Maturidade em processos em micro e pequenas empresas

As micro e pequenas empresas (MPE) representam um segmento importantissimo da economia, sendo responsáveis pela maior parte das ofertas de emprego nas economias desenvolvidas. E aqui no Brasil não é diferente. Por exemplo as MPE do setor de tecnologia, em particular as que desenvolvem software e prestam serviços em tecnologia da informação, suprem o mercado com soluções inovadoras em suas áreas de atuação, mantendo uma estrutura pequena e enxuta, atuando com competência. Aí vem a pergunta: é possível implementar processos organizados de desenvolvimento de software nessas empresas, seguindo algum modelo de maturidade organizacional como o nosso mpsBR ou o CMMI? Abaixo vão algumas considerações sobre a questão, baseadas na minha experiência como implementador e como orientador de várias dissertações de mestrado sobre este tema.

downloadNão existem restrições oficiais, técnicas, sobre o perfil da empresa que vai se candidatar a algum nível de maturidade, por exemplo do mpsBR. A princípio, qualquer empresa seja micro, pequena, média ou grande, pode se candidatar, seguir o processo de implementação de alguma forma, e ter sucesso na avaliação final. O processo de implementação é longo, geralmente 15 meses para o nível G  que tende a ser o mais difícil de ser implementado, porque introduz uma mudança cultural muito grande nas empresas. Na minha experiência, a curva de aprendizagem neste caso tem um vale do desespero muito profundo, exigindo muito esforço e dedicação da empresa como um todo, para ter sucesso na implementação. E, claro, isso custa dinheiro, o que vem a ser outra dificuldade para as micro e pequenas empresas, que normalmente enfrentam mais restrições financeiras. Então, temos ai uma encruzilhada: dá para fazer sim, mas temos desafios muito grandes, talvez intransponíveis para as MPE.

Ai então é que entra uma ideia que eu, como pesquisador e orientador, persigo há muito tempo: é possivel preparar adequadamente as MPE, em passos mais curtos e consequentemente mais baratos, para irem vencendo a mudança cultural aos poucos, até assimilarem parte da mudança e finalmente poderem se lançar em uma implementação de algum nível mpsBR com menos sofrimento? A resposta é sim, e existem vários caminhos para que isso aconteça. Antes de mais nada, é necessário estabelecer um perfil da empresa: equipe disponível (tamanho, formação, experiência), tipo de software ou serviço a que a empresa se dedica, tamanho do mercado, concorrência, etc. Há várias formas de estabelecer o perfil, e a partir dele, escolher junto com a empresa uma sequência do que denominamos boas práticas, para serem implementadas na empresa em uma ordem que leve, passo a passo, à mudança de maturidade e à melhoria na qualidade, permitindo subir degraus da escada da qualidade. Por exemplo, olhando para o mpsBR nível G, dois processos devem ser implementados seguindo o padrão internacional: Gerência de Requisitos e Gerência de Projetos. De longe, esses dois processos representam as maiores vulnerabilidades de empresas desenvolvedoras de software, e sua implementação inicial representa uma mudança de cultura muito forte nas empresas. Mas, há práticas que podem ser implementadas em passos menores, para que se chegue em algum momento a implementar os dois processos?

Claro que sim. Por exemplo, extração e documentação dos requisitos, com aprovação formal, já é um passo importante. E outro é gerenciar mudanças nos requisitos com mão de ferro, não permitir e muito menos aceitar solicitações de mudanças por telefone ou via conversas de buteco. Tudo formalizado e devidamente aprovado. Dai para a rastreabilidade de requisitos é um passo curto, e já teremos conseguido avançar bastante no processo.  As outras práticas começam a vir com mais facilidade, na medida em que se avança. Claro que fica mais lento, pode aumentar o sofrimento, mas fica um objetivo mais alcançável, com passos mais curtos e consequentemente mais baratos. Tenho visto algumas empresas adotarem Métodos Ágeis, achando que por si só eles resolvem o problema de qualidade. Se a implementação deles não for devidamente acompanhada pelas boas práticas e bons artefatos, pode resultar em nenhuma melhoria de maturidade. É ilusão achar que a maturidade é alcançada como num passe de mágica, e que algum processo em particular vai ser responsável pela mudança que é complicada. Como toda mudança cultural… na sequência, mais postagens sobre o assunto, aguardem.

(José Luis Braga, MEI, Treinamento em Informática) (este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com) (from Viçosa, MG)

Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Economia, Engenharia de Software, Qualidade de processo de software em Micro e Pequenas Empresas
2 comentários em “Maturidade em processos em micro e pequenas empresas
  1. Marcio Molica disse:

    Seria possível criar uma metodologia especifica para as MPEs? Penso que mudar cultura de pequena empresa é mais complicado por causa da alta rotatividade dos profissionais

    • márcio, investi muito nisso nos últimos 6 ou 7 anos, várias dissertações. temos um método para determinar o perfil da microempresa, e alinhar as boas práticas que podem ou devem ser adotadas, para provocar a mudança de cultura. com boas práticas implantadas, testadas e documentadas, a rotatividade de pessoal é um problema perfeitamente gerenciável.

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