Internet: plataforma para inovação e novos negócios

Desde o seu advento em 1969, inicialmente denominada Arpanet que tinha como objetivo ser uma rede de pesquisa e pesquisadores nos EUA,  a internet vem causando estragos nos modelos de negócio existentes. Seu desenvolvimento aconteceu rapidamente, colocando enorme pressão sobre o desenvolvimento tecnológico para suportar esse crescimento. Redes, equipamentos para redes, canais de comunicação, software de apoio, segurança, equipamentos que habilitassem seu uso. Em menos de 50 anos de existência, a internet causou um enorme impacto nos modelos de negócios baseados em átomos, em objetos físicos. Na medida em que o desenvolvimento da tecnologia permitiu, vários ícones da era dos átomos foram caindo, um depois do outro. Lembrando apenas das ocorrências mais recentes, a indústria fonográfica foi uma das primeiras a cair. A comercialização de discos de acetato prensado, substituídos pelos CDs e DVDs, caiu diante da facilidade de termos as músicas disponíveis na rede, ao alcance de um clique de mouse. As grandes lojas que se baseavam na venda da música em meio físico fracassaram, e um exemplo marcante foi a Tower Records, criada em Sacramento, Califórnia, um gigante mundial da comercialização de discos de vinil, fitas, CDs e DVDs, sonho de consumo de gerações, que fechou todas as suas lojas, restando apenas uma franquia no Japão. E o outro caso emblemático foi a Kodak, que não acompanhou a evolução dos negócios de átomos para os negócios de bits habilitado pela internet, e também ruiu completamente com o surgimento da fotografia digital. De posição de destaque no setor de fotografias, foi derrotada pelo advento da fotografia digital, das pequenas máquinas digitais que hoje ninguém mais carrega, todo mundo usa o celular.

Organizações exponenciais são aquelas que apresentam crescimento explosivo em valor de mercado e em base de clientes em curto espaço de tempo, regido pela curva exponencial de crescimento positivo. Empresas surgem e em pouquíssimo tempo, impensável para indústrias de produtos físicos, atingem números astronômicos em valor de mercado. São empresas que não detêm posse de nada ou quase nada físico, seu negócio principal é a informação e seu uso para proporcionar serviços a seus usuários. Os exemplos mais emblemáticos econhecidos são o Uber, que não tem (ou tem poucos) nenhum veículo mas, apesar das resistências corporativas, domina o mercado de compartilhamento deveículos, com valor de mercado que pode ultrapassar os 100 bilhões de dólares (estimativa de 2017). Ou então o Airbnb, que atua no segmento de aluguel de quartos e apartamentos, não tem a posse de nenhuma propriedade física, mas é omaior locador de imóveis do mundo. Não podemos nos esquecer do Netflix, que reina (quase) absoluto no mercado de filmes e documentários disponibilizados via internet, também com uma enorme base de clientes, e em crescimento. E a Amazon, a precursora, que começou com o segmento de livros e hoje é o maior varejista do mundo, utilizando um modelo misto de átomos e bits?

Todos os casos que citei, e poderia ainda citar um monte de outros, são rupturas dos modelos de negócio baseados em átomos, idealizados por jovens empreendedores que enxergaram na internet a oportunidade escancarada por sua enorme capilaridade e pela convergência tecnológica representada pelo telefone celular. Dispositivo que todo mundo tem, todo mundo usa, é nosso centro de informações e comunicações que vai dentro do bolso. Negócios, transações bancárias, compras, vendas, comunicações pessoais, tudo concentrado nesse dispositivo tecnológico fantástico. E que é usado cada vez menos na sua função primordial que é o telefone. A maioria das pessoas nem se lembra de que é também telefone e pode ser usado para falar! A internet se transformou, nesse curto período de tempo, em um meio por onde circulam as comunicações do mundo, de particulares e de governos, onde são fechados negócios bilionários, reuniões virtuais são realizadas, decisões são tomadas, namoros são desfeitos, reputações são atingidas,  novos negócios surgem, velhos negócios são devidamente sepultados. Em uma velocidade de mudança vertiginosa, difícil de acompanhar. Do ponto de vista de novos negócios e possibilidades de inovação, a internet se transformou em uma plataforma de desenvolvimento como não se tem notícia anterior na história do mundo.

Exceção feita ao desenvolvimento do telégrafo no século XIX na Inglaterra vitoriana, que também causou um impacto similar no mundo dos negócios. A internet, com suas facilidades e ferramentas, iguala oportunidades, pequenos se tornam tão competitivos quanto os grandes. Rapidamente, é possível idealizar um novo tipo de negócio ou nicho de atuação no uso da informação, criar um protótipo utilizando recursos disponíveis na internet, testar o protótipo, atingir possíveis clientes, verificar aceitação, terminar o sistema final com os subsídios colhidos nos testes, e finalmente colocar no mercado algo inovador, que vá fazer diferença na vida das pessoas. Prestem atenção nos novos modelos para o setor bancário, novas empresas denominadas FinTechs, que utilizam internet e tecnologia para balançar estruturas tradicionais do setor. O modelo bancário tradicional está na berlinda: ou acompanha e vence o desafio,ou vai ser enterrado como tantos outros foram. São oportunidades que a internet como plataforma torna disponíveis de maneira direta e a custo baixo para gerar os protótipos. As ferramentas estão lá, a rede está lá disponível, o software está lá disponível, basta ter a ideia, conhecer o setor de negócios, enxergar o nicho de atuação, construir o protótipo e testar com um segmento de usuários da internet que possa ser facilmente atingido. Poucos conseguem enxergar esta realidade: a internet é, antes de mais nada,  uma plataforma de desenvolvimento ubíqua e democrática.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG) (publicado originalmente na minha coluna no SIMI, http://www.simi.org.br/coluna/internet-plataforma-para-inovação-e-novos-negócios

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Construção civil e as novas tecnologias

O famoso Empire StateBuilding, que fica na ilha de Manhattan na cidade de Nova Iorque-EUA, teve sua construção iniciada em 17 de março de 1930 (dia de St. Patrick, padroeiro irlandês), e foi oficialmente inaugurado em 1 de maio de 1931. Tem 102 andares, 381 metros de altura até o telhado e 443 metros se incluída a antena que fica no seu topo, é o quinto prédio mais alto dos EUA e o vigésimo nono mais alto domundo.  Em pouco mais de um ano, esse edifício símbolo da cidade e muito visitado, saiu do chão e foi terminado, e o padrão de eficiência e segurança associados com a obra passaram a ser referência de produtividade  para a indústria de construção civil. Claro que há um contexto histórico ai: competição para ter o edifício mais alto do mundo, o que certamente ocasionou um aporte de recursos maior, mais equipamentos, talvez trabalhadores mais bem treinados, etc.

Apenas oitenta e sete anos depois, o setor de construção civil está passando por uma transformação tecnológica sem precedentes, que certamente vai  proporcionar ganhos de produtividade comparáveis aos da construção do Empire State Building. Estamos  assistindo à evolução e revolução proporcionadas pelo movimento Makers, que é a evolução do faça-você-mesmo do século passado (DIY-Do It Yourself), melhorado com adição de novas tecnologias. Dentre elas, a “impressão 3D” tem causado grande impacto pelo que já consegue proporcionar, e pela visão do impacto futuro que essa tecnologia sozinha pode causar. Esclarecendo, “impressão 3D” se refere à obtenção de artefatos dos mais variados tipos, desde objetos de uso pessoal até partes a serem utilizadas em equipamentos industriais, armas de fogo, próteses, utilizando o conceito de “deposição em camadas” como acontece na impressão tradicional de tinta em cima do papel. Só que usando outros materiais para deposição, como plásticos, concreto, fios de plástico ou de metal, etc., e um equipamento que por sua semelhança com o processo de deposição das impressoras tradicionais de jato de tinta ou laser, passou a ser chamado de “impressora3D”. Por enquanto, o nome está servindo bem ao seu propósito, e fica fácil entender a ideia.

Como a impressão 3D está impactando a construção civil? Paredes inteiras podem ser produzidas como painéis impressos por impressoras 3D, com formatos e funções específicas para a construção, e já com as tubulações e encaixes necessários para fiação e outras exigências. O maior uso atual ainda é a impressão dos moldes para produção dos painéis, que têm maior precisão nas medidas e podem ser distribuídos nos vários locais onde são necessários, com aumento na produtividade e melhoria nos encaixes dos painéis. As impressoras são muito grandes, como vocês já devem ter imaginado. Para terem uma ideia do tamanho de uma impressora para esse uso específico, aproximadamente um equipamento com 30 metros de altura, 8 metros de largura e 5 metros de profundidade (100x25x15 pés), é usado para imprimir moldes (formas) de até 2 metros de altura por 1,5 metros de largura. As primeiras construções inteiras, casas pequenas, estão começando a aparecer, utilizando concreto como material para a deposição ou impressão. Para a construção de prédios, a produção de painéis específicos ainda é o padrão, pois dependem de estrutura de sustentação que deve ser preparada antes, com vigas de aço ou colunas e cintas de concreto. Mas, lembrem-se, isso é por enquanto, pois certamente os equipamentos vão evoluir a ponto de permitirem a impressão de prédios inteiros. Muita informação já está disponível sobre essa evolução e revolução na construção civil, vejam na Wikipedia uma boa referência, rica em informações e links interessantes.

A pesquisa por novos materiais, adequados aos usos das impressoras 3D em processos produtivos, é fundamental para a evolução do setor.Está ai uma área ainda aberta, em que materiais tradicionais estão sendo adaptados para uso nas impressoras 3D. A expansão do uso vai certamente acelerar a demanda por pesquisa e produção de novos materiais, talvez ainda nem pensados. Do ponto de vista de trabalho e emprego, o uso em larga escala das impressoras 3D na construção civil vai acabar com os empregos de baixa qualificação e, ao mesmo tempo, vai exigir profissionais com maiores qualificações para poderem lidar com novos desafios de montagem das construções, utilização das impressoras 3D na produção, gestão da produção, manutenção de equipamentos envolvendo tanto software quanto hardware. Reparem que estou usando o termo “montagem” e não “construção”. Sim, no futuro próximo vamos fazer montagem de construções, e não propriamente construir com tijolo e massa como é feito hoje.

Enxergo muito mais oportunidades do que ameaças no setor de construção civil, terreno fértil para novas startups de tecnologia. Só no último parágrafo citei várias áreas que vão ter que se desenvolver em paralelo com o uso disseminado das novas tecnologias.

Artigo inspirador: The construction industry in the 21st century, porKeith Kirkpatrick, CACM March 2018, vol. 81, número 3, páginas 18-20.

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Sucesso em startups

Seria muito bom se tivéssemos a fórmula pronta para o sucesso em qualquer empreendimento, eliminando os riscos e percalços que certamente vão surgir na trajetória, da sua criação até o sucesso de mercado. Mas a realidade é dura, e os números são desanimadores. Em pesquisa rápida na web, aparecem alguns números: 74% das startups fecham em até 5 anos, e 25% fecham no primeiro ano, no Brasil. E esses números se verificam em outros países, como por exemplo nos EUA, onde as condições são muito mais favoráveis aos novos negócios, 70% das startups fecham entre o quinto e o sétimo ano de existência, apenas 30% logram ter algum sucesso. Tive um exemplo recente no Brasil com a Podcycle, uma startup que eu havia apoiado no portal de crowdfunding Catarse. O produto inovador era um veículo elétrico inteligente, e tiveram sucesso no apoio financeiro, bateram a meta estabelecida. Recebi a mensagem deles há alguns dias, dizendo que o projeto não vai ter continuidade,  problemas de incompatibilidade interna entre os sócios do empreendimento.

Segundo artigo muito atual sobre o assunto (veja referência ao final), numa lista de oito fatores que devem ser observados ao criar e gerenciar uma startup na área de desenvolvimento de software,  o fator interno à empresa mais importante se refere à sua equipe  gerencial. Para pesquisadores do  MIT (Massachussets Institute of Tecnology), se um dos membros da equipe tem formação e experiência em vendas e marketing, as chances de sucesso aumentam muito. Esse profissional enxerga o mercado e entende melhor a inserção do produto inovador em seu nicho de mercado. Normalmente, startups dominadas por uma equipe totalmente tecnológica, acabam muito mais focadas no desenvolvimento e refinamento do produto, e depois não conseguem colocar esse produto no mercado, pensar nas vendas, nos clientes, nos investidores. Não adianta ter um produto que seja o fino da tecnologia, se não houver mercado para ele. A armadilha, neste caso, é ter um produto fantástico, mas não ter comprador para ele.

Os demais fatores citados no artigo são: mercado promissor e atrativo; um produto ou serviço promissor em termos de mercado; evidências fortes de interesse de consumidores no produto; preparo técnico para vencer a barreira da credibilidade no mercado, que é um processo de aprendizagem; demonstração convincente da capacidade de crescimento e geração de lucro; flexibilidade na estratégia e na tecnologia; demonstrar potencial para alto retorno de investimentos para os possíveis investidores. Cada fator desses merece reflexão e pelo menos mais um artigo,  para início de discussão.  

Muitos dos fatores citados acima são também descritos em bons livros sobre empreendedorismo e inovação. Não são tanta novidade assim. Lembrem-se sempre de que inovação não acontece no estalo, da noite para o dia. Exige uma fase de criatividade, essencial para ter a visão e criar o produto foco, adquirir o conhecimento tecnológico, verificar viabilidade técnica. Para completar, o produto ou serviço tem que ir para o mercado e ser bem aceito, e aí caímos no choque de realidade, que é relacionado com a capacidade de realização da empresa e sua equipe. Envolve conhecimento do setor em que o produto se insere, conhecimento de mercado, perfil do cliente, análise econômica de investimentos, marketing para uma campanha de lançamento do produto, etc. O sonho tem que ir para a rua.

Artigo inspirador: Michael A. Cusumano. Technology strategy and management: evaluating a startup venture. CACM October 2013, pp-26-29. (Viewpoints)

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A roupa nova do rei

Quando criança, ouvi esse conto inúmeras vezes, lido e relido pela minha mãe. Claro, na época não existia TV, somente livros, discos e rádio para ouvir. O costume era a leitura antes de dormir, e todas as noites as histórias da Carochinha eram lidas e relidas. O que despertou em mim o gosto enorme pelas viagens proporcionadas pela leitura. Esse conto é emblemático, me acompanhou a vida toda, em momentos diversos. Sempre me lembro dele, e nos nossos tempos atuais, está mais que atual e moderno, com as mesmas lições de sempre. Várias interpretações são possíveis, mas é importante que cada um tenha a sua própria interpretação, e o releia algumas vezes, para ir ajustando a interpretação aos novos contextos. Boa leitura, vale a pena demais.

A ROUPA NOVA DO REI (Hans Christian Andersen – 1837)

Há muitos e muitos anos atrás, havia um rei tão apaixonado, mas tão apaixonado por roupas novas, que gastava com elas todo o dinheiro que possuía. Pouco se importava com seus soldados, com o teatro ou com os passeios pelos bosques, contanto que pudesse vestir novos trajes. E ele tinha mesmo um para cada hora do dia, tanto que, ao invés de se dizer dele o que se diz de qualquer rei: “O rei está ocupado com seus conselheiros”, por exemplo, dele se dizia sempre a mesma coisa: “0 rei está se vestindo”.

Na cidade em que vivia, a vida era muito alegre; todos os dias chegavam multidões de forasteiros para visitá-la, e, entre eles, certa ocasião, chegaram dois vigaristas. Sabendo do gosto do monarca, e tramando dar nele um golpe, fingiram-se de tecelões, e apresentaram-se no palácio dizendo-se capazes de tecer os tecidos mais maravilhosos do mundo. E não somente as cores e os desenhos de seus tecidos eram magníficos, mas também os trajes que faziam possuíam a qualidade especial de se tornar invisíveis para aqueles que não tivessem as qualidades necessárias para desempenhar suas funções e também para aqueles que fossem muito tolos e presunçosos. “Devem ser trajes magníficos – pensou o rei.” E se eu vestisse um deles, poderia descobrir todos aqueles que em meu reino carecem das qualidades necessárias para desempenhar seus cargos. E também poderei distinguir os tolos dos inteligentes. “Sim, estou decidido a encomendar um desses trajes para mim!” Entregou então a um dos tecelões uma grande soma em dinheiro como adiantamento, na expectativa de que assim os dois começassem imediatamente o trabalho. E foi o que aconteceu: depois de receberem uma grande quantidade de seda pura e fio de ouro, material que guardaram em seus alforjes, os dois vigaristas prepararam os teares e fingiram entregar-se ao trabalho de tecer, embora não houvesse um só fio nas lançadeiras.

Gostaria de saber como vai o trabalho dos tecelões” – pensou um dia o rei. Todavia, temendo ser ele mesmo um tolo, ou alguém incapaz de exercer a função de rei, desistiu de ir pessoalmente e decidiu mandar outra pessoa em seu lugar. Todos os habitantes da cidade conheciam as maravilhosas qualidades do tecido em questão, e todos, também, desejavam saber, por esse meio, se seus vizinhos ou amigos era tolos. “Mandarei meu fiel primeiro ministro visitar os tecelões – pensou o rei.” “Será o mais capacitado para ver o tecido, pois é um homem muito hábil e ninguém cumpre seus deveres melhor do que ele”. E assim o bom e velho primeiro-ministro dirigiu-se ao aposento em que os vigaristas trabalhavam nos teares completamente vazios. “Deus me proteja!” – pensou o ancião, e abrindo bem os olhos pensou “Mas eu não vejo nada!” Os dois vigaristas, então, notando a expressão de espanto no rosto do velho, pedem-lhe que se aproxime e opine acerca do desenho e do colorido do tecido. Mostram-lhe o tear vazio e o pobre ministro, por mais que se esforçasse para ver, não conseguia enxergar coisa alguma, porque não havia nada para ver. “Deus meu! -pensava. “Serei eu tão tolo assim?” E não querendo que ninguém soubesse de sua tolice e menos ainda que o julgasse incapaz de exercer a função de ministro, imediatamente respondeu: “É muito lindo! Que efeito encantador!!” E fitando o tear vazio através de seus óculos: “0 que mais me agrada são os desenhos e as maravilhosas cores que o compõem. Asseguro-lhes que direi ao rei o quanto gosto de seu trabalho!” “Ficamos muito honrados em ouvir tais palavras de vossos lábios, senhor ministro” — replicaram os tecelões. E imediatamente começam a verbalmente descrever os detalhes do complicado desenho e das cores que o formavam. 0 ministro ouviu-os com a maior atenção, com a intenção de repetir essas palavras quando estivesse na presença do rei.

Percebendo que seu plano estava dando certo, os dois vigaristas pedem então mais dinheiro, mais seda e mais fio de ouro, para dar prosseguimento a seu trabalho. Porém, assim que recebem o solicitado, guardam-no como antes. Nem um só fio foi colocado no tear, embora eles fingissem continuar trabalhando apressadamente. Passado algum tempo, o rei envia outro fiel cortesão para verificar o progresso do trabalho dos falsos tecelões e a fim de saber se eles demorariam muito para entregar o tecido. A este segundo enviado aconteceu a mesma coisa que com o primeiro: “Não acha que é uma fazenda maravilhosa?” – perguntaram os vigaristas, mostrando e explicando um desenho imaginário e um colorido não menos fantástico, que ninguém conseguia ver. “Sei que não sou tolo” – pensava o cortesão, “mas se não vejo o tecido, é porque não devo ser capaz de exercer minha função… Melhor pois não dar a perceber esse fato.” E assim foi, até que o rei convencido de que ele próprio deveria ver o tal tecido enquanto ainda estivesse no tear, pediu que outros mais cortesãos, dentre os quais o primeiro-ministro e o outro palaciano que haviam fingido ver o tecido, o acompanhassem em uma visita aos falsos tecelões. Chegando lá, viu que os dois vigaristas com o maior cuidado trabalhavam no tear vazio, e com grande compenetração. “É magnífico!” – exclamaram o primeiro ministro e o palaciano. “Digne-se Vossa Majestade a olhar o desenho. Que cores maravilhosas!” E apontavam para o tear vazio, pois não tinham dúvidas de que as outras pessoas viam o tecido. “Mas o que é isto?” – pensou o rei. “Não estou vendo nada! Isso é terrível! Serei um tolo? Não terei capacidade para ser rei? Certamente não poderia acontecer-me nada pior.” E assim pensando, exclama: “É realmente uma beleza esse tecido!” “E merece minha melhor aprovação.” E manifestava sua aprovação por meio de alguns gestos, enquanto olhava para o tear vazio, pois ninguém poderia supor que ele não estivesse vendo coisa alguma.

Por sua vez, todos os outros cortesãos olhavam e obviamente também não viam nada. Porém, como nenhum queria passar por tolo ou incapaz, todos fizeram coro às palavras de Sua Majestade. “É uma beleza!” –exclamavam. E aconselharam o rei a mandar fazer uma roupa com aquele tecido maravilhoso, e que a estreasse no grande desfile que se iria realizar daí a alguns dias. Os elogios ao inexistente tecido corriam de boca em boca e toda a cidade estava curiosa e entusiasmada. E o rei condecorou os dois vigaristas com a ordem dos cavaleiros e concedeu-lhes o título de Cavaleiros Tecelões… Na noite anterior ao desfile, os dois vigaristas, querendo que todos testemunhassem seu grande interesse em terminar a roupa do rei, passam a noite toda trabalhando, à luz de dezesseis velas. E fingem tirar a fazenda do tear, e cortá-la com enormes tesouras e costurá-la com agulhas sem linha de espécie alguma até finalmente dizer: “Já está pronto o traje do rei!!” 0 rei, então, acompanhado por seus mais nobres cortesãos, vai ao atelier dos vigaristas, e um deles, levantando um braço, como se segurasse uma peca de roupa, diz: “Aqui estão suas calças. Este é o colete!!! Veja, Vossa Majestade, aqui está o casaco!! Finalmente, dignai-vos a examinar o manto!! Estas peças pesam tanto quanto uma teia de aranha. Quem as usar mal sentirá o seu peso…” E embora ninguém visse nada, todos fingiam ver, enquanto ouviam os vigaristas a descrever as roupas, porque todos temiam ser considerados tolos ou incapazes.

Tirai agora vossas roupas, Majestade –disse um dos falsos tecelões– e assim poderá experimentar a roupa nova na frente do espelho”. E o rei tirou a roupa que vestia e os impostores fingiram entregar-lhe peça por peça sucessivamente e a ajudá-lo a vestir cada uma delas. “Que bem assenta este traje em Sua Majestade!!!” “Como está elegante!!! Que desenho e que colorido! É uma roupa magnífica!” “Estou pronto” – disse finalmente o rei, completamente nu. “Acham que esta roupa me assenta bem?” E novamente mirou-se no espelho, a fim de fingir que se admirava vestido com a roupa nova. E os camaristas, que deviam carregar o manto, inclinaram-se fingindo recolhê-lo do chão e logo começaram a andar com as mãos no ar, carregando nada, pois também eles não se atreviam a dizer que não viam coisa alguma. À frente o rei andava orgulhoso e todos os que o assistiam das ruas e das janelas, exclamavam: “Como está bem vestido o rei! Que cauda magnífica! A roupa assenta nele como uma luva!!!” Nunca na verdade a roupa do rei alcançara tanto sucesso!! Até que subitamente uma criança, do meio da multidão gritou: O rei está nu!!!

Ouçam! Ouçam o que diz esta criança inocente!” – observou o pai a quantos o rodeavam. Imediatamente o povo começou a cochichar entre si. “0 rei está nu! O rei está nu!!” – começou a gritar o povo. E o rei ouvindo, fez um trejeito, pois sabia que aquelas palavras eram a expressão da verdade, mas pensou: “O desfile tem que continuar!!” E, assim, continuou mais impassível que nunca e os camaristas continuaram, segurando a sua cauda invisível.

Conto de Hans Christian Andersen – 1837, dominio público. Um pouco mais sobre ele, aqui na Wikipedia.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Belo Horizonte, MG)

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Google, Apple, IBM deixam de exigir diploma

A notícia, publicada ontem aqui neste link, já não é novidade. É uma tendência verificada nos EUA, por questões particulares internas dos EUA. A notícia já foi publicada antes, não é novidade, vejam aqui neste link. Provoca a imaginação de quem está no ramo da tecnologia, afinal conseguir um emprego numa prestigiada empresa dessas ai, e outras do setor de tecnologia, sem ter que fazer curso superior, quem não quer?

Mas não se iludam, não é nenhum carnaval de contratações. Se lerem os dois artigos que indiquei acima, vão perceber que essas contratações estão acontecendo somente dentro dos EUA, e os motivos de as empresas não estarem exigindo o diploma são fáceis de entender, dado o contexto deles. Vejamos: -o custo de um diploma universitário nos EUA é proibitivo para a maioria dos estudantes e famílias. Termina-se o curso superior com uma dívida enorme, normalmente acima dos US$ 100.000,00 dependendo da universidade e do curso. O débito estimado das famílias e formandos fica acima de 1 trilhão de dólares, uma fábula. Se forem para a pós-graduação, piora a situação. Vejam algumas estatísticas neste artigo da Forbes; -as empresas de tecnologia na área de TI têm o foco em profissionais que se formaram nas grandes universidade, como Stanford, Berkeley e outras, criando um círculo meio vicioso de arejamento de ideias. Esse arejamento é enormemente favorecido pela diversidade; -algumas funções em TI podem perfeitamente ser desempenhadas por pessoas sem o diploma superior. Por exemplo programador de jogos, como citado no artigo. E outras com o mesmo baixo nível de risco para o usuário final.

Como podem ver, não é nada que possa ser entendido como uma tendência mundial, nem de longe é isso. A questão da diversidade, por exemplo, é fundamental para um país como os EUA que depende da inovação para se manter na frente do desenvolvimento tecnológico. É também mais que sabido e estudado que a diversidade (no sentido amplo) favorece a criatividade e, em alguns casos, a inovação. Para algumas funções, há profissionais disponíveis no mercado dos sem-diploma, que podem tranquilamente ser contratados. Mas, não se iludam: funções de alto-risco, as de salário mais alto e com maior nível de risco envolvido, dificilmente vão ser ocupadas por profissionais sem a formação adequada, algumas funções têm exigência até de doutorado. Isso não muda nem um milímetro, pelo menos por enquanto. Engenheiro ou arquiteto de software, arquiteto corporativo, especialista em segurança, segurança de redes, analista de dados, segurança de dados, cloud computing, etc., exigem formação e diploma, muito estudo e muita prática.

O mais sábio é terminar seu curso superior, ficar com seu diploma garantido, pois embora ele possa não ser exigido pelo mercado de trabalho, é uma garantia a mais da sua empregabilidade, sendo uma parte inicial do seu currículo profissional. Claro, sem estabilidade e crescimento econômicos sustentáveis, não há diploma que nos salve do desemprego, em qualquer parte do mundo. Lembrem-se também de que o Brasil tem excelentes universidade públicas, gratuitas de fato (as universidades públicas nos EUA não são gratuitas, sabiam disso?), que vão deixar vocês muito próximos do mercado de trabalho. Para os que podem pagar, o mesmo deve ser dito para as universidades privadas, temos várias de excelente qualidade, competitivas e que formam profissionais competentes para o mercado nacional e mundial.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG

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Vítimas da internet

A tecnologia avança, fazendo suas vítimas e catalisando sucessos. Perde-se de um lado, ganha-se de outro. Quem não enxerga as mudanças e não se adapta a tempo, é atropelado pelas mudanças. No meu último post no portal SIMI, Vítimas da Internet, discuto o caso da Blockbuster. Boa leitura!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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Privacidade

Privacidade foi o tema do meu artigo de junho,  publicado no Portal SIMI. Estamos protegidos? Temos direito de acesso garantido aos nossos próprios dados? Podemos impedir que sejam usados por terceiros? São questões que aos poucos vão nos engulindo, se não tomarmos os devidos cuidados. Vejam o artigo aqui neste link, no Portal SIMI. Boa leitura!

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

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