Plágio, auto-plágio e outras

As recentes noticias sobre a questão do plágio em trabalhos acadêmicos estão ganhando espaço na midia. O caso envolvendo o professor da USP que foi demitido por plágio em trabalho acadêmico (vejam aqui) e o mais recente ainda, do ministro da Defesa alemão que se demitiu depois que foi constatado plágio descarado no texto da sua tese de doutorado (vejam aqui), e mais a reportagem no Folha Online,  são exemplos mais recentes  e preocupantes.

As novas gerações, criadas na internet e acostumadas com recursos fáceis, rápidos e ao alcance de um clique de mouse (será que o mouse ainda é conhecido como tal?), fazem plágio e copiam tudo descaradamente, é parte da cultura deles, são uma geração copy-paste. Nossa obrigação como educadores é discutir o assunto na sala de aula, esclarecer o que é plágio, cópia de software, uso indevido de marcas, etc., que são principios da moral e até da ética. Tenho uma postagem mais antiga aqui no blog, em que discuto a lógica da cópia e as mudanças causadas por essa cultura nos negócios e até nos paises: Pirataria mudanças no capitalismo, sobre o livro The pirate’s dilemma. O assunto plágio para essa geração tem que ser abordado de uma forma diferente, pois a visão de mundo que eles têm é também diferente, e por causa dessa visão e atitudes alguns modelos de negócio estão sendo jogados no chão e substituidos por outros mais flexíveis e mais compativeis com a realidade atual. Claro, o que deve ficar bem esclarecido é que, a menos que seja explicitamente estabelecido que a obra pode ser copiada (por exemplo dentro de alguma forma de licença do Creative Commons), plágio é considerado crime e como tal, é punivel com penas severas.

O que me preocupa, e muito, são as noticias de plágio como as que indico no inicio da postagem. Será que esses pesquisadores, doutores e professores já consagrados na academia, não sabem o que é plágio? ou será que deixam a produção cientifica totalmente na mão dos orientados, aparecem como autores ou co-autores nos artigos sem ter gasto 15 minutos na leitura deles, sem ter contribuido de fato com o texto? São, na verdade, vários fatores que contribuem para esses desvios, a lista é grande, mas um deles com toda a certeza é o já famoso publish-or-perish, que discuto na postagem recente Você tem publicação relevante? aqui no blog.  A lógica é simples e perversa: só pode ocupar um lugar ao sol quem tem publicação relevante, e ai passamos para o vale-tudo das publicações, assunto muito bem discutido na academia e pelos sociólogos e antropólogos da pesquisa cientifica. Talvez essa busca pelo brilho impossivel ou dificilimo leve o pesquisador a, conscientemente, adotar o plágio na esperança de ter sucesso e de nunca ser descoberto. O que é impossivel de acontecer nos nossos dias, com a imensa quantidade de informação disponivel na web, tudo está lá, anonimato não existe.

Na mesma linha, e um pouco menos conhecido ou reconhecido, vem o auto-plágio, que é a cópia de trechos ou de textos inteiros do próprio pesquisador, que faz um copy-paste de material de sua autoria  e replica em vários artigos que têm a mesma cara, concordam em mais de 80% de conteudo, e são submetidos a veiculos e fóruns diferentes, com chances de serem aceitos. Aumentando, dessa forma, o volume de publicações do pesquisador, sem contudo adicionar nada à geração de conhecimento novo. Algumas revistas cientificas já reconhecem o auto-plágio como uma forma de plágio, e já há restrições do tipo “o máximo permitido é de 75% de concordância de texto com outro artigo do mesmo autor”. De experiência própria, participei há alguns anos como revisor de artigos para uma conferência no Brasil, e quatro artigos com mais de 90% de concordância no texto estavam entre os que eu tinha que analisar. Mudavam o título do artigo, alguns dos autores e co-autores (uns dois ou tres se mantinham), e algumas mudanças quase imperceptiveis no texto e nas conclusões. Fizeram um template de artigo com tudo pronto, mudaram apenas a área de aplicação da técnica descrita, e para cada aplicação diferente submeteram um artigo. Hoje, isso é considerado plágio, certamente motivado pelo publish-or-perish.

Divulguem o assunto plágio como puderem, acho que é uma parte importante das novas gerações que não estão tendo a oportunidade de serem devidamente expostos ao problema.

(este artigo foi escrito por zeluisbraga, e postado no meu blog zeluisbraga . wordpress . com) (this post is authored by zeluisbraga, published on zeluisbraga . wordpress . com)

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Consultor Independente, Treinamento Empresarial, Gerência de Projetos, Engenharia de Requisitos de Software, Inovação. Professor Titular Aposentado, Departamento de Informática, Universidade Federal de Viçosa, Minas Gerais, Brasil. Doutor em Informática, PUC-Rio, 1990. Pós-Doutoramento, University of Florida, 1998-1999

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Publicado em Educação, Pesquisa, Reflexões
6 comentários em “Plágio, auto-plágio e outras
  1. Luciana disse:

    Infelizmente, por pior que seja afirmar isso, existem orientadores que não dedicam 15 min do seu tempo para lerem trabalhos, projetos e artigos de orientandos…

  2. railer disse:

    auto-plágio? essa eu não conhecia.

    gostei do que você falou sobre a mudança de comportamento da nova geração e como o assunto tem que ser abordado de forma diferente com ela.

    leu o que eu escrevi no blog recentemente sobre “o grito roubado”? (http://raileronline.blogspot.com/2011/03/o-grito-roubado.html)

    além de tudo que você falou, o uso indevido e sem crédito de imagens da internet e de textos online (como o de blogs) tem acontecido com mais frequência.

    • gostei da sua postagem, Railer. o problema é universal mesmo, a Isabela nossa filha mais nova, é fotógrafa, tem site de fotos, e vira e mexe aparece uma foto dela em outro canto, mas nunca nessa proporção que você relatou. E lembra que a disciplina de Empreendorismo que voce fez na graduação foi comigo, hehehe… vai tempo. abraco,

  3. Márcia Barbosa disse:

    Caro José Luis, sou professora de EAD percebi que surgiu uma nova modalidade de plágio. As universidades montam salas com 70, 80 alunos…, estes participam de fóruns, cujas notas estão associadas com a relevância da participação, do pensamento e do envolvimento do aluno com a questão.
    Lamentavelmente, constatei que mesmo dentro dos fóruns os alunos copiam as postagens dos mais esclarecidos sobre o assunto. Devido a quantidade de salas, alunos e os diferentes períodos que entram para postar, fica difícil lembrar, exatamente, onde foi lida uma postagem anterior com as mesmas palavras.
    Após muita pesquisa identifiquei que, quando a modalidade envolve o mesmo autor é chamada de auto plágio. Mas aqui não se trata do mesmo autor e sim de outro, teoricamente no mesmo texto. Não encontrei um software que faça uma varredura apontando trechos semelhantes no mesmo texto, apenas comparam dois textos, ou dois arquivos.
    Você teria alguma dica nesse sentido?
    Desde já agradeço se puder responder minha questão.
    Abraços,
    Profª. Márcia Barbosa

    • olá Márcia. imagino o enorme problema, que vai se agravando por causa das facilidades da internet. e as novas gerações não querem ter trabalho nenhum, nem de ler o mínimo para fazer um trabalho aceitável. vão sempre pelo atalho, formam-se aos trancos e barrancos, e depois vão reclamar que o mercado de trabalho não paga bem, ou que não conseguem emprego. olhando aqui na internet, achei o link que vai abaixo, sobre ferramentas para deteção de plágio. não usei nenhuma delas, tem que testar. boa sorte, obrigado pela sua visita. http://elearningindustry.com/top-10-free-plagiarism-detection-tools-for-teachers

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