebaker, Plymouth, etc., lindos, poderosos, todos de câmbio na coluna e banco dianteiro inteiriço. Primeiras cervejas, refrigerantes (CocaCola, é claro), outras bebidas que não existiam por aqui exceto a cachaça. Cinema era um luxo só, programa chique, Gordo e Magro, Três Patetas, FuManchu, tudo em preto e branco e alguns ainda cinema mudo. Catapora, sarampo, varíola, caxumba, gripe, garganta eram as comuns. Doença venérea só mesmo a gonorreia que assustava todo mundo. Sexo? Sim, mas bem mais comportado, nada muito liberal, ainda era um espetáculo à parte ver as pernas das meninas. Operação de fimose era o terror entre os garotos, nem pensar em tomar uma injeção (anestesia) no bilau para operar. Beatles, Rolling Stones, bossa nova, Vinicius e Toquinho, Tom Jobim, Chico Buarque, Roberto Carlos e Erasmo, Jovem Guarda, jovens tardes de domingo, brincadeiras dançantes na garagem da casa de algum de nós, ou nos clubes, mas sempre cedo, matinê. Tocar violão, participar de bandas da escola (tenho isso no meu currículo), aprender datilografia naquelas máquinas de escrever pretas e monstros. Viajar era raridade, mas sempre de trem, quanto mais longe melhor, pois íamos para o vagão restaurante aproveitar um pouco. Viagens de ônibus vieram bem depois, estradas poeirentas, era comum viajar com capote comprido nesse calorão todo, para chegar mais limpo ao destino. Canetas não existiam, apenas raras Compactor tinteiro, a esferográfica demorou a aparecer por aqui. Notícias sempre chegavam com atraso, notoriamente as de outros países.

Vamos dar um pulo no tempo, e passar para os tempos mais modernos. Que fique claro que eu não dei esse pulo dessa forma, sempre gostei de tecnologia e acompanhei toda a evolução tecnológica e social do mundo, desde que me entendo por gente que pensa e lê muito, sempre.  Tinha minhas réguas de cálculo no curso superior, ganhei calculadora eletrônica quando apareceram, tenho até hoje minha máquina de escrever portátil Lettera 22, etc. E os computadores também, nosso pai sempre foi tecnófilo e estava sempre atualizado em termos de tecnologia.

Hoje temos telefone celular e internet, e só isso já significa uma enorme diferença da minha geração. Esse é o futuro que tanto discutíamos quando entramos no curso superior. O mundo ficou pequeno, viagens de avião são comuns, migrações são fáceis de fazer, conhecer o mundo passou a ser um sonho viável para boa parte da população do mundo. Doenças passaram a ser pandêmicas, espalhando-se com a mesma velocidade proporcionada pelas viagens de avião. Carros potentes, econômicos, automáticos, de todo tipo e tamanho, SUVs, notebook, tablet, TVs de alta definição, a TV aberta como conhecíamos está agonizante sendo substituída pelos canais assinados, e esses também já estão ficando obsoletos por canais na internet. Notícias chegam no exato momento em que os fatos acontecem, em grande quantidade, impossível ler tudo e saber de tudo. O ensino e o conhecimento ficaram acessíveis, cursos a distância via internet ficaram comuns. Com a proliferação da internet, os negócios mudaram, as organizações mudaram, hoje temos o home office, comércio eletrônico que está superando a compra presencial. Cartões de crédito, agências físicas de bancos sendo cada vez menos necessárias, substituídas por agências virtuais com aplicativos no smartphone, resolvem tudo. A única coisa que ainda não foi resolvida é o dinheiro vivo, que nos obriga a ir ao caixa eletrônico. Mas mesmo esse está cada vez menos necessário, substituído pelos cartões e wallets eletrônicas nos celulares. Guerras de chão, como foram a primeira e a segunda guerras, inexistem. Todos os ataques e invasões atuais são feitos com drones, aviões sofisticados que não são farejados por radares, ataques inesperados, poucas mortes do lado atacante, e muitas mortes do lado atacado. Mundo louco, guerras de religiões, estado islâmico, o mundo hoje é muito perigoso, uma bomba pode explodir do seu lado em qualquer cidade grande do mundo, ou um maluco pode jogar um caminhão para cima da calçada onde você está e matar um monte de gente. Sexo movimenta os jovens, sexo fácil. Estupros estão nos noticiários todos os dias. Aids é o grande desafio das doenças sexualmente transmissíveis, junto com o HPV e outras pouco conhecidas. Maternidade atingindo jovens mal entradas na adolescência, muitos filhos criados só pela mãe ou pelos avós. Câncer passou a ser uma epidemia, matando muita gente e atacando qualquer um de maneira fulminante. Os relacionamentos pela internet e por sites de relacionamento passaram a ser a norma, e com eles os golpes de espertos, as mortes, os estupros, os roubos, os assassinatos. Não é possível mais sair à noite tranquilo, sem aquele medo de ser assaltado, ou pior ser morto por motivo fútil. As brigas de trânsito terminam em mortes estúpidas, por motivos idiotas. As drogas são a enorme praga do mundo moderno, que dizimam pessoas, famílias, relacionamentos, afetando gerações inteiras de jovens que são transformados em zumbis e que roubam ou fazem qualquer coisa para arrumar uns trocados para comprar drogas e pagar aos traficantes. O mundo ficou cheio de mimimi, não se pode falar mais nada ou rir de mais nada, tudo é assédio moral, é preconceito, tudo é filmado por câmeras indiscretas, reputações são jogadas no lixo em um dia, basta alguém publicar um vídeo fora de contexto, ou uma declaração fora de contexto, e lá se vai mais um infeliz para o inferno. Tudo passou a ser mais vigiado e mais público (o que não é de todo ruim), e isso afetou o comportamento das pessoas. Privacidade quando se entra na web é escassa, difícil passar despercebido. Nossas informações pessoais estão espalhadas pela web, fotos, dados pessoais, trajetos são registrados no Google Maps, nos obrigando a conhecer mais da tecnologia e dos recursos disponíveis nos nossos smartphones, para sabermos lidar com eles e tirar proveito da tecnologia. Não vou nem incluir a música e ritmos nesse longo parágrafo.

Mas e daí seu José? Analisando contextualmente, para quem viveu a época passada, tudo era bom e não era possível imaginar nada além do que tínhamos, com algumas exceções pequenas. O telefone era o fino da tecnologia, não tinha como imaginar sua evolução. Idem para tudo o que tínhamos, TV, máquina de escrever portátil, etc. Portanto, eu nunca poderia saber o que seria um mundo sem tudo aquilo que nos agradava tanto. Por outro lado, impossível para alguém das novas gerações saber o que significava até há pouco tempo (50 anos é muito pouco na escala evolutiva) um mundo sem internet, sem smartphone, sem comunicação imediata, sem saber de tudo o que acontece no momento em que acontece, sem ter acesso a toneladas de músicas, das redes sociais, e por aí vamos.  Como é que eu vou convencer alguém de que vivíamos num mundo bom, mais tranquilo, menos cheio, etc.? Por outro lado, como é que alguém desta nossa era atual poderia ir lá no mundo passado e convencer alguém de que o futuro seria muito melhor? Estamos falando de impossibilidades físicas, temporais e filosóficas, uma vez que o passado já foi, o futuro é agora, e o presente se transforma em passado no momento em que o percebemos?

Não é possível afirmar nada de nada. Cada um viveu sua época, e vai evoluindo e se adaptando às mudanças do mundo. É impossível separar em qualquer pessoa essa evolução gradativa, esse gradiente, em que o passado veio influenciando o futuro dentro da nossa mente.

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Decisões por algoritmos: de quem é a responsabilidade?

Querendo ou não, a tecnologia vai avançando fora do nosso controle, e sem saber ou sentir vamos nos servindo dela para melhorar (ou piorar) nossas vidas. Difícil achar um equipamento ou dispositivo eletrônico que não seja comandado por um ou mais algoritmo, que indicam caminhos ou decisões que acabamos seguindo. Não é assim quando, por exemplo, usamos um software com GPS para dirigir em locais que não conhecemos? Quando entramos no carro e setamos o Google Maps, ou Waze, ou HereWeGo, ou qualquer outro, para ir falando a rota a seguir? E seguimos as decisões do algoritmo de navegação sem pestanejar, direita, esquerda, em frente, retorno, direita, troca de estrada, trânsito lento à frente muda de rota, acidente, fiscalização policial, etc. Ou nos modernos câmbios automáticos dos carros mais novos, todos com controle de troca de marcha por software, que analisa vários parâmetros colhidos e escolhe o momento melhor para mudança de marcha (fazem isso melhor que nós humanos)? Isso para falar apenas dos carros, há muito mais. Fotos de muito boa qualidade que batemos com celular ou até com as cada vez mais raras máquina fotográficas, sempre há um algoritmo por trás para tirar a tremura da foto, melhorar as cores, enquadrar melhor, tirar o vermelhão dos olhos, etc. As decisões não são todas de algorítmos? E os carros autônomos que ainda nem chegaram prá valer, quando isso acontecer, aí sim, estaremos de fato terceirizando muitas das nossas decisões diárias para os algoritmos embutidos. Já pensaram nisso?

Bom, aí vem a pergunta: quando acontece uma falha ou acidente, de quem é a responsabilidade? Onde está o erro do algorítmo ou processo que levou à falha externa? O comportamento do software que estamos usando é transparente ao ponto de mostrar como as decisões foram tomadas pelo algoritmo, justificando todas elas? É facultado ao usuário questionar a decisão do algoritmo quando, por exemplo, o navegador nos manda entrar por algum caminho que conhecemos e sabemos que é o mais perigoso? E o algorítmo consegue explicar o porque da indicação dele? Será que o rastro das decisões tomadas fica armazenado e disponível para análise posterior, caso seja necessário? Por exemplo, quando um carro autônomo atropela algum pedestre ou animal, ou provoca uma colisão com alguma coisa, a explicação das decisões fica disponível de maneira transparente? Para uma análise forense, ou até para melhorar a tecnologia e obter novas versões dos algoritmos? Quando seguimos a orientação de um algoritmo para algum investimento (estão cada vez mais comuns), e no final dá tudo errado, a responsabilidade é do algoritmo ou é nossa?  Vão prender quem fez o algoritmo? Com base em que alegações? Podem perceber que não tem nada trivial aí, é um longo processo de aculturamento e amadurecimento social, temos que ir aprendendo a conviver com a tecnologia e ir ajustando legislações e comportamentos.

Claro que há pesquisadores do mundo todo preocupados com os aspectos sociais do uso da tecnologia, e essa é uma área importantissima, multidisciplinar, envolve computação, aspectos sociais, transparência, direito, economia, polícia, órgãos reguladores,  etc. O ACM Public Policy Council (USACM) saiu na dianteira e desde a década de 1990 interage com o governo estadunidense e a comunidade de computação, em  assuntos relativos a políticas públicas que se refiram à tecnologia da informação e comunicações e seus impactos. O mesmo papel vem sendo desempenhado na Europa pelo   ACM Europe Council Policy (EUACM), tomando a dianteira da discussão dos impactos da tecnologia (ACM é Association for Computing Machinery). Foram identificados e registrados princípios focados na razoabilidade (fairness) das políticas adotadas com relação ao  ecosistema tecnológico: 1-conscientização (awareness): educação e disseminação ao público com respeito ao grau de automação da tomada de decisão pelos algoritmos, estabelecendo consciência dos riscos e da tecnologia embutida; 2-acesso e reparação de erros (access and redress): tem que existir uma forma de investigar e corrigir decisões erradas; 3-atribuição de responsabilidade legal (accountability): rejeita a prática comum de desviar a responsabilidade da culpa para um sistema automatizado ao invés de culpar aqueles que construíram o algorítmo e o embutiram nos equipamentos;  4-capacidade de explicação (explanation): a lógica do algoritmo, por mais complexa que seja, deve estar disponível para explicação a seres humanos;  5-proveniência (ancestralidade) dos dados (data provenance): conhecer as fontes de dados e sua ancestralidade (ou seja, o seu rastro desde que foram gerados a primeira vez e as transformações ocorridas ao longo do tempo);  6-auditabilidade (auditability): registro da história das decisões, todos os passos que levaram às decisões devem estar devidamente registrados e disponíveis; 7-validação e teste (validation and testing): todas as técnicas utilizadas em segurança computacional devem ser utilizadas também para aumentar a confiança nos sistemas automatizados.

Reparem que essa lista tem várias implicações, dentre elas a de indicar linhas de investigação aos pesquisadores, principalmente para os que lidam com o estudo dos algoritmos, engenharia de software para sistemas embarcados, transparência em processos e algoritmos, segurança em computação, explicações científicas, etc. São vários desdobramentos interessantes, que vão acontecendo lentamente e ao longo de muito tempo.

Infelizmente, o avanço tecnológico em áreas economicamente estratégicas acontece em ritmo muito mais acelerado do que as regulações e análise de impactos sociais relativos a eles. Ainda vamos conviver com muitos problemas derivados do uso errado ou indevido da tecnologia, falta de conhecimento do público, algorítmos que provocam falhas nos equipamentos  fora de nosso controle. O que podemos fazer é usar a informação a nosso favor, evitando partir para a adoção imediata de novas tecnologias, deixando isso para os early adopters  que adoram as novidades e ficam nas filas esperando para comprar ou adotar os novos modelos e avanços.

Inspiração para essa postagem: Simson Garfinkel e outros: Toward algorithmic transparency and accountability, CACM September 2017, página 5, Seção Letters from Members of USAACM. 

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Bancos de dados: Charles Bachman (1924-2017)

Terminei meu mestrado em Ciência da Computação no DCC-UFMG em 1981, foco em Bancos de Dados. Impossível desenvolver uma dissertação em Bancos de Dados na época, sem ler os artigos fundamentais de Charles Bachman (1924-2017), considerado o “pai dos bancos de dados”. Eu lia tudo o que me chegava às mãos (comecei o mestrado em 1978), era muito difícil na época ter acesso a bibliografia e saber de tudo, o pouco que conseguíamos tinha que ser lido até no osso. Tudo impresso, vinha tudo de fora do Brasil, levava meses para chegar o último número da Communications of the ACM (CACM) e outros journals, que ainda são  nossas fontes principais de informação. Li vários artigos do Bachman, de quem era admirador (continuo sendo) pelas suas contribuições precursoras dos bancos de dados. Numa época em que não havia tecnologia disponível para implementar os gerenciadores de BD como os conhecemos hoje, o padrão era usar os sistemas de arquivos nativos do sistema operacional dos mainframes (organização sequencial, acesso direto ou sequencial indexado) da melhor maneira possível. Se olharem na lista de publicações disponível na biografia do Bachman na Wikipedia, vejam novamente aqui, vão topar com vários, se não todos, os artigos que foram nossos influenciadores.

Formado em Engenharia Mecânica em 1948, terminou o Mestrado em engenharia na University of Pennsylvania. Não fez doutorado, não era comum na época e nem havia tantos disponíveis assim. Suas contribuições foram todas derivadas da necessidade e do seu trabalho em grandes empresas, como a DowChemicals e General Electric posteriormente. Por sua reconhecida e enorme contribuição à área de BD, ganhou o ACM Turing Award de 1973 (não deixem de visitar o site), uma premiação muito valorizada na área de computação. Foi precedido por Edsger Dijkstra e seguido por Donald Knuth nessa premiação. Conseguiu suas contribuições a partir exclusivamente de seu contato diário e desafios com aplicações e suas necessidades, percorrendo o caminho inverso da pesquisa básica. Partiu do problema para a solução, e foi extremamente inovador, formando a base para os modernos bancos de dados. Doutorado não garante capacidade inovadora, na verdade as mentes curiosas e brilhantes não dependem muito de estudos formais para se manifestarem e brilharem.

Seu biógrafo Thomas Haigh observa “Bachman was the first Turing Award winner without a Ph.D., the first to be trained in engineering rather than science, the first to win for the application of computers to business administration, the first to win for a specific piece of software and the first who would spend his whole career in industry”.  Não é pouca coisa, realizou muito, e a academia hoje torce o nariz e desconsidera o pesquisador fora do padrão “científico”, com a formação no nível mais alto e que siga o padrão científico em suas pesquisas. Como se ter ganho o Turing Award não fosse suficiente, Bachman ainda foi agraciado com o Distinguished Fellowship na British Computer Society em 1977, e com o Fellow of the ACM em 2014, pelas suas contribuições para a tecnologia de BD.

As histórias e seus protagonistas têm que ser conhecidos, e suas contribuições devem ser lidas e entendidas levando em conta seu contexto original. Os bons exemplos devem ser seguidos, e as lições assimiladas.

A inspiração para esta postagem, além das fontes citadas no texto, foi a nota publicada em CACM, September 2017, 80 (9):24-25, escrita por Lawrence M. Fisher.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

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Conflito de interesse

Conflito de interesse é um tema felizmente discutido demais, levado às escolas dentro do estudo de ética e códigos de conduta. Na atualidade brasileira, estamos cheios de exemplos em que o conflito de interesses está claramente caracterizado, sendo mais evidente nas tomadas de decisão administrativas. Por exemplo, quando um determinado profissional que ocupa posição de decisão em uma empresa,  toma a decisão de adquirir um determinado imóvel para nova sede da empresa, selecionando entre um grupo de ofertas. Até aí tudo tranquilo, mas descobre-se posteriormente que a empresa selecionada, que vai vender o imóvel, pertence à esposa do tomador de decisão. Fica caracterizado ai um possível conflito de interesses, em que a decisão é guiada por critério externo à empresa, que colocam a decisão sob suspeita de favorecimento indevido. Mesmo que exista um benefício grande na decisão, o conflito permanece.

O problema é sério demais, e pode levar a enormes prejuízos tanto na área privada quanto na área pública. A CGU – Controladoria Geral da União, órgão do governo federal que fiscaliza desvios na administração pública e privada, produziu a Lei do Conflito de Interesses (Lei 12813 de Maio de 2013), assinada pela Presidente Dilma Roussef! A CGU tem entre suas principais atribuições “… destacam-se a promoção da transparência, do acesso à informação, do controle social, da conduta ética e da integridade nas instituições públicas e privadas” (vejam aqui). Particularmente  em seu artigo 3:

Art. 3o  Para os fins desta Lei, considera-se:

I – conflito de interesses: a situação gerada pelo confronto entre interesses públicos e privados, que possa comprometer o interesse coletivo ou influenciar, de maneira imprópria, o desempenho da função pública; e

II – informação privilegiada: a que diz respeito a assuntos sigilosos ou aquela relevante ao processo de decisão no âmbito do Poder Executivo federal que tenha repercussão econômica ou financeira e que não seja de amplo conhecimento público.

Em seu artigo 5, são caracterizadas as situações geradoras de conflitos de interesse:

Art. 5o  Configura conflito de interesses no exercício de cargo ou emprego no âmbito do Poder Executivo federal:

I – divulgar ou fazer uso de informação privilegiada, em proveito próprio ou de terceiro, obtida em razão das atividades exercidas;

II – exercer atividade que implique a prestação de serviços ou a manutenção de relação de negócio com pessoa física ou jurídica que tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe;

III – exercer, direta ou indiretamente, atividade que em razão da sua natureza seja incompatível com as atribuições do cargo ou emprego, considerando-se como tal, inclusive, a atividade desenvolvida em áreas ou matérias correlatas;

IV – atuar, ainda que informalmente, como procurador, consultor, assessor ou intermediário de interesses privados nos órgãos ou entidades da administração pública direta ou indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios;

V – praticar ato em benefício de interesse de pessoa jurídica de que participe o agente público, seu cônjuge, companheiro ou parentes, consanguíneos ou afins, em linha reta ou colateral, até o terceiro grau, e que possa ser por ele beneficiada ou influir em seus atos de gestão;

 VI – receber presente de quem tenha interesse em decisão do agente público ou de colegiado do qual este participe fora dos limites e condições estabelecidos em regulamento; e

 VII – prestar serviços, ainda que eventuais, a empresa cuja atividade seja controlada, fiscalizada ou regulada pelo ente ao qual o agente público está vinculado. 

Parágrafo único.  As situações que configuram conflito de interesses estabelecidas neste artigo aplicam-se aos ocupantes dos cargos ou empregos mencionados no art. 2o ainda que em gozo de licença ou em período de afastamento. 

No âmbito das empresas públicas ou privadas, normalmente existe um Comitê (ou qualquer outro nome) de Ética, que produz um regimento interno contendo a caracterização dos conflitos de interesses e outras falhas éticas, e se encarrega de fazer as verificações dos possíveis desvios de conduta, dentro dos preceitos da governança e de conformidades com a legislação. Essas verificações, acompanhadas de sindicâncias para estabelecimento dos fatos, levam aos processos judiciais na esfera pública ou privada, e que podem levar finalmente às condenações e penas.  Felizmente, hoje com internet, redes e mídias sociais, smartphones com câmeras e gravadores de voz de alta qualidade, é muito fácil tornar públicas essas situações, como estamos vendo acontecer neste  triste período da nossa história moderna brasileira.  Observando que o contexto das denúncias deve ser respeitado e descrito, pois é uma falha que pode levar a entendimento errado e a denúncias viciadas ou infundadas, o que também constitui crime, pode manchar a reputação de cidadão honesto (vejam postagem sobre reputação aqui).

Ficou uma postagem um pouco longa por conta das cópias dos artigos da legislação que incluí, necessários para o entendimento completo do assunto. Olho vivo, entenda a legislação, tenha comportamento ético sempre. Na minha caracterização mundana de comportamento ético, tenho um teste infalível: coloque sua mãe do outro lado e, se sua decisão se mantiver mesmo com ela do outro lado, então possivelmente você está se comportando dentro da ética!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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Publicado em Carreira, Educação, Filosofia, Social
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